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Domingo - 23 de Julho, 2017
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À conversa com Suzi Silva

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Nascida em Portugal a 9 de abril de 1984, emigra para o Canadá com 6 anos de idade. Na altura, tudo era uma grande aventura, especialmente para alguém que vinha de um meio pequeno de uma aldeia e ia viver para uma grande cidade (Montreal).

Suzi Silva ainda se lembra perfeitamente de vir no avião com um peluche grande – o “João Palhaço” – que lhe tinha sido oferecido pelo padrinho e ao qual as hospedeiras de bordo acharam tanta piada. “Uma menina pequenina com um boneco grande …; vivi aquilo com o coração cheio de alegria”, recorda.

Hoje já não tem o peluche. Deu-o ao seu afilhado.
A adaptação até foi relativamente boa, assegura.

“Quando somos crianças é muito fácil adaptar-se. (…) Lembro-me que a primeira escola onde eu andei, os outros meninos eram também todos imigrantes. Era uma escola mesmo para crianças que vinham de fora. Ou seja, estávamos todos num pé de igualdade.”

É no seio da comunidade portuguesa de Montreal que se apresenta pela primeira vez em público, com 11 anos, numa casa de fados local, surpreendendo pela naturalidade e frescura da interpretação. Desde aí nunca deixou de cantar.

“Eu sempre cantei. Desde que me lembro de ser gente. Mesmo lá na aldeia, quando a minha mãe ia trabalhar e o meu pai ia trabalhar, eu ficava com a minha avó, ou com a minha madrinha, ou com os meus irmãos. Estava sempre no jardim/quintal e andava sempre a cantarolar, inventava canções. Eu gostava daquilo. Só que nunca na minha cabeça se formulou a possibilidade de que aquilo podia ser o princípio de uma carreira. Somos crianças e tudo é espontâneo.”

Com a mãe foi aprendendo a gostar do fado. “A minha mãe ouvia a Amália Rodrigues. E eu como tinha facilidade em aprender, comecei a cantarolar aquilo. Achava aquilo engraçado até um certo ponto.”
O engraçado, virou um teste bem real, com o pai a levá-la ao “Avô do Fado”, uma casa de fados em Montreal onde (en)cantaria [com] a Casa da Mariquinhas.

“Naquele dia, até estava lá a televisão a gravar, porque acho que o restaurante tinha acabado de abrir.”

Ainda se lembra perfeitamente dos músicos que a acompanharam e do momento em que proprietário do restaurante lhe colocou um xaile nas costas. “Foi a minha primeira aparição em público a cantar fado. E na altura, aquilo foi uma espécie de revelação, porque eu nunca tinha cantado em público.”

Aos 12 anos de idade regressa a Portugal. Desta vez, tudo foi mais difícil, para quem deixava para trás um outro estilo de vida e regressava a um meio pequeno e onde as mentalidades eram diferentes. Na escola, ainda sentiu algumas dificuldades em adaptar-se, quase se sentindo uma estranha. “Mas graças a Deus, correu bem na escola.”

Explorar outros géneros musicais e o amor pelo Jazz

Ainda em Portugal, inicia a descoberta de outros géneros musicais, desde o Pop, Rock, Soul, Funk, música tradicional portuguesa, música popular brasileira, Bossa-Nova e música africana. Mas seria o Jazz que entraria (quase) de rompante na sua vida, conquistando um coração fascinado pela liberdade criativa deste género musical, qual mutante, que soube evoluir e transformar-se com o passar dos anos.

Suzi_for_newspaper-0567“É isso que acho incrível, pois podemos renovar cada vez que se faz uma canção, um tema, e com a parte da improvisação é possível transformar aquilo numa coisa nova. É isso que me fascina mais”, confessa.
No entanto, é apenas ao terminar o curso de Arquitetura da Universidade de Coimbra (6 anos) que Suzi se dedica aos estudos e à formação musical na área do Jazz. Ingressa na escola de música “Sítio de Sons” (Coimbra) e posteriormente no Conservatório de música da Jobra (Albergaria-a-Velha).

No meio de tudo isto, não esquece as origens e cria o projeto Diversifado, uma aposta na fusão do Fado com o Jazz e com a música contemporânea. Este projeto desenvolve-se em coautoria com João Paulo Vieira (Professor e guitarrista Jazz) e baseou-se no cruzamento da experiência de ambos.
Todos os arranjos são baseados em temas de fado tradicional, porém re-harmonizados e reestruturados com sonoridade Jazz.

“O que na altura deu um resultado muito interessante harmonicamente e ritmicamente também”, conta. “Especialmente, o fato de ser cantado em Português. Só que no meio onde nós estávamos, era um meio muito fechado e pequeno, e as pessoas não estavam preparadas para aquela mudança.”

À procura da identidade musical

Regressa ao Canadá em julho de 2013 para dar continuidade à procura da sua identidade musical.

“Eu sei que gosto do fado, quero fazer fado, mas eu também sei que gosto de jazz e quero fazer jazz. E estou à procura desse ponto de encontro entre os dois estilos.
Na minha cabeça, sei que existe a possibilidade de fazer a fusão entre o fado e o jazz. Reciclar o fado, renovar o jazz. Unir duas coisas tão distintas, mas que não são assim tão distintas, porque tem muitos pontos onde se cruzam.”

Embora goste muito de Portugal, onde espera voltar muitas vezes, Suzi Silva encara este regresso ao ponto de partida como um desafio pessoal. Para mais, sente que aqui tem muito mais oportunidades e poderá dedicar-se inteiramente à música.
Trabalha atualmente com músicos locais, reexplorando os standards, o Jazz e a Bossa Nova.

Entre um dos grandes projetos, terminar o curso de música para poder começar a dar aulas. “Porque a ideia de estudar não é só para cantarolar (risos) … mas fazer a coisa séria e viver disto. E gravar algum trabalho original”, justifica.

A família, essa, acaba sempre por sofrer um bocadinho, reconhece Suzi.
“Tenho que investir muito tempo nos estudos e isso fragiliza os momentos em família. Mas tenho sorte que a família entende.”

Esta, a realidade de uma cantora, intérprete e compositora, que se movimenta entre a eterna paixão do Fado, a elegância suave da Bossa Nova e a liberdade criativa do Jazz.
Uma artista que continua a acalentar um desejo muito seu:

“Como artista, o meu maior desejo é poder atuar por este mundo fora.”

Entre um dos grandes projetos, Suzi Silva quer terminar o curso de música para poder começar a dar aulas. (Revista Amar)

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