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Sobre o Valor da Educação: Sucesso Luso-Canadiano para além dos Estudos Académicos

Esta noite celebramos conquistas e reconhecimentos. E, além de todas as festividades, também celebramos o caminho até ao momento e os sucessos para além da comunidade. Este é um ano importante para a Universidade de Toronto, uma instituição que atualmente está a comemorar 70 anos dedicados aos estudos portugueses.
Tenho a certeza de que muitos de vós ouviram a minha colega, a professora Manuela Marujo, falar desse importante marco no recente evento da Gala da A.C.A.P.O. Na Universidade de York, temos apenas 9 anos. Ainda que o português esteja a ser ensinado na minha instituição há algumas décadas, um diploma oficial em estudos portugueses e luso-brasileiros só foi criado em 20081.
A criação deste diploma visava dar resposta à procura de aprendizagem de uma segunda/terceira língua, o crescente aumento da procura por parte de estudantes, ancorada nos princípios de cidadania global da York e do compromisso da instituição com a consciencialização cultural e o envolvimento comunitário2.
Ao contrário da Universidade de Toronto, a Universidade de York é uma instituição jovem (nascida nos anos 60), contudo tornou-se a terceira maior universidade do Canadá.
O programa de Estudos Portugueses e Luso-Brasileiros reflete o compromisso institucional para com a experiência do aluno, educação empírica, envolvimento comunitário e pesquisa inovadora.
Esta noite, vou fazer algumas observações sobre o valor da educação para além dos estudos académicos. Certamente, alguém procura educação com o objetivo de conseguir uma carreira. No entanto, a educação não se limita ao conhecimento profissional. O objetivo geral da educação é alargar as nossas mentes. Alargar no sentido de que a educação pode estimular a curiosidade, pode levar-nos a ficar mais conscientes, pode proporcionar a capacidade de diálogo, pode melhorar a nossa humanidade, tornando-nos mais tolerantes, mais recetivos e, em ultima instância, mais em sintonia com o impacto da mudança, para participar no aperfeiçoamento geral da nossa sociedade.
A educação também não se limita a esse conhecimento que aprendemos com os livros didáticos, porque, assim como o caminho para o sucesso pode ser muito diversificado, assim também podem ser os muitos caminhos da educação. Isso exige que aprendamos com experiências vividas, que comemoramos e valorizamos a nossa experiência de imigrantes Luso-Canadianos, mas também que possamos ter espaço para receber novas e diversas formas de ser.
Falar sobre educação em alguns fóruns é entrar numa discussão sobre as taxas de abandono escolar dos nossos jovens. Independentemente de como nos sentimos sobre este tópico, ou como enfrentamos e julgamos os muitos fatores que contribuíram para isso, pode ser mais produtivo se nos unirmos de outras maneiras, tal como aqueles de mente mais aberta. Talvez possamos começar por concordar que pode haver uma questão de perceção negativa das nossas conquistas educacionais; ou pior ainda, o problema pode ser de autoperceção. Poderíamos também refletir que talvez muitas opções e até estudos formais não respondam plenamente às cicatrizes que ainda temos connosco nos dias de hoje, em resultado da ditadura mais longa na Europa Ocidental3. Talvez não tenhamos reconhecido o fardo de um povo, que viu negado muitos dos seus direitos, incluindo a educação, no regime repressivo e regressivo de Salazar até 1974. Talvez não tenhamos sido conscientes e sensíveis dos efeitos repressivos da ignorância na psique coletiva dos Portugueses.
No entanto, as suas vidas oprimidas, as suas experiências vividas também são relevantes para a nossa educação geral; para a nossa compreensão da natureza milagrosa do nosso povo, a quem não foram dadas ferramentas para o sucesso. No entanto, aqui estamos hoje, como temos estado muitas vezes no passado, e continuaremos a fazê-lo no futuro, reunimo-nos para celebrar a conquista e o reconhecimento. Afinal, não há melhor educação do que a adversidade.
O modo como os nossos imigrantes portugueses criaram os seus filhos e os seus netos em liberdade e democracia, abriu a nossa mente. Embora preservemos o seu legado, é importante que olhemos em frente, que também preservemos e celebremos os valores do Canadá, o país que permitiu que as nossas mentes coletivas se tornassem maiores.
Hoje, ao homenagearmos os mais recentes nomeados e aqueles antes deles, todos luso-canadianos de mente aberta, celebremos também as estatísticas recentes que revelam que os nossos jovens estão a dar grandes passos4. Celebremos o poder de um todo para fazer a mudança; celebremos os modelos positivos e diversos.

Como membro da universidade mais multicultural do Canadá, acreditamos que a educação é um processo holístico que, enquanto testamos as estruturas do conhecimento e enquanto cultivamos a nossa mente humana como o nosso maior recurso, também acreditamos na diversidade, em honrar o nosso compromisso com a comunidade; o Arquivo do Projeto de História Luso-Canadiano é um dos vários exemplos do compromisso da universidade de York5.
Termino, afirmando que grandes mentes são capazes de melhorar a vida dos outros. Se pudermos deixar a nossa comunidade e o nosso mundo melhor do que o que encontrámos, então vamos continuar a abrir as nossas mentes.

Referências:
1-Para obter informações completas sobre o programa, incluindo um novo prémio de entrada para futuros estudantes, visite http://portuguese.dIII.laps.yorku.ca.
2-Num estudo de 2010, a Universidade de York teve o maior número de pesquisadores que trabalham em áreas lusófonas de todas as universidades canadianas pesquisadas. Veja Ferreira & Rolim “O Ensino do Português no Canadá: Algumas Observações sobre Dinâmicas Universitárias”.
3-Veja, por exemplo, “O Insucesso Escolar da Juventude Luso-Canadiana: um Fenómeno Persistente”, de Fernando Nunes, “O que é que está a destruir o Pequeno Portugal”, de Andrew-Gee, “O que é que está a destruir o Pequeno Portugal”, de Azevedo, uma riposta, ou “As galinhas voltam para casa”, ou “A masculinidade trabalhada: a classe, o género e as escolhas e atitudes educativas dos jovens de ascendência portuguesa em Toronto”, de Pereira.
4-O programa On Your Mark Tutoring, do Working Women Community Centre desempenhou um papel fundamental no sucesso educacional recente da nossa juventude. Para um relatório estatístico recente, consulte: http://www.tdsb.on.ca/Portals/research/docs/reports/TDSB%20StudentGroupOverviews.pdf
5-Além do compromisso do programa com educação empírica, através das suas diversas parcerias, prémios e serviços à comunidade (veja, por exemplo, http://yfile.news.yorku.ca/2016/12/13/laps-community-conversations-launch-gives-voice-to-portuguese-speaking-communities/), a Universidade de York também é o local da Associação de Estudos Lusófonos (http://sa.apps01.yorku.ca) e do Centro Canadiano de pesquisa e estudos açorianos (http://yorku.ca/ccars/), uma iniciativa conjunta com a professora Marujo da Universidade de Toronto, mas totalmente sediada e suportada pela Universidade de York.

 

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