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Liquidação Total – Maria João Rafael

 

O último dia do ano veio num sopro e num destino pré-publicitado, morreu-nos em direto o excêntrico Honest Ed’s. As luzes mais pop art da América do Norte apagaram-se para sempre – mais que isso – apagaram a Bloor St. West inteira.
Caí de amores pelo Honest Ed’s precisamente pelas imperfeições todas – o prazer do chão curvo e deformado, das paredes forradas pelos posters velhos e ultrapassados, pelas fardas gastas dos empregados e as maneiras afáveis do pessoal de antigamente; pela mercearia com produtos da velha guarda europeia, pela loja dos brinquedos de gerações já criadas, pela loja de música onde me perdi por muitas horas a reviver memórias, pela secção de antiguidades obsoletas onde me maravilhava… Perdi-me de tal maneira de amores, que o amei ao até ao fim – assim como um ente querido que se esvai lentamente e de quem não saímos da sua beira. Lentamente, no último mês de dezembro, vi as prateleiras desnudarem-se, fecharem-se as entradas de sector a sector – primeiro os brinquedos, depois as ferramentas, depois a loja de brique-à-braque e a mercearia… Lembro-me muito bem de quando subtilmente, levaram o burlesco relógio de cuco da escadaria, como se lhe roubassem o coração.


Vi as luzes apagadas uma semana antes do outro lado da ponte, como se os orgãos ameaçassem já falhar… Vi as fardas dos empregados , a publicidade pintada à mão e outras preciosidades, como as icónicas letras iluminadas do edifício, serem vendidas. Vi as montras esvaziarem-se, o rosto abatido dos empregados. Dia para dia, vi magotes de gente ali que nunca teríam vindo antes , vi-os comprarem sacos esburacados e sujos pelo uso de 68 anos. Há sítios que não foram sonhados para morrer.
Quando o último saíu, não se esqueceu de apagar a luz. Neste novo ano deambulo pela Bloor e passo pelo outrora gigante Honest Ed’s e só encontro penumbra, como se quem tivesse pressionado o interruptor, tivesse levado em tom de profecia, a alma da rua.
Dentro de alguns anos, erguer-se-á alí um monstroso edifício de apartamentos, glaciar, como tantos outros que estão a apagar a originalidade dos sítios que guardavam memórias e as memórias dos génios que os criaram.


Infelizmente, 2016 não levou só mortais que nos faziam acreditar serem imortais. Levou-nos sítios que nos aconchegavam, em que depositávamos confiança, marcas de renome, empregos, crescimento económico. Menos magestosos, mas não menos importantes, em 2016 fecharam nomes como a Ben Moss, as 76 lojas da Denier, 41 lojas da Aeropostale, no campo da cosmética, a H2O bateu em retirada de todo o Canadá, a GAP fechou 175 lojas na América do Norte, assim como a Guess que fechou 55 lojas em toda a América e Canadá, a icónica e musical HMV encerrou 37 lojas, entre elas a do Eaton Centre e Bloor, e em Yorkville encerraram os establecimentos de malas da luxuosa Tachen, bem como o célebre e inesquecível Asuka – primeiro restaurante de sushi em Toronto.
De 2013 até 2015, desapareceram marcas como: The World’s Biggest Bookstore e com ela os seus 20 km de prateleiras; a Strollery’s; a Target; as lojas outlet do Holts Renfrew que deram lugar ao Saks outlet; a French Connection; o Sears; Jacob; Smart Set; a espanhola Mango; Grand & Toy; Sony; MEXX; Costa Blanca; Future Shop – das 131 lojas, 65 foram convertidas pela Best Buy, e ainda a Black’s – reconhecida marca de fotografia.
O fator comum que está na origem do encerramento destas marcas e da retirada do Canadá no caso de algumas delas, é o aumento do crescimento através das vendas online. Exemplos disso são a Staples que anunciou em 2014 o fecho de 225 lojas em toda a América e Canadá, já que 50% das vendas acontecem desta forma, bem como sucedeu com a Grand & Toy, onde diretamente ao balcão as vendas não passavam dos 3%…
Se se pensava que 2016 foi carrasco, o novo ano não parece muito promissor para o comércio em Toronto. Infelizmente, parece ser ainda mais devastador. Ainda mal contornámos o primeiro mês do ano e as perdas já são abissais.
A Bloor St West sofre de duas ameaças – se não são os cogumelos gigantes que proliferam em cada esquina, é a concorrência que coloca a estafeta demasiado alta para continuar. Para fazer face ao problema da concorrência, a reconhecida marca americana William-Sonoma, decidiu fechar as portas da loja localizada nesta rua. Para o ano, fechará mesmo ao lado, em edifício próprio, a requintada Pottery Barn, sua associada. Já neste início de ano, fecharão 110 lojas da American Apparel em toda a América do Norte. Consta que foi comprada por uma marca canadiana conhecida por Gildan.
Ainda na Bloor St West, estão previstas grandes mudanças para o edifício conhecido por Manulife. Algumas lojas já estão em fase de transição, entre elas a loja de porcelanas e cristais William Ashley, que fechará naquela localização para abrir na mesma rua.
Ninguém gosta de mudanças que tragam insegurança e instabilidade. Do meu ponto vista, no que toca ao santuário das memórias, em que nos habituámos a frequentar certos locais onde fomos felizes, é angustiante de um momento para o outro, tal como as pessoas que amámos, deixarem de existir. O que o tempo nos está a tentar dizer, é que é tempo de fazer outras memórias… Não sei se é isso andar para a frente, mas não gosto. Nunca mais senti o mesmo conforto de me recolher numa tarde de chuva, como quando passava apressada pelas portas da World’s Biggest Bookstore e me isolava num dos pisos, num qualquer corredor, num livro sobre qualquer assunto e ficava por alí até me esquecer da chuva, das horas, do mundo.
Há um cheiro antigo em que me reconheço em poucos cantos que vão rareando… Há camadas de pó que me contam estórias que gosto de fazer minhas em cada recanto do quarteirão da Bathurst com a Bloor St West. Há um sítio especial que me encanta quando passo, até porque fica na minha rua e talvez seja o edifício mais pitoresco cá do bairro, até porque foi lá que tomei a primeira refeição no dia em que cheguei a Toronto pela primeira vez – o Café Nervosa, em Yorkville. Guardo a conversa, o ambiente, as janelas abertas em par. Lembro-me exatamente o que escolhi e ainda lhe guardo a base para copos em papel, dentro de um livro. O fim do Café Nervosa também está para breve, segundo sei.
Dentro desta cidade que está a perder o seu passado e referências, também eu me estou a perder nas memórias que já não sei se quero criar. Digo na brincadeira que pareço o Rei Midas, tudo o que toco vira pedra – neste caso aço e betão, ou nada… A longo prazo, que restará desta cidade que atira ao chão tudo o que os torna tão singulares?… Pergunto-me se não haverá na mesa um plano para sanear o apego das memórias…

Maria João Rafael

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