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Encontros com o Património da Humanidade I

Numa entrevista à Revista Exame, Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal afirmou que:
“Há múltiplos fatores para as pessoas escolherem Portugal como destino de férias; é redutor pensar que o turista se limita à perspetiva de “não vou para um lado, vou para o outro”. E sobretudo ter a noção de que nós ganhámos 24 prémios nos World Travel Awards. Portugal foi o país europeu que mais prémios ganhou.”

Destacou ainda, o facto de “Em números redondos, temos hoje uma capacidade de 100 milhões de dormidas por ano em todo o país, e só 50% têm ocupação, variando, obviamente, de região para região.” A nossa principal indústria exportadora, surge assim aos olhos dos portugueses com uma estratégia acertada e clara na divulgação de Portugal. A maior visibilidade no estrangeiro caracteriza-se sobretudo pelas enormes potencialidades do nosso país em atrair turistas, nos mais diversos segmentos. A sua história, cultura, gastronomia e hospitalidade fazem o resto. Os frutos dessa estratégia surgem todos os dias com milhares de turistas a visitar as mais diversas regiões do país, bem como na obtenção de distinções internacionais. Quanto a mim vou continuar a fazer o que está ao meu alcance para divulgar a História, a Cultura e a Gastronomia do meu Portugal.

 

 

Linha do Douro
A linha do Douro, de via larga (1,67 m), liga Ermesinde, na linha do Minho, a Barca D’Alva, numa extensão total de 212 km. Segundo José Ribeiro da Silva, no seu livro Os comboios em Portugal: do vapor à electricidade, “na segunda metade do séc. XIX a região do Douro surgia como uma importante fonte de riqueza para o país. O aumento da produção de vinho do Porto1 e a necessidade de melhorar o seu transporte, tanto em termos económicos como em segurança e rapidez, nomeadamente entre a Régua e o Porto, levaram a que se começasse a pensar no caminho de ferro como alternativa aos meios de transporte existentes. As obras nesta linha, que percorria um terreno muito acidentado ao longo das margens do rio, previa-se serem de difícil execução técnica e muito dispendiosas.

A definição da cota (altura) a que a plataforma da linha do Douro foi erguida quando se desenvolveu ao longo do rio, estava condicionada pelo nível das cheias. A partir de Mosteirô foi necessário construir quilómetros de muros de suporte sobre o rio e em muitos casos, na impossibilidade de serem contornados ou lançados nas encostas, foram feitas extensas perfurações nas rochas graníticas e xistosas. A abertura de 23 túneis, numa extensão total de 6.900 metros e a construção de 35 pontes e viadutos, dão a ideia dos trabalhos ciclópicos que foi necessário realizar.”

É caso para perguntar o que é que não é ciclópico construir nas encostas do Douro ?

 

No próximo dia 14 de dezembro, o Alto Douro Vinhateiro comemorará o décimo sexto aniversário da sua inscrição na lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO, na categoria de paisagem cultural evolutiva e viva. Em Helsínquia declarou-se que: “O Alto Douro produz vinho desde há dois mil anos, e desde o séc. XVIII o seu principal produto, o vinho do Porto, é mundialmente famoso pela sua extraordinária qualidade. Esta longa tradição produziu uma paisagem cultural de beleza excecional que é ao mesmo tempo o reflexo da sua evolução tecnológica, económica e social.” 2

Uma viagem de comboio3 pela linha do Douro ou um cruzeiro no Douro, permite ao viajante desfrutar de uma paisagem única e distinguida pela UNESCO. A região demarcada mais antiga do mundo combina a natureza monumental do vale encantado, feito de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a ação ancestral, contínua e tenaz do homem. Essa parceria permitiu um aproveitamento exemplar dos terrenos, com a modelação da paisagem em socalcos, preservando-a da erosão e permitindo o cultivo da vinha.

Uma labuta diária destes homens e mulheres para fazer brotar da fragaria o mais generoso néctar dos deuses.

Alves Redol no seu livro Horizonte Cerrado, do Ciclo Port – Wine – I, a sua personagem Fontela descreve-o de forma sublime:
“Em qualquer banda uma cepa se agarra; mas do nosso, criado na fragaria…
– É verdadeiro sangue de Cristo – interveio Fontela…
– Mais do que isso!… vinho do Doiro é sangue dos homens. Sangue dos homens, pois !”

Nas sábias palavras de Miguel Torga, no seu Diário XII que já tive oportunidade de ler, este escritor natural de S. Martinho de Anta descreve uma das paisagens durienses que ele mais apreciava, vista do alto de São Leonardo (Galafura).
“O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.” (in Diário XII).

 

Referências:
1 – Mais conhecido por vinho fino ou vinho generoso pelos durienses.
2 – Nomeação do ADV n.º 1046 CPM, Helsínquia – Decisão 25 Com X.a
3 – No comboio turístico para os mais abonados.
Bibliografia consultada:
http://expresso.sapo.pt/economia/exame/2016-11-28-E-nos-tempos-bons-que-temos-de-preparar-o-barco
SILVA, José Ribeiro da (2004) – “ Os comboios em Portugal: do vapor à electricidade”: [Vol. I] Queluz: Mensagem.
REDOL, Alves (1981) “Horizonte Cerrado, do Ciclo Port – Wine – I” Mem Martins: Publicações Europa-América.
TORGA, Miguel (1977) “ Diário XII” , Coimbra.
Texto redigido segundo o novo acordo ortográfico
Fotografia: Direitos Reservados

 

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