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Paulo Pedro Gonçalves promove Scare Crow em Toronto

Com dois anos de idade, veio com os pais para o Canadá. O pai, Lourenço Gonçalves, foi presidente do First Portuguese Canadian Club e iniciou lá vários projetos, entre os quais a escola de música, a escola portuguesa e as atividades ligadas ao folclore. Essa ligação, fez-lhe aprender a música portuguesa e tocar com ranchos folclóricos locais.

O crescimento neste lado do Atlântico fez-se sempre com a música por perto, tendo aprendido a tocar vários instrumentos e estudado violino e guitarra, o instrumento de eleição ao qual se dedicou mais.

Hoje com um grande apego a Portugal, ainda que a viver em Londres, Inglaterra, Paulo Pedro Gonçalves admite que no início, porque havia muito racismo no Canadá em relação aos imigrantes, ele chegou a fingir que não era português, tendo inclusive mudado o seu nome para Paul, em vez de Paulo, o seu primeiro nome.
Mas assim que chegou a Portugal, a sua afinidade para com o país mudaria completamente, ao perceber que Portugal era um país normal, não era um país para ter vergonha, pelo qual acabaria por se apaixonar.

Pelo meio, na altura do 25 de abril, o destino trocar-lhe-ia os planos iniciais de ir para Londres, reconduzindo-o a Portugal, onde daria início a várias bandas, entre as quais a primeira banda punk Portuguesa “Os Faíscas”, e uma banda new wave, o “Corpo Diplomático”, no final dos anos 70. Mas seriam os “Heróis do Mar”, em plena década de 80, que lhe dariam mais projeção nacional, enquanto guitarrista de uma das primeiras bandas rock/pop de raiz portuguesa, de grande influência na imaginação poética e musical dos Portugueses, e que obteve algum sucesso internacional.

Desde então, o músico experimentou várias fases na carreira, envolvendo-se em mais projetos musicais, incluindo o Ovelha Negra, apontado como o primeiro projeto de «Neo» fado português, principiado em meados dos anos 90. Depois de dois discos lançados, em 1998 e 2012, Paulo Pedro Gonçalves revela que estão agora a trabalhar num disco novo do Ovelha Negra.
Mas enquanto isso não se materializa, o guitarrista que vive em Londres desde a década de 90, aproveitou a sua mais recente visita à cidade de Toronto, no passado mês de abril, para não só visitar amigos e familiares, mas também para dar a conhecer um outro projeto – Scare Crow, com lançamento para breve.
A Revista Amar aproveitou a ocasião para falar com o músico português.

Revista Amar – O que traz na sua mala de viagem nesta sua visita a Toronto. Uma máquina fotográfica ou uma agenda de trabalho cheia de compromissos?
Paulo Pedro Gonçalves“Uma agenda de trabalho cheia de compromissos (…). Sou músico. Trouxe discos. E o disco novo do meu projeto Scare Crow, estou a enviar para editoras independentes em Toronto e para a CBC Radio, porque tenho alguns contactos, e a distribuir pelas rádios e televisões portuguesas. Para além disso, tenho um negócio de ‘vintage’ em Londres e vim também ver, porque Toronto é um sítio que tem ‘vintage’ e, então, vim comprar roupa para levar para Londres (…). Estou a pensar abrir uma loja em Lisboa e, então, comprar cá e levar para lá.”

RA – Tem algum convite em manga para um espetáculo em Toronto, ou, indo mais longe, para uma minidigressão pelo Canadá?
PPG “Não sabemos nada. Vamos falar hoje (dia da entrevista) com uma pessoa. Talvez. Não há nada confirmado, por enquanto.”

RA – Ainda se sente um “Herói do Mar”?
PPG “Não. Gostei muito do período dos Heróis do Mar, porque nós fomos uma banda mesmo inovadora em relação a Portugal. E as razões porque fizemos os Heróis do Mar, foi por um sentido nacional e por amor ao país. E fomos uma banda que abriu muitas portas para muita gente, tanto ao nível de espetáculo ao vivo. Fomos também das primeiras bandas a ser levadas para fora de Portugal. Fizemos a primeira parte dos Roxy Music, tocámos com ‘n’ de bandas estrangeiras, tínhamos um ‘following’ (acompanhamento) fora de Portugal. Isso, foi uma altura maravilhosa na minha vida. Mas como músico, agora estou noutra fase.”

RA – Sente-se atraído por este Portugal de hoje, ou tem muitos reparos a fazer?
PPG“Os Heróis do Mar, já na altura dos heróis do mar, diziam que Portugal era um grande país, mas muito mal frequentado (risos). Eu gosto muito de Portugal. Tivemos um passado fantástico. E um passado muito triste, que foi os 50 anos de fascismo, que nos deixou ‘aleijados’ até hoje, de uma certa maneira, como gente política, com conhecimentos sobre como nós devemos ser governados; nós vemos a corrupção que existe em Portugal, uma vergonha, ninguém vai preso, toda a gente rouba e toda a gente está na maior (…); eu amo o país, gosto muito do espírito dos portugueses, mas ao mesmo tempo, temos muitos problemas que precisávamos resolver a nível nacional, como nação. Estou a falar da maneira de ser, de estar no mundo.”

RA – Foi um dos fundadores dos Faíscas, Corpo Diplomático, Heróis do Mar, LX-90. Onde vai buscar a versatilidade para abraçar projetos diferentes?
PPG“Sou músico, por causa de ter sido criado no Canadá e por causa do meu pai. Tive acesso à música portuguesa, à música do cinema, à música de Frank Sinatra e dos Beatles. A muita coisa, a muitos géneros de música. Portanto, tenho muitos gostos. Eu gosto de música boa, não me interessa o género. Claro que eu tenho um género que eu faço que pode chamar-se mais «roots music». Eu gosto de todos os tipos de música. Portanto, eu acho que em relação a isso, sou uma pessoa que estou bem num género como noutro género de música e sinto-me feliz. Hoje em dia, sigo um caminho, que é o meu caminho, que é o de compositor e de poeta. Mas como músico, sim, gosto de fazer música.”

RA – É também o rosto do muito elogiado Ovelha Negra. Há alguma novidade em relação a este projeto?
PPG “Bem, há este disco Ilumina que foi feito há pouco tempo. E estamos a trabalhar num novo que, se calhar, vai ser com a Rita Guerra. Mas ainda não está nada assente; mas para já, sim, estamos a trabalhar num disco novo do Ovelha Negra.”

RA – Há algum outro campo da música que gostasse de experimentar?
PPG“O projeto Ovelha Negra dá-me oportunidade para experimentar muitos géneros de música, dentro do fado. Hoje em dia, quando ouço a rádio, ouço muito música clássica. Adorava trabalhar na música clássica, mas não tenho conhecimentos técnicos para isso.”

RA – Uma mensagem final para a comunidade portuguesa.
PPG“A única coisa que posso dizer é boa sorte e saúde, porque é isso que todos precisamos mais. E a sorte, é aproveitar as oportunidades que nos aparecem pela frente, reconhecê-las e andar para a frente com elas.”

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