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À conversa com Jack Prazeres

Veio para o Canadá era ainda um pré-adolescente, decorria o ano de 1974. Para trás, em Portugal, ficava o ambiente rural da pequena aldeia Pinhôa, no concelho da Lourinhã. Um menino do campo, a acompanhar os pais, que se vê “fechado na cidade” e “sente na pele” as dificuldades de uma adaptação a um país culturalmente diferente, ainda com poucos portugueses. Sem pudores, revela que os primeiros anos foram muito difíceis, horríveis até, e nem a escola escapou a essa realidade. “O que chamam hoje de ‘bullying’, naquela altura, era o prato do dia”, conta.
Já homem feito e com muitas histórias de sucesso pelo meio, neste país adotivo, Jack Prazeres confessa que ainda não se sentiu “assim bem confortável”, ou em casa, no Canadá. “Sinto-me em casa, quando estou em Portugal”, atira. Um Portugal com quem tem uma relação excelente e que, indiscutivelmente, ocupa um lugar especial no seu coração.
Ainda assim, Jack Prazeres percebe hoje que ele desfrutou de uma vida abençoada. Casado, com dois filhos e duas netinhas, as suas princesas, como gosta de adjetivar, este luso-canadiano experimentou sucesso pessoal e profissional ao longo dos anos. E, quando ele se encontrou em posição de dar de volta, ele fez isso de todo o coração.
Em realidade, Prazeres, que serviu como presidente do festival Carassauga e presidente do Centro Cultural Português de Mississauga, afirma convictamente que dar de volta à comunidade através do voluntariado é de grande importância para ele. Um compromisso, um estado de espírito, que o próprio gostaria de ver abraçado por muito mais gente.
Com uma história da comunidade extremamente importante, Jack Prazeres já recebeu mais do que uma vez o Prémio Jubileu da Rainha pelo serviço comunitário e recebeu diversos prémios por uma liderança comunitária distinta, tanto no setor da construção civil, como na comunidade luso-canadiana.
O reconhecimento também veio da parte do governo português, quando em 2011 recebeu a Comenda da Ordem de Mérito de Portugal. Um prémio que, admite humildemente, veio “muito cedo” e tomou de assalto o seu interior, dividido entre as mil e uma dúvidas do merecimento e, em sentido contrário, a natural alegria por um reconhecimento de significativa importância.
Fortemente envolvido com organizações comunitárias, Jack Prazeres continua a ter um carinho especial pela Luso Canadian Charitable Society, instituição de caridade, fundada em 2003, da qual é presidente, que ajuda famílias com serviços de apoio a adultos com deficiência e que abre agora o seu terceiro centro que servirá a região de Peel.
Uma abertura oficial (dia 30 de setembro) que trará vários anúncios para a comunidade, em conceito de casa aberta para mostrar as principais valências e programas à disposição dos seus utentes, grande parte deles portugueses ou lusodescendentes. Segue-se a grande Gala LUSO, em outubro, que terá a “Família” como temática central.
Por certo um dos homens mais respeitados na comunidade, um “tipo porreiro” como muitos o veem, Jack Prazeres é o entrevistado do mês da Revista Amar.

Revista Amar – Vamos começar esta nossa entrevista por falar um pouco do seu percurso de vida inicial. De que parte de Portugal é natural e como veio parar ao Canadá?
Jack Prazeres“Eu vim em 1974. Sou (natural) de uma pequena terra chamada Pinhôa, que é muito perto da Lourinhã. Eu vim para o Canadá, porque os meus pais me trouxeram. Eu não queria vir para o Canadá – tinha 12 anos de idade. Nunca gostei. Muita gente não acredita. Os primeiros dois-quatro anos foram horríveis. Um menino que vinha do campo, da aldeia, depois fechado na cidade …; então, todos os anos ía a Portugal, o verão inteiro. E até hoje nunca me senti assim bem confortável, em casa. Sinto-me em casa, quando estou em Portugal.”

RA – Em que circunstâncias é que conheceu a sua esposa e como se sente enquanto pai de família?
JP“Conhecia a família dela. Eles são perto da minha zona. Acabámos por trabalhar os dois, em frente um ao outro. Ela trabalhava numa padaria, na Ossington e Dundas, e eu trabalhava, no outro lado da estrada, numa peixaria. Comecei a ir ao café, muitas vezes, e comecei a ir mais e mais vezes, durante o dia. Cada vez bebia mais café (risos). Foi assim que nos conhecemos. Namorámos seis anos. Depois, houve casamento e depois veio a Cynthia. E a seguir, o Jason. Temos tido muita sorte com eles. E agora, temos duas netinhas. Assim que recebemos o telefonema de que elas vão lá a casa, vai tudo a correr para casa para brincar com as meninas. São as princesas. Estamos muito contentes. Toda a gente se dá muito bem.”

RA – Como é que descreve a sua relação com as netas?
JP“Espetacular! Adoro-as. Ontem, por acaso, elas ficaram lá em casa e a mais velha adormeceu com a gente na cama. Acho que é um dos maiores prazeres do mundo. Quando é os filhos, temos aquela responsabilidade 24 horas por dia. Quando é os netos, é só mimo, é só matar as saudades. Depois há uma grande diferença entre ser pai e ter que educar, e entre ser avô e ter que estragar (risos).”

RA – Muitos veem o Jack Prazeres como um “tipo porreiro” e que está sempre sorridente. É dessa forma que se vê ao espelho?
JP – [Pausa] – “Tento sempre fazer o melhor que posso para satisfazer as pessoas com quem eu trabalho, com que eu lido. Por vezes, nem todos estão de acordo – nem eu estou de acordo – com as decisões que são feitas. Eu tento o melhor possível, dentro das minhas possibilidades, dar-me bem com toda a gente. Mas não é sempre esse o caso (…). Eu acho que nós temos de nos compreender uns aos outros e tentar levar a vida o mais leve possível e não andar com pesadelos. Sinto que não tenho pesadelos, vou a qualquer lado, não tenho quaisquer problemas. Faço aquilo que posso, dentro das minhas empresas, bem como dentro do trabalho voluntário. Todos fazemos erros, mas devemos tentar ir para a frente e nunca olhar para trás e não cometer os mesmos erros duas vezes.”

RA – Há tantos anos a viver no Canadá, como está a sua relação com Portugal?
JP“Excelente. Sou talvez uma daquelas pessoas que mantenho uns laços muito ‘apertadinhos’ com Portugal. Eu sou «culpado» de estar a ouvir as rádios portuguesas, através da Internet, em vez de estar a ouvir as estações daqui de Toronto. Porque, por vezes, quando vou a conduzir, sinto-me mais perto de Portugal. Adoro Portugal, tento ir sempre duas, três, quatro vezes por ano, quando possível. Adoro passar lá férias, adoro estar lá com a família, adoro a minha zona ali de praias e tudo. E eu acho que, se fosse possível – que não vai ser – não me importava de mudar para Portugal. Mas adorava, em breve, poder passar, pelo menos, um mês ou dois em Portugal.”

RA – Jack Prazeres, trabalha no setor de alvenaria desde a década de 1980 e, em 2011, decidiu apostar na Senso Group, uma loja de fornecimento de materiais para o setor da construção. Até ao momento, qual é o balanço que faz desta aventura?
JP“O balanço é muito positivo. Mil por cento melhor do que aquilo que nós programámos. Nós programámos uma loja pequena, só para me entreter um bocadinho, porque naquela altura tinha vendido uma empresa (…) e depois não sabia o que haveria de fazer. Achava que era muito novo para me reformar. E comprei aquilo, uma coisa pequena, só para me entreter e ter alguma coisa para fazer. E aquilo cresceu imenso. Hoje, estamos em três lugares. Vamos agora para o quarto (lugar), brevemente. Tenho a sorte também de ter os meus dois filhos agora envolvidos, o que já é menos trabalho para mim. Tenho lá uma pessoa muito impecável – o Mário Nunes – que está à frente do projeto inteiro. O balanço é superpositivo.”

RA – Uma jovem empresa num mercado competitivo, como é que a Senso Group está a trilhar o seu caminho?
JP“A Senso Group veio preencher um lugar que praticamente não havia. Tínhamos vários ‘building suppliers’ canadianos na baixa da cidade e outros assim, mas era uma forma um bocadinho diferente. Eles estão mais inclinados para o público. Nós estamos mais inclinados para pequenas empresas. Viemos servir aquelas pequenas empresas com muito espaço. Elas podem ir logo de manhã cedo, às 06h30, carregar e ir para os trabalhos e estar lá às 07h30. E nós também entregamos as encomendas muito rapidamente. E não havia esse tipo de serviço dentro da área de Toronto. Havia sim em Woodbridge, em Brampton, mas dentro da área de Toronto não havia esse tipo de serviço. Por isso, é que nós tivemos essa sorte de crescer muito rapidamente. Posso talvez dizer com um certo à vontade, e isto não é arrogância, que não temos assim muita competição no ramo onde estamos hoje. Estamos a crescer diariamente. O nosso maior problema é a falta de pessoal profissional.”

RA – Jack Prazeres integra o novo do Conselho de Administração dos Serviços da Polícia Regional de Peel, após a nomeação pelo governo provincial em junho de 2016 e tomada de posse e juramento no mês de julho. Que tipo de plano de ação preparou para este mandato de dois anos?
JP“Já passou um ano. Entrei numa organização um bocado difícil, na altura, porque havia política, não havia consensos dentro do Conselho. Havia uma diferença muito grande entre o chefe da Polícia e nós. E eu acho que a pouco e pouco a coisa tem se mudado um bocadinho, assim mais para o meu jeito. Mais passivo, com menos política, menos confrontação. Agora, acabámos por renovar o contrato da chefe de Polícia por mais dois anos, quando toda a gente pensava que não iria ser renovado. Portanto, as coisas estão muito melhores, mais assentes. E temos agora que nos concentrar naquilo que é preciso fazer, arranjar maneiras para que haja menos crime, menos roubos, menos isto, menos aquilo, e menos política entre os grupos todos, que estão lá para organizar e não para desorganizar.”

RA – Jack Prazeres, que serviu como presidente do festival Carassauga e presidente do Centro Cultural Português de Mississauga, sempre disse que dar de volta à comunidade, através do voluntariado, era de grande importância para si. Por quê?
JP“Acho que não é só para mim que é de grande importância. Mas devia ser para todos. Porque acho que todos nós, que temos a sorte de ter uma vida mais ou menos, devíamos investir voluntariamente ou financeiramente nas nossas comunidades. Porque melhorar a comunidade é para todos, não é só para nós. É para os nossos filhos, é para os nossos netos, é para os nossos amigos. Eu acho que todas as pessoas que podem, têm tempo, e financeiramente podem, deviam investir na comunidade. No Carassauga, por exemplo, foi uma coisa que eu adorei, porque lidei com 62 grupos, todos diferentes, com religiões diferentes, com costumes diferentes, com comidas diferentes. E lidar com aquela gente toda, junta, numa reunião, acho que é uma das coisas mais interessantes do mundo. Nós, por vezes, até dizíamos que era melhor do que a ONU. Eu adoro trabalhar com a comunidade, adoro investir na comunidade e adoro retribuir um bocadinho daquilo que nos é oferecido.”

RA – Está fortemente envolvido com outras organizações comunitárias, assumindo o papel de presidente da Luso Canadian Charitable Society. Como tem sido cuidar deste “bebé” nascido em 2003?
JP“Bem, sou obrigado a dizer que tudo isto em que eu estou envolvido na comunidade, e principalmente a LUSO, foi através dos ‘empurrões’ que tive pelo Comendador António Dionísio. Já conhecia o Tony desde pequenino – somos da mesma terra -, mas ele realmente é que me empurrou para estas coisas, para ficar envolvido … que eu realmente não sentia interesse, nem via a importância. Mas o Tony Dionísio, um grande amigo meu, é que me empurrou (e incentivou) para estas coisas. Lembro-me que a primeira vez, ele obrigou-me a ser MC (Mestre de Cerimónias) numa festa que havia da Lourinhã. Eu nunca tinha feito de MC nem sabia o que era um MC. E tive que ser o MC para uma festa grande da Lourinhã. Eu que nunca tinha estado num palco. Mas ele disse: – ‘Tu és capaz de fazer’. Ele insistiu e acho que foi desde aí, dessa noite, que eu senti que até gosto e que até conseguia estar ali num palco, falar e tal …; de qualquer maneira, a LUSO tem sido um projeto muito interessante. Várias vezes já que eu queria passar a vela para outra pessoa, mas é difícil, porque quando nós vamos lá e vemos aquelas crianças-adultos que começam a chorar e a dizer obrigado, nós não conseguimos deixar. É muito, muito difícil.
Eu costumo dizer que quando me sinto um bocadinho em baixo, eu passo pela LUSO e vejo lá aqueles utentes numa cadeirinha de rodas, a rir e a sorrir, e a querer abraçar-nos, isso é como sejam pilhas, carrega a energia e temos força para andar mais seis meses ou um ano sem pensar e olhar para trás e que temos que ajudar estas pessoas.

Acho que as pessoas com deficiências estão muito desprezadas. Não só aqui, como noutros países. Acho que é no mundo inteiro. E por quê? Porque eles não agarram em sinais e vão para o Parlamento fazer protestos. Eles estão calados. Estão em casa, estão fechados. Estão naqueles programas. Ninguém fala por eles, a não ser os pais. Mas também não é um assunto ‘sexy’ para a gente estar a falar todos os dias. Muitos dos pais, infelizmente, têm vergonha de ter filhos assim. Infelizmente, ainda acontece pais que escondem filhos assim. Então, não há voz para aquelas pessoas. E torna-se muito difícil. E quando nós os vemos contentes, pessoas que vêm para ali e que, ao fim do dia, não querem sair dali, não querem ir para casa e se agarram aquelas portas, e é um problema enorme para levá-los para casa, aí é que nós vemos que realmente que o que estamos é fazer é positivo para aquelas pessoas. E então, torna-se muito difícil para nós largar aqueles cargos e voltar as costas. Porque se nós voltarmos as costas, no outro dia de manhã estamos a pensar: – ‘Será que aquelas pessoas estão a ir para a frente, será que eles estão a ter os programas ou já estão fechados outra vez em casa!?- Nós tivemos o caso de uma moça que esteve fechada 20 anos dentro de um quarto. E ao fim de um mês de estar na LUSO, era a noite ao pé do dia. Já sorria, já brincava. Portanto, temos casos tristes …”

RA – Depois de dois centros, em Toronto e em Hamilton, surgiu a necessidade de abertura de um terceiro centro, na região de Peel, que levou ao investimento de alguns milhões de dólares. Foi difícil congregar o envolvimento da sociedade civil em geral, da comunidade portuguesa, empresários portugueses e canadianos, sindicatos e associações, à volta deste projeto?
JP“Não, não foi difícil. Até hoje, nunca foi difícil para a LUSO. Temos muitas empresas que têm sempre ajudado. Tivemos o Jack Oliveira, o Frank Alvarez, o Joe Botelho, o Joel Filipe, o Joe Mancinelli que fizeram parte deste grupo de angariação de fundos para esta nova (casa) aqui. Nada é fácil. Mas não foi daquelas coisas que tivemos que nos sacrificar muito para arranjar o primeiro milhão de dólares.”

RA – Quer dizer que as pessoas simpatizam com a causa?
JP“E acreditam. Acreditar no projeto, é que é a diferença. E nós temos como exemplo a LUSO na St. Clair, temos a LUSO em Hamilton. São projetos pagos, não devem dinheiro. E eu acho que agora o pessoal acredita neste projeto novo, e acreditou tanto que deram para lá o dinheiro. E é um prazer também para a comunidade ter mais um belo prédio e uma bela obra, com a bandeira portuguesa hasteada e fazer aquilo que faz por aqueles que mais precisam. Esperamos, dentro dos próximos dois-três anos, acabar de pagar aquele prédio. E depois quem sabe, a pouco e pouco, mais um …”

RA – A Luso Volta foi fundamental para atingir o objetivo de abrir o novo Centro no mais curto espaço de tempo?
JP“Sim, a Luso Volta e a Luso Walk – que é um projeto da Lena Barreto. Já é o terceiro ano que fizemos. Tivemos muito sucesso. Esperamos que aquilo cresça muito mais. Há espaço para crescer muito mais. Mas é uma das três coisas que fizemos para angariar fundos – Jantar de Gala, o Torneio de Golfe e a Volta e o passeio a pé. Foi um bom evento este ano. Temos tido sempre pouca sorte com o tempo, mas agora para o quarto ano vai estar sol e 30 graus … (garante, entre risos).”

RA – A abertura oficial do Luso Support Centre Peel está marcada para o dia 30 de setembro. O que é que a organização está a preparar para esse grande dia? – [Nota: esta entrevista foi feita uns dias antes da abertura oficial do novo centro.]
JP“Bem, nós vamos ter vários anúncios para a comunidade. Vamos apresentar à comunidade o produto final. Já foram feitas lá muitas obras. Já está a começar a funcionar. Já estamos a praticar. Temos lá já vários utentes durante o dia. Como disse, se tudo correr bem, vai haver também um anúncio do governo provincial. Vamos pôr as placas de todos aqueles que deram mais de 10 mil dólares – parede de doadores – como prometido. Outros que deram quantias maiores, vão ter o nome num dos quartos. E depois é mostrar à comunidade e à comunicação social – casa aberta – para mostrar o que temos ali e informar que as portas estão abertas e estamos prontos a ajudar aqueles que mais precisam.”

RA – Quem vão ser os principais utentes?
JP“Nós tentamos sempre procurar aqueles que mais precisam. Nós sabemos que há alguns que já estão dentro do sistema do Community Living, já estão a ser ajudados e que podem continuar nesse meio. Nós queremos ajudar aqueles que – como falei anteriormente – nunca tenham tido ajuda. Porque sabemos que até aos 19 anos, eles vão para a escola, estão dentro do sistema escolar. Mas depois o governo manda-os para a rua, por vezes sem apoios. E são esses que nós queremos apanhar, quando eles passam dos 19 anos de idade, pois não queremos que eles fiquem fechados em casa. Queremos trazê-los para o centro. Temos programas portugueses. Não estamos fechados para os outros, também, mas principalmente para os portugueses.”

RA – Jack Prazeres tem recebido vários prémios de reconhecimento e distinções pelo serviço e envolvimento comunitário. A título de exemplo, recebeu o prémio Jubileu da Rainha, foi agraciado com a Comenda da Ordem do Mérito em 2010, por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, e foi também o primeiro luso-canadiano homenageado pelo Community Living Mississauga, em jantar realizado no dia 24 de março de 2011. O que tem representado tudo isto para si?
JP“Acho que não há ninguém que não goste de ser reconhecido. É uma responsabilidade muito grande que é posta em cima de nós. Quando temos um reconhecimento, de qualquer que seja a organização, mete mais uma certa responsabilidade em cima de nós. Porque eu quando recebo um reconhecimento, a maior parte das vezes sinto que não o mereço ainda. Foi muito cedo, havia de ter feito mais. Então, tento preencher aquela zona que eu acho que está vazia.

Eu acho que o prémio que recebi do governo Português, foi muito cedo (…). Todas as noites pensava naquilo: – ‘Será que eu mereço isto?’. Não posso comparar-me com outras pessoas, porque nunca ninguém sabe o que as outras pessoas fizeram. Mas uma pessoa tem sempre aquela dúvida: – ‘Será que eu mereço? Tenho que fazer mais um bocadinho para merecer isto. Eu quero merecer isto, quero me sentir à vontade em merecer este prémio. E eu acho que tenho esse problema. Sinto que nunca fiz o suficiente para merecer estes prémios que tenho recebido. Portanto, obriga-me a trabalhar um bocadinho mais voluntariamente para poder justificar a mim próprio, não às outras pessoas, que realmente merecia e para ter aquilo na prateleira.”

RA – Mais recentemente, recebeu o prémio Laurie Pallet Patron of the Arts, pelo seu trabalho como coordenador do Festival Carassauga, um dos festivais multiculturais mais bem-sucedidos do mundo. Ainda não está cansado de receber prémios, pois não?
JP“Acho que não há ninguém que esteja cansado de receber prémios. Mas há aquela responsabilidade de recebê-los e merecê-los. E fazer mais. De qualquer maneira, uma pessoa sente-se muito feliz. Ao fim do dia, a gente olhar para uma prateleira ou uma parede e ver lá um prémio, acho que é importante para todos nós. Mas o mais importante é saber que estamos a fazer a diferença.”

RA – É também um rosto visível junto de muitas figuras políticas locais. Está já a preparar o salto para o mundo da política e quem sabe, um dia, candidatar-se a um cargo político de relevo?
JP – (Uma prolongada pausa) – “Eu detesto a política. Tenho tido muitos emails a pedirem-me para concorrer a certas posições na política e eu digo sempre que o único sítio que eu vou a correr é na praia em Portugal (risos). Por quê? Porque na política, nós muitas vezes temos que dizer aquilo que é preciso dizer e não aquilo que nós queremos dizer. Eu na política ia arranjar muitos inimigos e não ia ter muitos votos, ao fim do primeiro mandato, porque eu não sou das pessoas de dizer aquilo que as pessoas querem ouvir (…). Eu acho que não tenho futuro na carreira política. Nunca se diz que Não …, mas acho que não.”

RA – Independentemente do caminho, quer revelar algumas das ideias e projetos para o futuro?
JP“Neste momento, não há novidades nenhumas. Como disse, a Luso tem um projeto muito grande. Não sei se é no meu tempo de vida que conseguimos realizar esse projeto. Talvez não. Talvez entrando outra pessoa mais nova, com outra energia, consiga também andar mais depressa. Espero que, em breve, também haja uma mudança de sangue na organização da Luso, porque está na altura. Sempre acreditei que não devemos estar muito tempo na mesma posição, porque acho que perdemos um bocadinho do espírito, aquela vontade, aquela energia. Por vezes, mudar é essencial (…). Agora projetos novos, não está nada em papel. Não quer dizer que não vá haver, porque a cabeça está sempre a pensar e há sempre propostas de outro pessoal amigo e pessoal do negócio. Portanto, vamos ver, vamos trabalhando dia-a-dia.”

RA – Para finalizar, pedimos que deixe uma mensagem para a comunidade portuguesa residente na área metropolitana de Toronto.
JP“Acho que nós temos uma das melhores comunidades dentro da área da Grande Toronto. Temos a comunidade trabalhadora mais ‘agressiva’, a comunidade que mais raízes tem com o país de onde veio. Somos uma comunidade muito fechada, o que é um bocadinho um problema. Mas somos uma comunidade muito séria, muito respeitada. Eu que já trabalhei com 62 comunidades consigo ver a diferença. Somos claramente a melhor comunidade. Podemos não ser a comunidade mais rica, podemos não ser a comunidade mais bem organizada, podemos não ser a comunidade mais juntinha, mas continuamos a ser uma comunidade muito junta quando comparado com a maior parte das outras. Não é a maior, mas é, sinceramente, a mais honesta. E nisso, estamos de parabéns. (…) – Que continuemos para a frente com o que estamos a fazer e quero ver mais projetos com a bandeira portuguesa à frente.”

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