Crónicas

Feliz Natal por Maria João Rafael

Este ano não temos Natal à volta da braseira a fintar o frio e a deitar conversa fora, de mãos aquecidas nas canecas escaldadas do café feito na lenha e de coscorões tenros, povilhados de açucar e canela. À espera da meia-noite e do Menino Jesus. Sobram-nos as memórias de outros Natais mais ternos e povoados com que nos acautelámos ao fim destes anos todos. Nesse tempo o Natal era tão diferente! Lembras-te de quando as guerras paravam no Natal, Tiazinha? Pelo telefone, através da distância, esforçamo-nos para fazemos de conta que o Natal ainda perdura com a magia de dantes; a Tia também se lembra das tréguas de Natal há uns 25 anos anunciadas no noticiário da Rádio. Por umas horas, o mundo podia respirar uma paz podre, quase doce que fazia lembrar a rábula do Solnado, quando ele dizia – “Tá lá? É do inimigo? Olha, vocês podiam parar a guerra aí um bocadinho?…” E voltava a ser Natal.
Porém, nas intermitências das guerras modernas – quando tais intervalos eram então permitidos – não há comparação ao que se passou no Natal de 1914 que de tão belo e assustador, se tornou imperativo que ambas as fações criassem sanções de tal forma pesadas, capazes de evitar que tal acontecimento extraordinário jamais se voltasse a repetir.
O mundo estava exausto da guerra; esperava-se que antes do Natal o confronto chegasse ao fim. Mas cinco meses volvidos, o conflito estava apenas no início. O Papa Bento XV a 7 de dezembro, pediu uma trégua oficial entre os governos em guerra, pedindo “que as armas possam cair em silêncio, ao menos na noite em que os anjos cantam”. O apelo foi recusado pelas autoridades. Mas surpreendentemente, no dia 24 de dezembro de 1914, na gelada região de Ypres, Bélgica, algo aconteceu.

Os alemães iniciaram a celebração do Natal entre eles, decorando àrvores e acendendo velas e mais tarde, começaram a entoar cânticos de Natal que foram acompanhados do outro lado das trincheiras, pelos britânicos. Assim aconteceu esta trégua de Natal, como escreveu o fuzileiro Graham Williams, da 1ª Brigada de Fuzileiros de Londres: “Começámos a cantar “O Come, All Ye Faithful” e imediatamente os alemães uniram-se cantando o mesmo hino em latim – “Adeste Fidelis” que coisa extraordinária – duas nações inimigas entoando o mesmo cântico no meio da guerra!
Ambos os lados continuaram a gritar saudações de Natal um para o outro, até que começaram a surgir convites e iniciativas comuns para uma trégua e até um encontro pacífico, como, por exemplo, o descrito anos depois pelo capitão alemão Josef Sewald, do 17º Regimento Bávaro: “Gritei para os nossos inimigos que não queríamos atirar e que faríamos uma trégua de Natal. Disse que avançaria e que poderíamos conversar entre nós. A princípio, houve silêncio, voltei a gritar e um inglês gritou, “Parem os tiros!” Aí um deles saiu das trincheiras e eu fiz o mesmo, aproximamo-nos e trocamos um aperto de mãos – um tanto cautelosos!” – Gesto que foi repetido entre todos. A alegria e a generosidade convidaram à partilha recíproca de pequenos presentes improvisados; tais como, tabaco, alcool, corned-beef, etc. Bruce Bairnsfather, que serviu durante a guerra, escreveu – “Eu não perderia aquele único e estranho dia de Natal por nada deste mundo… encontrei um oficial alemão, um tenente penso, e sendo eu um colecionador, disse-lhe que havia gostado de alguns de seus botões. Eu trouxe o meu cortador de arame, retirei um par de botões e coloquei-os no bolso. Então dei-lhe dois dos meus em troca… depois reparei num dos meus artilheiros, que era cabeleireiro amador na vida civil, a cortar o cabelo bastante longo de um boche dócil, que estava pacientemente ajoelhado no chão, enquanto a máquina de corte deslizava em volta de seu pescoço.
Há ainda o relato de um soldado inglês que terá pedido o capacete a um soldado alemão e que este o terá prometido no dia seguinte, depois de uma cerimónia. A promessa foi cumprida e o capacete entregue ao britânico.
Na manhã de Natal, uma missa bilíngue foi rezada por um padre escocês e um seminarista alemão “um espetáculo extraordinário”, deslumbrou-se o tenente Arthur Pelham Burn, do 6º Regimento dos Highlanders. “Os alemães alinhados de um lado, os britânicos de outro, os oficiais à frente, todos de cabeça descoberta.” É sabido que foi realizada, ao menos, uma partida de futebol amistosa envolvendo soldados franceses, alemães e ingleses, em Saint-Yves, durante o dia de Natal. A trégua também permitiu que os soldados mortos recentemente pudessem ser trazidos de volta para suas linhas para poderem ser sepultados. Foram realizados vários funerais em conjunto, em Terra de Ninguém (No Man’s Land).
Estima-se que cerca de cem mil soldados de ambos os lados tenham aderido em algum momento às tréguas de Natal de 1914, e que em alguns locais, esses festejos terão durado seis dias.
O general Sir Horace Smith-Dorrien, comandante do II Corpo britânico, revoltou-se ao saber o que estava acontecendo e emitiu ordens estritas proibindo a comunicação amigável com as tropas adversárias alemãs.
Nos meses seguintes, houve algumas tentativas esporádicas de tréguas: uma unidade alemã tentou sair de suas trincheiras sob uma bandeira de trégua no domingo de Páscoa de 1915, mas foram dissuadidos pelos britânicos à sua frente; no final do ano, em novembro, uma unidade da Saxônia confraternizou brevemente com um batalhão de Liverpool. Em dezembro, houve ordens explícitas da parte dos comandantes aliados para evitar qualquer repetição da trégua de Natal anterior. No entanto, a proibição não foi completamente eficaz, havendo ainda um pequeno número de tréguas breves.
Os acontecimentos da trégua só foram relatados passado uma semana, devido à censura não oficial da imprensa em vigor. O silêncio foi finalmente quebrado pelo New York Times em 31 de dezembro, e imediatamente seguido pelos jornais britânicos, imprimindo inúmeros relatos em primeira mão de soldados em campo, obtidos a partir de cartas para suas famílias, e editoriais sobre “uma das maiores surpresas de uma guerra surpreendente”. Em 8 de janeiro, foram publicadas fotografias, e os jornais The Daily Mirror e Daily Sketch divulgaram na primeira página fotos de soldados britânicos e alemães juntos e cantando entre as linhas de combate.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a 24 de dezembro de 1944, há o relato de uma mulher alemã que vivia com o filho ainda criança, escondida numa casa na floresta. Quando se preparava para a ceia de Natal, batem à porta e aparecem-lhe três soldados americanos à procura de abrigo, um deles estava ferido. Passado pouco tempo, outras pancadas na porta revelam três soldados alemães que procuram refúgio na noite fria. Ela pede-lhes que entrem desarmados, e para supresa de todos, nessa noite de Natal comungam da mesma refeição, todos sentados à mesma mesa, dormem sob o mesmo teto. Há um médico alemão que supervisiona a ferida do soldado americano, várias vezes durante a noite. Na manhã seguinte despedem-se como gente que tem mais em comum do que parece.
Não são conhecidas mais tréguas até à dada na história dos conflitos mundiais. Durante a guerra do Golfo, lembro-me de ouvir na Rádio que se cessava fogo por algumas horas, mas nunca conheci episódios de confraternização.
O que tinham então estes homens há cem anos que não existe hoje? Terão sido os afetos erradicados do ADN humano? Barbara Littlejohn e Rodolf Zehmisch são os filhos de dois soldados inimigos em campo, unidos pelas trincheiras numa noite de Natal, quando cantaram juntos em linguagens diferentes “Silent Night” ou “Stille Nacht”. E numa noite, a história da Humanidade foi de facto, mais misericordiosa. Barbara e Rodolf encontraram-se em 2002 em Terra de Ninguém, de forma a lembrar ao mundo que no local menos improvável, na noite mais previsível, ainda que com ausência de paz, fez-se Natal. Num mundo insano, por vezes as probabilidades não passam de números e percentis. Nada combate a vontade dos Homens de Bem, as possibilidades estão todas em aberto!
Voltando ao Solnado, sorriu quando me recordo da parte em que ele pede ao inimigo para atacar só depois do almoço, porque de manhã querem dormir, mas em contrapartida, convida o inimigo para ficar para jantar… Irrecusável!
Noite Feliz para Todos!

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