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Domingo - 23 de Julho, 2017
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À conversa com Hélder Moutinho

 

É por certo um dos fadistas mais acarinhados em Portugal. Uma pessoa simples e que acredita nas coisas simples.
O seu fado, na essência, representa uma forma que o próprio encontrou para falar das coisas em que acredita, para dar um pouco mais do que lhe vai na alma, seja em Portugal, seja quando viaja pelo mundo fora e encontra os portugueses que, à distância, sentem o fado de modo peculiar e escutam uma música que representa a sua terra, as suas origens.
Em 2015, Hélder Moutinho trouxe «Um Fado na Mouraria», um concerto que serviu de apresentação do álbum 1987 em Toronto, onde o fadista homenageou alguns dos mais importantes cantores e compositores do fado, como Tony de Matos, Alfredo Marceneiro e Armandinho. Uma minidigressão pelo Canadá que terminou nas cidades de Montreal e Otava.
Agora, neste regresso à GTA, o aclamado fadista, irmão de outros dois grandes nomes do fado, Camané e Pedro Moutinho, promete fazer um percurso entre todos os seus cinco discos. Os fados tradicionais, alguns clássicos, as novas composições que surgiram com o 1987, mas agora também os novos de “O Manual do Coração”, considerado pela crítica portuguesa como um dos mais importantes discos de fado dos últimos vinte anos.
Um novo trabalho (2016), constituído exclusivamente por inéditos, sendo todas as letras de João Monge e músicas de diferentes compositores.
A grande noite de fado tem lugar dia 22 de abril, no Centro Cultural Português de Mississauga.
Aproveitando a sua vinda a Toronto, Canadá, a Revista Amar decidiu falar com o fadista português. Caro leitor, acompanhe-nos ao longo desta entrevista especial e conheça um pouco melhor este grande nome do fado nacional, património imaterial da humanidade.

 

 

Revista Amar – Fale-nos um pouco de si e do seu fado.
Hélder MoutinhoO meu fado é a forma que encontrei para falar das coisas em que acredito. Para dar um pouco do que me vai na alma. Sou uma pessoa simples que acredita nas coisas simples. Acredito nas pessoas e sei que todas elas têm um bom fundo.

RA – Ainda procura o mar ou o rio Tejo para inspirar a sua escrita?
HMSim – sempre …

RA – O Hélder Moutinho começou a cantar fado aos 24 anos de idade. Antes, na sua juventude, explorou alguns géneros musicais. Há algum projeto importante em mente que não passe pelo Fado?
HMFiz Teatro, fiz parte de um coro infantil, mas nada sério. Os outros géneros musicais era apenas a música que eu gostava de ouvir e que consumia antes de consumir fado.

RA – É irmão dos também fadistas Camané e Pedro Moutinho. Passados todos estes anos, sente que isso é ainda um desafio e/ou motivo de comparação dentro do fado?
HMNunca foi um desafio, acreditamos no mesmo fado e temos os gostos muito parecidos, mas quando se trata das nossas carreiras, apoiamo-nos mutuamente e não somos concorrentes.

RA – No ano passado, em maio, saiu com o álbum “O Manual do Coração”. Quase um ano depois do lançamento desse trabalho, qual o balanço que faz da recetividade do público e as opiniões da crítica?
HMO disco foi considerado pela crítica portuguesa como um dos mais importantes discos de fado dos últimos vinte anos. Isto já tinha acontecido no disco anterior. O balanço não poderia ser melhor. O público, é um público especializado. O que gosta de fado. No fundo, posso me considerar um músico ligado a um culto.

RA – Em média, o Hélder Moutinho tem levado três a quatro anos para sair com um novo trabalho. Há já planos para editar mais algum álbum de estúdio?
HM Sim.

RA – Gostaria de abraçar algum projeto musical diferente e sair, digamos, da zona de conforto?
HM Sim, já o fiz em 2003, com o Maldito Fado, e não vejo nada contra voltar a fazer, mas sempre como uma experiência em paralelo com o meu fado e nunca a pensar num afastamento.

RA – Alguns experimentalismos parecem querer levar o fado para um outro patamar, numa coexistência com estilos musicais tão singulares como o jazz, por exemplo. Isso causa-lhe algum tipo de estranheza?
HMAcho interessante tudo o que tem a ver com a evolução das músicas que nasceram a partir de influências e que por isso podem sempre estar em embrião. No fim, o mais importante é que a música seja boa e bem-feita.

RA – Ainda faz sentido dizer que há um fado antes de Amália e um outro fado depois de Amália?
HMSim. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas ambos são interessantes. É como o Tango antes de Piazzolla e depois de Piazzolla, ou a Pop antes dos Beatles e depois dos Beatles.

RA – Na opinião do Hélder Moutinho, o que mudou com o reconhecimento do fado como património imaterial da humanidade?
HMMudou tudo. Primeiro, todo o esforço criado na candidatura, depois, toda a divulgação e dinamismo a nível mundial.

“Nós agora somos os herdeiros
e os beneficiários do que os nossos mestres nos deixaram.”

RA – Podemos afirmar que a nova geração de fadistas carrega agora um peso maior sobre as costas, desde a atribuição desse título.
HMNão. Acho que quem carregou um peso pelas costas foram os da velha geração que andaram a construir isto tudo durante anos, algumas marginalizados, outros, acusados de posições políticas e outros a viver mal em função do fado. Nós agora somos os herdeiros e os beneficiários do que os nossos mestres nos deixaram.

RA – Despindo o fato de fadista, como o cidadão Hélder Moutinho analisa o estado da nação e o caminho que Portugal está a trilhar?
HMNão está a ser fácil, mas já se vê uma luz ao fundo do túnel. Acho que é preciso acreditar, embora todas as desilusões que tivemos com os governos anteriores. Acho que os nossos governantes estão agora finalmente a governar em vez de fazer política. Esperemos que a oposição, não se oponha a isso e consiga ver o quanto vale o nosso futuro.

“O fado é uma canção
que nos permite sonhar e ter esperança.”

RA – Está preocupado com o escalar das tensões sociais e raciais que começam a verificar-se um pouco por todo o lado?
HMEu nasci em 1969 – fui para a escola em 1974 – fui criado ao lado de todos os retornados que vieram depois da guerra e da revolução. Alguns dos meus melhores amigos são pretos, castanhos, amarelos e indianos. Nunca consegui perceber o Racismo a não ser quando me senti vítima dele próprio.

RA – Imagina um fado com as palavras Brexit, Trump, ISIS, por exemplo?
HMNão. O fado é uma canção que nos permite sonhar e ter esperança. Permite-nos ver na saudade uma coisa feliz porque nos faz lembrar de coisas boas e por isso é que temos saudades. Permite-nos o amor a amizade, a tolerância, a solidariedade e acima de tudo a Liberdade.

É sem dúvida gratificante para nós
quando estamos a viajar pelo mundo
fora e encontramos portugueses.” 

RA – No final de 2015, trouxe a Toronto, Canadá, «Um Fado na Mouraria», o espetáculo de apresentação do álbum 1987. Neste regresso à GTA, que tipo de espetáculo vai apresentar na noite de 22 de abril no Centro Cultural Português de Mississauga?
HMVou fazer um percurso entre todos os meus cinco discos. Os fados tradicionais, alguns clássicos, as novas composições que surgiram com o 1987, mas agora também os novos do Manual do Coração.

RA – Quando está a cantar para as comunidades emigrantes portuguesas, sente que estas vivem o fado de um modo diferente?
HMSim. Sei que há muita gente que quando vivia em Portugal, não ligava muito ao Fado, mas assim que foram viver para fora passaram a sentir aquele “primeiro estranha-se e depois entranha-se” que o fado nos faz sentir. E sentir que estamos a ouvir uma música que representa as nossas origens e a nossa terra.
Também a falta de oportunidade faz-nos dar mais valor às coisas. É sem dúvida gratificante para nós quando estamos a viajar pelo mundo fora e encontramos portugueses.

RA – Como avalia a qualidade do fado que se faz e canta na diáspora portuguesa?
HMTenho visto projetos de fado feitos por portugueses internacionalmente de grande qualidade. Desde que haja entrega e seriedade no que se faz, tudo pode ser melhor.

 

“Sei que neste momento já há pessoas estrangeiras
a aprender português pela paixão ao Fado.”

RA – Quer deixar uma mensagem para a comunidade portuguesa que reside em Toronto, Canadá?
HMSim. Sempre que viajamos em trabalho, o Fado tem sido o nosso cartão de visita, acima de tudo por ser o que mais representa a nossa cultura e a nossa língua. Podíamos cantar noutras línguas e em especial em Inglês, de forma a sermos mais entendidos. Mas a realidade é que não queremos perder a nossa identidade. E a nossa máxima, é sem duvida cantar em Português e divulgar a nossa língua pelo mundo fora.
Sei que neste momento já há pessoas estrangeiras a aprender português pela paixão ao Fado.
Não percam esta identidade e ensinem bem o Português aos vossos filhos, em casa e nas escolas. Nem que para isso se criem escolas, mas não deixem que as vossas futuras gerações se esqueçam como se diz “a nossa terra”. Bem hajam.

BIOGRAFIA

Hélder Moutinho nasceu em Oeiras, em 1969. O mar e o Fado estiveram sempre presentes na sua vida. Da sua família ganhou o gosto natural pelo Fado, crescendo e convivendo desde sempre nos meios mais tradicionais deste género. A sede de cantar levou-o a fazer parte deste universo tão apaixonante. É Fadista.
No final da adolescência, depois de se identificar com estilos musicais mais diversificados, o Fado começou a ganhar uma importância cada vez maior na sua vida. O contacto com Lisboa revela-se inevitável. Depois do mar, é o Tejo quem chama por ele, revelando-lhe a cidade das paixões, das casas de fado, das noites nostálgicas e poéticas que lhe hão de inspirar a escrita. Se inicialmente cantava só para amigos, o dom deixou de poder ser guardado e é então que surge o convite para fazer parte, pela primeira vez, do elenco de uma casa de fados no Bairro Alto. “Afinal o menino também canta”, rematou Beatriz da Conceição ao ouvi-lo cantar pela primeira vez. E um elogio da Bia, nunca se esquece.
Nas tertúlias fadistas, pela noite dentro e com outros amantes do fado, começam a surgir as primeiras letras de sua autoria que viria a gravar mais tarde no seu primeiro álbum – “Sete Fados e Alguns Cantos”. Uma estreia que pode ser considerada de “milagrosa”: a sua gravação decorre a par com o desenvolver de outra faceta fundamental de Hélder Moutinho. A “vontade de fazer acontecer” levou-o à produção e ao management.
É arquiteto de sonhos.
Começou a cantar no Nónó no Bairro Alto em 1994, ano em que participa no Ciclo de Fados da Mãe da Água no âmbito de Lisboa Capital Europeia da Cultura; integrou o elenco da Taverna Embuçado ao lado de artistas como Beatriz da Conceição, Celeste Rodrigues e Teresa de Siqueira, onde cantou durante 7 anos, e na Parreirinha de Alfama onde atuou ao lado de Argentina Santos. Na procura de recriar o ambiente das tertúlias de Fados de tempos idos, o seu nome está ainda intimamente ligado ao nascimento de algumas Noites de Fado mais emblemáticas de Lisboa: a abertura da Mesa de Frades em 2003, as noites no Chapitô no Castelo, os serões na Bela Vinhos e Petiscos também na Mouraria; os sábados passados da Fábrica de Braço de Prata; até à mais recente recuperação da mítica Casa da Severa na Rua do Capelão, onde nasceu a “Maria da Mouraria”, finalmente a sua própria casa de Fados.
Tem levado o seu Fado além-fronteiras, tendo atuado ao longo dos anos em cidades como Nova Iorque, Chicago e São Francisco (EUA); Vancouver (CAN), países como Bélgica, Holanda, Reino Unido, China ou Coreia do Sul. Em 2015 atuou na Polónia, Finlândia, Canadá, Rússia e Espanha.

DISCOGRAFIA

»» Sete Fados e Alguns Cantos – (Ocarina 1999)
»» Luz de Lisboa – Prémio Amália Rodrigues (Ocarina 2004)
»» Que Fado É Este Que Trago – (Hm Musica / Farol 2008)
»» 1987 – (HM Musica / Valentim de Carvalho 2013)
»» O Manual do Coração – (Hm Musica / Valentim de Carvalho 2016)

 

Imagens gentilmente cedidas por Hélder Moutinho

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