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Tudo a Nu

Segundo o Facebook, tenho 123 amigos. Destes 123 amigos, conheço pessoalmente 105; encontro-me regularmente com sete e tenho a consciência de que posso contar com uma mão cheia deles, para o que der. Nada mau. Mas para os números de popularidade do Facebook, tenho o número de amigos de um principiante, sou uma Maria-Ninguém. Mas tendo em conta que cada usuário desta rede social tem em média, 130 amigos, não estou longe.

O Facebook foi criado há treze anos num dormitório da Universidade de Harvard, em Massachussets, por Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin. Em janeiro de 2004, Mark propos-se a criar numa semana, um site chamado TheFacebook.com, e logo a seguir começou a explorar a ideia de uma rede universal exclusiva para os alunos de Harvard, onde desafiava conseguir trezentas pessoas inscritas, mas ao fim de 24 horas, já tinha conseguido 12.500 registos! Rapidamente se expandiu para as Universidades na zona de Boston, até gradualmente se espalhar pelas Universidades dos Estados Unidos e Canadá e finalmente, em setembro de 2006, a rede social permitiu o acesso a todas as pessoas com idade superior a 13 anos e com endereço de email. E assim se deu início a uma instituição que revolucionou todos os comportamentos da vida social da Humanidade; tal como o cavalo a vapor, a luz eléctrica, o invento do telefone.

 

 

Se antes bastava-nos o telefone, o convívio do “vamos à bica”, os encontros prolongados à volta da mesa, a tecnologia tornou de tal forma a vida social exiginte – o Facebook, o Instagram, o Twitter, entre outros, de tal maneira que se não estivermos lá, não existimos; com a agravante de nos tornármos nuns preguiçosos conformados.
Caminhando entre a multidão, a alienação é perigosamente visível – encontrões, paragens inesperadas, tudo porque meio mundo circula aos “comandos” de um telemóvel com aplicações sem fim, que nos priva da liberdade verdadeira e nos mantém controlados até ao infinito das nossas vontades. Acabamos por viver numa escravidão social que nos obriga a publicar nas redes sociais certas situações que com alguma distância e discernimento, seríamos incapazes de o fazer. O Facebook é um espelho de vidas que não existem, de relações impossíveis, uma espécie de fogueira das vaidades cujas labaredas sobem até queimar. Quando finalmente cheira a chamusco, já se acabaram casamentos de trinta anos; amigos de sempre desamigam-se; problemas graves de família tornam-se evidentes; traições ficam visíveis aos olhos de todos; relações de trabalho azedam e até promissoras entrevistas de emprego ficam sem efeito, após uma visita à página de FB do candidato.
Vivemos numa sociedade de ermitas. As festas, os pubs, os transportes estão cheios deles. No outro dia vi um casal de namorados sentados lado a lado, a enviar mensagens um ao outro. Vivemos numa sociedade em que grande parte da população não respeita normas básicas de educação; em que entra nos sítios sem dar a saudação do “bom-dia”, mas que às 6 da manhã não prescinde de desejar um “bom-dia” a gente que nunca viu, nem sabe se existe, no Facebook.

A pressão dos mídia, o bombardeamento sem limites das notícias mantém a labareda acesa, incedeia as opiniões políticas até de quem nunca teve partido. Vejamos o caso recente em que as atrizes Ana Bola e Maria Vieira se terão desavindo, depois de Ana Bola ter escrito na sua página de FB uma reação lamentável sobre a publicação que Maria Vieira fez sobre a cerimónia de posse de Trump. Embora Ana Bola tenha posteriormente apagado o que publicou, o público e os amigos viram – o que não tardou na resposta de Maria Vieira, com ameaça do caso seguir para tribunal. O mal ficou feito e por vezes, é irreparável.
Há que ter conhecimento das regras inatas que o FB não educa, para se saber preservar, e principalmente preservar a integridade moral de quem se respeita. O Facebook não traz livro de etiqueta, até porque como uma boa novela, quer-se emoção, lágrimas, sal; sem isso a vida torna-se monótona. Os “voyeurs” do Facebook têm apetência pela lágrima fácil, pelas habilidades dos bichos – mas não gostam de circo – pelo “like” do amigo em “terrenos pantanosos”, e por vezes, com um comentário, chegam a dar a tacada final para que caía do precipício com a agravante – em direto. Há amigos que ao mínimo desentendimento fazem do Facebook um moço de recados, que faz o resto do núcleo social parar para pensar o rídiculo de fácil que é revelar-se aos olhos do mundo, como nunca antes fora possível. Por vezes, é tão evidente a fraqueza fácil de magoar, que parece que estamos a lidar com a crueldade mordaz das crianças.
De repente, em treze anos, a menina da pastelaria que casou o ano passado com o primeiro namorado e nos cumprimentava tão cordialmente, pasme-se, neste momento aparece no FB como “numa relação aberta” e recusa-se a atender um cliente antigo, desde que este lhe deixou o seguinte comentário: “tenha vergonha”! Tudo pode acontecer no Facebook – a vida é em direto e há gente que está disposta a partilhar de tudo em troca de um número multimilionário de “likes”. A maior parte das pessoas estão com uma vida tão pobre de afetos, mas sedentos de saber até onde a popularidade os poderá levar.

Mas não se pense que o Facebook é um poço de vícios e pecados. Para os poucos que andam a pensar no assunto, insisto que abram uma conta, colecionem alguns amigos, de preferência interessantes e com atitude positiva na vida, e que se divirtam. Como tudo, há que evitar – os chatos, os pessimistas, os que só falam em doenças e curas, os alcoviteiros, os políticos, os das vendas, os narcisistas, os religiosos, os não-religiosos, os desconfiados, e por fim, os tristes. Sei que é praticamente uma tarefa impossível, mas como tudo, vivendo e aprendendo.
Os amigos com longa experiência de vida contam como adoram as doces surpresas do Facebook – o reencontro de amigos e colegas de escola de há cinquenta anos, as vidas, os sítios onde viveram. Os mais novos gostam especialmente de viajar e dá-me especial prazer conhecer sítios novos através dos seus relatos. Os estrangeiros e outros imigrantes de sítios longínquos, gostam de mostrar as suas tradições e exclusividades. Os que gostam de descobrir o mundo através das suas leituras, trazem novidades sobre variadíssimos assuntos, que de outra forma não teria conhecimento. Há sempre um amigo ou outro que partilha receitas tradicionais ou com novos ingredientes e que guardo para experimentar. Há filmes e livros novos para ver e ler. Há documentários e música, por vezes verdadeiras pérolas que aparecem para nos trazer a saudade da meninice. Há oceanos de informação no Facebook, mas como em tudo o que vale a pena, há que saber filtrar. Há que saber respeitar a liberdade do outro, para não se cair na tentação da desgraça pública. Afinal a distância de se passar pelos amigos na rua já ultrapassou há muito os comportamentos de entre portas. A vida intíma já deixou de existir desde que existem telemóveis com câmeras e gravadores de audio, drones e Facebook. Não há margem para dúvidas – o Rei vai de facto nu.

 

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