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Nova Carta Portuguesa

No âmbito da certificação em língua portuguesa lecionado pela Universidade de York, a Revista Amar teve a oportunidade de estar à conversa com a Prof.ª Maria João Dodman, responsável pelo ensino da disciplina de POR 4010 – Language in Context: Portuguese in the Greater Toronto, e com Marina Costa, luso-canadiana de 24 anos de idade, autora na Nova Carta Portuguesa, trabalho literário publicado na presente edição e que reflete o orgulho nas suas raízes e a afetividade que nutre pela pátria dos seus pais.
Nascida no Canadá, filha de país naturais da Ilha da Terceira nos Açores, Marina não esquece nunca o seu Portugal e vai de férias sempre que possível. Licensiada em Artes Plásticas, é hoje professora na Escola Católica de St. Helen em Toronto. Diz ser amante da pintura, cinema e leitura, especialmente de romances, independemente do país de origem. Gosta de andar de bicicleta e sair com os amigos.

Revista Amar – Fale-nos um pouco sobre como “nasceu” a Nova Carta Portuguesa.
Marina Costa – É um projeto inserido no curso ensinado pela Prof.ª Dodman em que podiamos escrever o que quisessemos. Já tinha escrito uma carta anteriormente, mais curta, mas queria elaborar mais essa ideia. Sentia que queria dizer mais. Utilizei alguns elementos da primeira e acrescentei outros. Como parte do projeto tinhamos que citar algumas fontes e usei “A minha pátria é a língua portuguesa” de Fernando Pessoa (in “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)) e também “o apego à terra, este amor elementar que não conhece razões, mas impulsos” de Vitorino Nemésio (in “Açorianidade”).

Revista Amar – O que é a Nova Carta Portuguesa e sobre o que fala?
Marina Costa – Fala de saudade e de agradecimento a Portugal. Das memórias, das férias e dos passeios. É uma carta baseada nas memórias e sentimentos.

Revista Amar – Porquê a Portugal uma vez que nasceu no Canadá?
Marina Costa – Sinto que tenho que agradecer a Portugal. Quando vou de férias e regresso ao Canadá sinto bastantes saudades e fico triste. Adoro o ar puro e a simplicidade, os campos e as vilas pequenas. É a língua dos meus pais e é a minha segunda pátria.

Revista Amar – Pensa ir viver para Portugal um dia?
Marina Costa – Por enquanto não. Talvez um dia mais tarde quando for reformada. Para já só de férias (risos)…

Nasceu em Ponta Delgada, em S. Miguel, no Arquipélago dos Açores mas emigrou para o Canadá em 1989, então com 18 anos. Sozinha e depois de vários empregos, decidiu candidatar-se ao acesso à universidade, de onde nunca mais saiu. Maria João Dodman licensiou-se na Universidade de Toronto, onde faria o seu Mestrado e Doutoramento. Formada em Literatura Ibérica, especializou-se na época do Renascimento (sec. XVII) e inciou funções na Universidade de York em 2005.
Confessa ser também uma amante da literatura brasileira. Tem particular gosto da literatura ligada aos encontros coloniais, pela literatura do sec. XX, pelo modernismo, pelo romance do Nordeste e, considera por isso, ser a sua segunda área de especialização. Mas não esquece a literatura produzida no Arquipélago dos Açores, nomeadamente a que toca às representações da velhice e do idoso. Como a literatura pode contribuir para criar novos modelos de valorização do ser idoso e de como nos desperta emoções como a tolerância e igualdade.
Atualmente leciona na Universidade de York, onde anualmente cerca de uma centena de alunos frequenta o ensino de Português. Aquela instituição tem apostado nos últimos anos na demostração que o Português não é uma língua menor, mas uma língua mundial. Prova disso é a diversidade de alunos a frequentar os cursos de língua portuguesa com descendência que não a lusitana, como seja o caso de alunos com descendência russa, coreana, espanica, israelita entre outras.

Revista Amar – Fale-nos um pouco sobre os projeto que deu origem à Nova Carta Portuguesa escrita pela Marina Costa.
Prof.ª Maria João Dodman – A disciplina em que a Marina escreveu esta linda carta chama-se POR 4010 – Language in Context: Portuguese in the Greater Toronto lecionada na Universidade de York e é uma disciplina inovadora. Não existe outra igual no ensino de Português no Canadá, apesar de existir outro programa de Português na Universidade de Toronto.
A Universidade de York tem vindo a apostar nos últimos anos na “experiential education”, que basicamente assenta no facto dos alunos não aprenderem só necessariamente de teoria e de precisarem de ter experiências “vivas”. Neste caso, eu queria que os alunos tivessem uma experiência “viva” na língua. Nós tinhamos aulas aqui no “campus”, onde nos dedicavamos mais à parte teorica e cada aluno tinha de fazer um voluntariado de 10 horas com um parceiro comunitário.
Estes parceiros são escolhidos com base no perfil do alunos e o da Marina foi o Instuto Camões de Toronto. O Instituto Camões de Toronto pôs a Marina em contacto com uma escola em que participava assiduamente.
O objetivo era que os alunos tivessem essa experiência “viva”, uma experiência interativa, não só para terem experiência de como usar a língua num contexto mais formal, no meio profissional, mas também para verem que a nossa comunidade é dinâmica. Esta comunidade já não é a dos anos 60, mas sim uma comunidade com empresas e pessoas a fazerem coisas muito interessantes, diversas e bastante modernas. Esse era um dos outros objetivos desta disciplina. Dissipar um pouco os mitos que muitos dos jovens têm da nossa comunidade. Uma comunidade arcaica, uma comunidade “old fashion” como lhes gostam de chamar. Queria provar que há de tudo. Que há gente jovem e gente de idade a fazer coisas boas, coisas curiosas e bem dinâmicas. Estas eram as facetas da segunda edição desta disciplina que criada desta disciplina que foi criada em 2012. Para além de aprenderem a escrever o CV (curriculum vitae – carta de apresentação), o “Community Publishing Project” tinha o íntuito de fomentar a refleção e escrita para que os seus trabalhos podessem ser integrados na comunidade. A Marina tem uma ligação muito afetiva ao lugar de origem dos pais e a sua carta é um dos trabalhos que os alunos submeteram no âmbito desse projeto.
Nesta fase estamos a contactar pessoas e projetos para a publicação dos seus trabalhos.

Revista Amar – Emigrou para o Canadá no final da década de 80, pensa regressar a Portugal?
Prof.ª Maria João Dodman – Não. Sou Canadiana e sinto-me Canadiana. Ao contrário da Marina, é aqui que eu me sinto bem. É aqui que me sinto liberada. A Mariana tem outra relação com a cultura. Tem a relação de um jovem nascido cá e que vai de férias.
Ir de férias é sempre muito bonito. A vivência do dia a dia é que é pesada. Mas a Marina também é mais jovem. Eu nasci noutra altura. Quando vim para o Canadá vinha de alguma forma a fugir de certa forma de opressão. Cresci no seio de uma família um tanto ou quanto conservadora, num ambiente em que não tinha muita liberdade, portanto desde os meus 12-13 anos que sonhava em sair da ilha. Também queria ir estudar e os meus pais não tinham posses, nem naquela altura se imaginava que uma menina podesse estudar longe da família. Era uma coisa do outro mundo. Eu tinha que sair. Tinha a atração pela América do Norte, porque naquela altura havia muitos emigrantes e nos Açores toda a gente tinha alguém na família que tinha emigrado e eles regressavam às ilhas com roupas tão diferentes das nossas e as moças todas maquilhadas, de calções e com bons perfumes. Ficava deslumbrada. Eu tinha inveja. Eu queria ser aquilo. Mais tarde percebi que aquelas moças só se vestiam assim, muitas das vezes quando iam às ilhas. Também percebi que podia ser uma mulher canadiana e, ser Canadiano, é ser cidadão do mundo em muitas coisas e eu identificava-me com os valores da América do Norte, como por exemplo a igualdade.
Ainda tenho uma relação afetiva com Portugal e com as ilhas muito especialmente, mas quando regresso de certa forma regresso àquele sentimento de opressão que ainda me toca. Mesmo depois destes anos todos, quando regresso, é quase como voltar a ter 16 anos e sentir que foi “aqui” que me senti assim, e foi “dali” que decidi escapar. Tenho essas memórias.
Gosto de portugal mas não para viver. É aqui que eu participo civicamente e é aqui que eu contribuo.

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