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Segunda-feira - 29 de Maio, 2017
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São Jorge – Dr. José Carreira

Por motivos profissionais, há alguns anos que trabalho num bairro social em Viseu. Ainda assim, quando entramos num dos bairros sociais da grande Lisboa o choque é inevitável. O choque com a realidade, a dura realidade de quem ali nasce, cresce e vive, em condições difíceis, para muitos de nós talvez inimagináveis.
Nos últimos meses, também por motivos profissionais, desloco-me com frequência a um bairro social de Lisboa. Faz cada vez mais sentido, infelizmente, o que me disse, em tempos, um professor: “Se a pessoa vive num bairro social será a última a ser contratada e a primeira a ser despedida”.
O filme “São Jorge”(1), realizado por Marco Martins, é um bom exemplo da qualidade do cinema português e apresenta com realismo o dia-a-dia dos moradores dos bairros da Bela Vista (Setúbal) e Jamaica (Seixal), locais em que se desenrola a ação.
O som de fundo constante e os grandes planos da degradação das urbanizações deixam a nu o ambiente difícil, hostil, a agressividade latente, um certo caos organizacional que parece contagiar os moradores…
O filme mescla atores profissionais de grande qualidade (Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, Gonçalo Waddington, Beatriz Batarda, José Raposo, Jean-Pierre Martins) e não-atores, que falam da crise, do desemprego e da falta de dinheiro. Os seus diálogos sobre o Rendimento Social de Inserção (RSI) ou os ciganos denotam bem a agressividade para com o outro, o vizinho do lado… Os testemunhos na primeira pessoa são fortes e potenciam, em grande medida, a mensagem do filme.
O filme retrata a história de Jorge (Nuno Lopes), um pugilista desempregado que aceita trabalhar numa empresa de cobrança de dívidas para sobreviver e evitar que a mulher (brasileira e negra) e o filho emigrem. A pobreza, a exclusão social o racismo e a violência estão presentes em cada cena.
Com o eclodir da crise, a chegada da troika a Portugal e a implementação das medidas de austeridade, muitas famílias e empresários viram-se impossibilitados de cumprir os compromissos assumidos. Um apontamento curioso, Jorge tenta cobrar as dívidas a pessoas que, tal como ele, estão falidas, têm filhos, têm uma família…
Praticamente seis anos depois da chega da troika a Portugal, e três após a sua saída, o retrato da economia portuguesa dá conta de um país em recuperação, ainda que moderada, mas que já começou a baixar o desemprego. Bons sinais que todos desejamos que se consolidem e façam do argumento de São Jorge uma realidade passada e irrepetível.
Estamos cansados que nos façam crer que uma mão vazia é melhor do que uma mão cheia de nada…
O filme merece uma ida ao cinema e uma reflexão sobre o nosso país que se habituou a enfrentar e a ultrapassar as adversidades, mas à custa de muita dor e sofrimento.

Referências:
1 – www.youtu.be/0ZbUcqEn2hM

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