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À Conversa com Ana Bailão

Aos 15 anos de idade, a luso-canadiana Ana Bailão iniciava aquela que seria a sua maior aventura até ao momento, saindo da Vila Alta de Alenquer, Portugal, para se juntar à família em Davenport, um bairro da cidade de Toronto em forte crescimento e já com uma comunidade portuguesa bem enraizada.
Para trás, ficava uma “dor de barriga” que mais não era do que a reação natural de uma jovem adolescente que teve que deixar a zona de conforto, os amigos e tudo o que conhecia, para abraçar uma nova realidade, um mundo (ainda) desconhecido, mas que rapidamente viria a conhecer e a desbravar com sucesso.
Crescendo no Bairro 18 de Davenport, Ana Bailão frequentou o West College de Toronto e estudou sociologia na Universidade de Toronto. A sua paixão por projetos comunitários continuou após a formatura, tendo participado em iniciativas como “Digin” e “GreenHere” e cofundado o “Friends of Dovercourt Park”.
Totalmente empenhada em defender questões importantes para os novos canadianos, esta luso-canadiana atuou como presidente da Federação de Empresários e Profissionais Luso-Canadianos e como presidente do Centro Comunitário das Mulheres Trabalhadoras, onde ajudou as mulheres imigrantes e refugiadas e suas famílias a se integrarem nas suas novas comunidades.
O seu compromisso com a equidade social e a sua forte ética de trabalho, em realidade, são produtos de um começo humilde e do apoio que ela recebeu durante os seus primeiros dias no Canadá.
Entretanto, e antes de desempenhar as funções de vereadora municipal, Ana Bailão alcançou sucesso no setor privado, desenvolvendo competências de liderança e construção de consensos, enquanto ocupava cargos importantes no departamento das Tecnologias da Informação para o setor bancário e de saúde.
A plataforma eleitoral certa e o apoio que recebeu da parte da família e de líderes da comunidade, levam Ana Bailão a ser eleita pela primeira vez como vereadora municipal para o Bairro 18 de Davenport, em 2010. Em pouco tempo, esta mulher determinada e focada no trabalho, passa a ser reconhecida como uma líder na Assembleia Municipal.
A sua profunda ligação com a comunidade e forte experiência no setor privado, ajudam Bailão a conseguir resultados em questões complexas como habitação social, proteção dos trabalhadores e intervenção social.
Ainda no seu primeiro mandato, é convidada para presidir à Comissão de Habitação Social, apostando na redução da burocracia municipal e no incentivo da construção de mais habitação acessível, entre outras medidas pró-comunidade e de maior justiça social.
O seu trabalho é premiado pelo eleitorado local com a reeleição em 2014. Mais recentemente, no passado mês de outubro, Ana Bailão sobe mais um degrau na sua carreira política ao ser nomeada vice-presidente da cidade de Toronto.
Uma nomeação que o presidente da Câmara John Tory diz ser um reconhecimento da dedicação e trabalho que Ana Bailão tem feito nestes últimos anos e que atesta a sua capacidade de liderança e foco profissional nos diferentes cargos que desempenha a nível municipal.
Um motivo de orgulho para a comunidade portuguesa residente em Toronto que vê nesta sua “filha” um exemplo a seguir e que pode servir de inspiração para os mais jovens.
Ainda a digerir todas as emoções inerentes à nomeação, mas consciente da grande responsabilidade de substituir Pam McConnell, a vereadora que ocupou essa posição de vice-presidente até à sua morte em julho, Ana Bailão sente que tudo isto é um reconhecimento da sua determinação e ética de trabalho, algo que ela diz ter também absorvido da comunidade portuguesa.
A vereadora é a presidente da Comissão de Habitação Social da cidade e continuará a exercer esse papel em conjunto com as suas novas responsabilidades como vice-presidente.
Uma voz dinâmica e enérgica para as mulheres, as famílias com baixos rendimentos e os novos canadianos, Ana continua a viver no Bairro 18, a mesma comunidade que a recebeu quando chegou pela primeira vez ao Canadá.
Esta mulher cheia de garra e com uma forte personalidade é a capa da edição deste mês, a quem agradecemos a disponibilidade para estar à conversa com a Revista Amar.

RA – Veio para o Canadá quando tinha 15 anos de idade. Ainda se lembra desse momento como se fosse hoje?
Ana Bailão“Lembro, lembro perfeitamente bem. Eu não vim com a minha família. Os meus pais já cá estavam. Eles vieram dois anos mais cedo. Nós tivemos dois anos que não vimos os meus pais, eu e a minha irmã. Depois, eles voltaram a Portugal para tratar de todos os papéis e o processo de emigração. E depois, eles voltaram em janeiro de 1991. E como nós estávamos a meio do ano escolar, foi em junho de 1991, que os meus avós nos vieram cá trazer (…); acabei o 9.º ano. Como eu não queria sair de Portugal … acabei por ir a uma visita ao hospital, uns dias antes de vir …”

RA – Para a “dor de barriga”?
AB “Exatamente” (risos). Lembro-me perfeitamente de estar a sair. Sou de Alenquer, de uma vila – a Vila Alta – e aquele momento de despedida – e eu chorava. Era uma coisa que parecia o fim do mundo; e, portanto, lembro-me perfeitamente desse dia.”

RA – Como foi a sua adaptação inicial, nomeadamente na escola e no meio social da altura?
AB“Cheguei em junho, na área da Brock e Dundas. Era onde nós morávamos. O meu pai tinha uma tia que morava ali. Eles depois acabaram também por alugar um apartamento ali na área. Aliás, foi essa tia que acabou por trazer todos os sobrinhos praticamente para aqui. E hoje, do lado da família do meu pai, estamos todos aqui. E lembro-me de ficar impressionada com duas coisas: a diversidade da cidade, de ver tanta cultura e tanta coisa. E depois, de haver este sentimento de oportunidade. Via-se que havia oportunidade nesta cidade. Para quem quisesse realmente arregaçar as mangas e trabalhar, sentia-se que havia esse sentido de oportunidade.

Depois em setembro, comecei na escola e, aí, o choque maior foi a falta de conhecimento dos jovens pelo que era o Portugal atual. Quando eu cheguei em 1991, Portugal estava no começo daquele desenvolvimento todo que houve nos anos 90. Eu poderia não ter as coisas como cá os jovens tinham em Toronto, porque os meus pais, coitados, não podiam custear essas coisas. Mas não é que não as houvesse em Portugal. O país também tinha tudo o que eles tinham aqui. E havia ainda muito aquela imagem de que Portugal era um país subdesenvolvido (…) e aquilo fazia-me muita confusão, porque eu tentava dizer que não era assim. E, ao mesmo tempo, senti logo que a própria comunidade também não era bem conhecida em Portugal. Porque assim como eu tinha uma imagem completamente diferente do que era a comunidade aqui e o que era tudo o que estava aqui, Portugal também não sabia a riqueza que tinha nas suas comunidades. E foi especialmente esta falta de conhecimento de um lado e de outro, que fez com que eu começasse logo a me envolver na comunidade pouco tempo após eu chegar ao Canadá.”

E lembro-me de ficar impressionada com duas coisas: a diversidade da cidade,
de ver tanta cultura e tanta coisa. E depois,
também, de haver este sentimento
de oportunidade.

RA – A família mudou-se para Davenport. Que diferenças nota entre o bairro que encontrou e aquele que existe hoje?
AB“Como disse, nós morámos ali na zona da Dundas e Brock. Depois morámos na Russet Ave., na Bloor e Dufferin. Tivemos várias moradas, dentro da área de Davenport. A maior diferença é que naquela altura, especialmente na área da Dundas e Brock, eu diria, se não era para aí 40 por cento de origem portuguesa, deveria andar lá muito perto. Hoje em dia, não é. Eu nem sei se chega aos 15 por cento (…). Mesmo a minha área já tem muito menos pessoas de origem portuguesa. Havia muito mais comércio, o pequeno comércio estava muito mais presente – o nosso comércio comunitário. Portanto, nota-se uma diferença. Havia muito mais fábricas. Fecharam algumas das fábricas que havia nessa altura.

Hoje em dia, é uma comunidade muito mais diversificada. A maior comunidade étnica continua a ser a nossa comunidade luso-canadiana, mas tem também outras comunidades étnicas. E muitas pessoas que já são de terceiras gerações, profissionais, muitas famílias novas que estão a chegar à nossa área, com crianças pequenas. Quando eu cheguei havia muita criança, depois houve um declínio muito grande e agora está-se a voltar a ver essas famílias que estão a voltar. A diferença é que são famílias mais diversas; é, no fundo, aquilo que é a essência da nossa cidade e a essência do Canadá. Mas ainda se consegue perceber a influência que a nossa comunidade tem na área. E eu tento sempre preservar isto. Porque eu digo sempre que preservar isto, não é só preservar a história da nossa comunidade, é preservar a história da cidade. Porque estas comunidades é o que faz a cidade, estes bairros. Portanto, é importante para a cidade preservar estas mudanças, estas contribuições, estes costumes, estas tradições, porque fazem parte da cidade.”

Nunca cheguei a tirar o mestrado em
assistente social, porque depois comecei a
trabalhar na Câmara, na política, e realmente foi amor à primeira vista. Não o conhecia,
mas foi amor à primeira vista.

RA – A Ana investiu numa formação superior. Por quê estudar Sociologia?
AB “Eu queria ser assistente social. E depois, fascina-me este movimento de pessoas, a forma como as pessoas se ligam umas com as outras, como a sociedade funciona e como podemos influenciar e modificar sociedades. Foi isso que me fascinou na sociologia. Era o que queria estudar e estudei. Nunca cheguei a tirar o mestrado em assistente social, porque depois comecei a trabalhar na Câmara, na política, e realmente foi amor à primeira vista. Não o conhecia, mas foi amor à primeira vista (risos).”

RA – Quando é que começou verdadeiramente o seu envolvimento comunitário?
AB“Comecei o meu envolvimento comunitário quando entrei para a universidade. Tinha completado o nono em Portugal e entrei aqui no décimo ano. Não falava muito inglês; comecei logo a trabalhar, trabalhava todos os dias, depois da escola. Quando cheguei à universidade foi quando comecei realmente a me envolver. Foi nas associações de estudantes, no movimento estudantil, na ACAPO, depois veio a Tuna e, pronto, depois nunca mais parou (risos).”

RA – É apontada como uma voz forte em defesa dos direitos das mulheres e das famílias com baixos rendimentos. O que a move nesta área?
AB“Acho que é donde eu venho. Sou mulher e, portanto, sinto na pele aquilo que muitas de nós sentimos e que vimos noutras mulheres. Acho que para a maioria de nós, sensibiliza-nos e queremos fazer algo para ajudar. Sou imigrante, sei o que é chegar a uma cidade, não conhecer a língua e ter que se adaptar. Sei o que é ser uma família de baixo e médio rendimento. E, portanto, isso é fazer com que haja uma maior igualdade, através de criar oportunidades para todos esses grupos. É isso que me move. É isso sempre que tenho feito, não só na política, mas que tenho vindo a fazer no meu envolvimento. Quando me envolvi no Working Women Community Centre, fui presidente da direção, estive na direção durante vários anos, foi para ajudar exatamente esses grupos, esse trabalho que eu acho que é importante.”

RA – Sente que alcançou os objetivos durante a sua presidência da FPCBP?
AB “Eu acho que sim. Tivemos dois anos fabulosos, diria eu. Tivemos bolsas de estudo, muitas atividades, tínhamos praticamente atividades mensais, desde “networking events”, dois grandes jantares – na altura, separávamos o jantar das bolsas do jantar de entrega dos prémios excelência empresarial; tínhamos “budget reviews”, trazíamos os ministros das finanças para fazerem “budget reviews”, tínhamos workshops, fez-se o que se pôde. Foi uma direção que trabalhou muito. Celebrámos naquela altura os 25 anos da Federação. Tentámos trazer mais jovens, também. Era importante, por isso criávamos muitos eventos de networking na baixa de Toronto. Acho que conseguimos algum progresso. A grande dificuldade de todas estas organizações é, realmente, o facto de que elas não têm funcionários e dependem muito das direções que estão (…).

RA – Viveu o sucesso profissional no setor privado. Isso foi uma rampa de lançamento para o lado político?
AB“Ter sucesso naquilo que se faz é o lançamento para mais sucesso. Acho que é uma preparação, sem dúvida. Nós, na política, devemos tentar ter uma preparação diversificada. Eu tive, felizmente uma grande preparação a nível do envolvimento comunitário. E tenho felizmente a preparação de ter também trabalhado no setor público e no setor privado. Portanto, quando fui eleita em 2010, eu já vinha com alguns anos de trabalhar aqui, como funcionária na Câmara, no setor privado, e de um grande envolvimento comunitário. Acho que isso me faz melhor como política e completa-me melhor como política, e faz com que eu consiga desempenhar melhor as minhas funções.”

RA – A política está no seu ADN?
AB“Eu diria que não. Eu conheço pessoas e conheço jovens que muitos dizem assim: ‘Eu quero entrar na política. Eu quero entrar no mundo político!’; e eu nunca disse isso. Não era o meu objetivo. Eu fui para a universidade. O meu objetivo era ser assistente social. Não tinha isso na minha mente, não tinha isso no meu horizonte. Gostava de assuntos da atualidade, de debates e de estar informada. Se calhar, talvez o tivesse lá e eu não o tivesse identificado e será mais fácil para as outras pessoas identificarem em mim. Mas também é verdade que agora já está tão dentro de mim, tão intrínseco, que agora se calhar sim (risos) … desenvolveu-se de uma maneira que está mesmo dentro de mim. Eu acho que é a política. Mas é mais do que a política. Acho que é o que eu consigo fazer através da política. A mim, dá-me uma satisfação enorme quando conseguimos mudar aqui alguma lei ou vou na minha área e começo a ver e – ‘Olha isto vai ser a nova biblioteca e, ali, aquele centro comunitário está velhote, mas já vamos fazer outro que vai ser duas vezes o tamanho’. Isto dá-me muita satisfação. Quando vemos as pessoas entrar dentro do escritório … sem esperança que a gente resolva o problema e quando conseguimos resolver esse problema, dá-me satisfação. E dá-me as maiores frustrações do mundo quando não o conseguimos fazer. Se isto tudo é ter a política no ADN, então eu tenho. Mas eu também sei que consigo e conseguiria estar profissionalmente realizada noutras coisas. Não sou uma pessoa que só com a política se sente profissionalmente realizada. Porque eu sei que se estivesse a trabalhar em certas organizações nesta cidade, especialmente de caráter cívico, que me sentiria também muito realizada, porque felizmente temos muitas organizações que fazem um trabalho extraordinário aqui na cidade.”

Eu sentia que estávamos naquela altura de aproveitar este potencial, porque estava
tanta coisa a acontecer e tínhamos
que aproveitar este potencial
para tirar o melhor para a comunidade.

RA – Por que decidiu concorrer em 2010 para o cargo de vereadora municipal em representação do Bairro 18?
AB“Porque gostava muito do trabalho que tinha feito quando trabalhava com o vereador Mário Silva. E sempre ficou aquele bichinho. Realmente, gostei muito daquele trabalho. E depois, em 2010, achei que a comunidade estava muito dividida. A comunidade de Davenport é uma comunidade que está em transição, que tem pessoas que moram naquela área há 30-40 anos; depois, estão muitos jovens e famílias novas a vir para a área, e estava um conflito, uma tensão muito grande por causa de certos assuntos. E eu achava que aquilo era porque não estava a ser gerido bem. Então, sendo eu uma pessoa que tinha morado na área há muitos anos, que percebia muito bem, acho eu, muita gente da área, porque é a minha gente, da minha comunidade, mas que ao mesmo tempo era também eu uma jovem que tinha muito dos mesmos anseios e desejos de muitos dos jovens e das famílias jovens que estão a morar (lá), que talvez eu conseguisse trazer a comunidade e gerir esta mudança toda que está a acontecer de uma forma que beneficiasse a comunidade em geral. É isso que eu tento sempre fazer.
Nós temos grandes projetos para a área – na esquina da Bloor e Dufferin, na Galeria, são grandes projetos que vai adicionar milhares de moradores para a nossa área. E tudo isto, é preciso que as pessoas participem, que as pessoas estejam na reunião, que sejam feitas ouvidas, que a gente lute e batalhe pelas coisas. E isto tudo dá muito trabalho. Eu estava disposta a fazer esse trabalho, a envolver as pessoas e trazer a comunidade, para nós gerirmos toda essa mudança. Então, eu acho que poderia contribuir algo e foi isso que me levou a concorrer em 2010. Eu via que a área estava naquele momento que poderia dar o salto e ficar cada vez melhor e que não estava a ser aproveitado. O potencial desta comunidade não estava a ser aproveitado.

Quando eu abro, por exemplo, este mês, na Toronto Life: ‘The newest hottest neighborhood is the Junction Triangle’, que é uma das comunidades que eu tenho na minha área, que eu tenho feito muito trabalho ali. Conseguimos um centro comunitário novo, uma biblioteca nova, temos feito imenso trabalho. Quando eu abro e eles consideram: «the hottest next new neighborhood in the all GTA», orgulha-me. Porque eu sei que nós trabalhámos com muitos moradores, com muitas organizações e com a associação de comerciantes; eu sentia que estávamos naquela altura de aproveitar este potencial, porque estava tanta coisa a acontecer e tínhamos que aproveitar este potencial para tirar o melhor para a comunidade.”

RA – Teve o apoio imediato da família e dos amigos para avançar?
AB“Ao princípio, em 2010, estava ainda no ‘vou, não vou’. Somos novos e eu tinha ainda comprado a casa há pouco tempo. E eu, assim: ‘não sei, faço, não faço, o que é que vou fazer’. E houve duas pessoas que … me deram aquele apoio, aquele empurrão que diz ‘vai em frente’. Uma, obviamente, foi o meu pai. Eu falei com os meus pais. Mas o meu pai disse: ‘Ó filha, estamos cá para o que der e vier’. ‘Portanto, vai em frente, não te preocupes, que estamos cá’. E outra pessoa foi, sem dúvida, o Jack Prazeres que disse: ‘Tens que fazer, tem que ser, e cá estamos para o que der e vier’. E depois, felizmente, tenho um grupo muito forte de amizades que me apoiam, pessoas que já há mais de 20 anos que estão comigo. Pessoas como a Paula Oliveira que não estão comigo por causa da política, que estão comigo porque acreditam no que eu faço e porque é amizade. E eu tento sempre rodear-me de pessoas assim, porque eu acho que nós, especialmente neste mundo da política, a primeira coisa é de estarmos cientes que nós não conseguimos estas coisas sozinhos. A política requer um grupo muito grande de apoio. E a segunda, é que é preciso termos pessoas que acreditem mesmo em nós e que não estejam só ao nosso lado porque hoje estamos aqui na política, mas que estejam lá. Hoje estamos na política, amanhã podemos estar noutro lado qualquer, mas que acreditem no nosso potencial. E eu tenho uma sorte imensa de estar rodeada de pessoas amigas. Como se vê nas minhas campanhas, eu tenho muita gente da política, mas tenho principalmente os meus amigos. E as pessoas estão lá e fazem o trabalho porque já o têm vindo a fazer há muitos anos e porque acreditam na equipa e acreditam no meu trabalho.”

RA – Como descreve a sua relação pessoal e política durante a presidência de Rob Ford?
AB“Ele era uma pessoa muito tímida. Eu tive muito poucas conversas. Acho que nunca falei tanto com o Rob Ford como falei assim com vocês (risos); (…) Rob Ford teve o seu primeiro ano que chegou aqui e fez muitas das coisas que ele disse que queria fazer. Fez logo naqueles primeiros meses. Mas depois, começou realmente a haver um clima de grande tensão aqui na Câmara e, ao fim, a grande maioria da Assembleia retirou os poderes ao Rob Ford, porque estava a se tornar … era quase impossível … nós queríamos trabalhar e queríamos nos focar nos pontos que eram precisos aqui, mas toda a atenção da comunicação social era só virada para aqueles assuntos (…). E havia tanto trabalho para se fazer aqui na cidade que era uma frustração muito grande para todos nós. Porque, realmente, nós precisávamos era de estar a focar no trabalho que era feito e o Rob Ford precisava de se focar nele (…). Tirar tempo para si, de focar e de refletir e de tratar de todos aqueles ‘demónios’ que tinha consigo. Eu apenas talvez gostasse que ele tivesse, se calhar, tirado um bocadinho mais de tempo para tratar daquilo tudo, porque eu acho que teria estado melhor consigo próprio.”

RA – Embora tenha sido um mandato com momentos conturbados, o que retém de melhor das políticas municipais de Ford?
AB“Uma coisa que ele incutiu em toda a burocracia e em todos nós, quando entrou aqui, foi esta necessidade de tentar fazer com que a cidade fizesse as coisas mais eficientemente. Que nunca estivéssemos satisfeitos com as respostas que estávamos a ter: ‘Será que isto pode ser feito mais barato e de forma diferente? – acho que essa atitude foi talvez a atitude, do lado positivo, que ele tivesse tido deixado alguma marca aqui. Acho que essa seja talvez a mais significativa. Os trabalhadores sentiam, nós estávamos a ver as pessoas a fazer um esforço, porque sabiam que aquilo era realmente uma coisa …; e, portanto, essa grande mudança de atitude acho que é significativa.”

RA – Entretanto, John Tory assume a presidência, coincidindo, digamos assim, com um período de maior protagonismo político da Ana. Há aqui alguma correlação?
AB “Tanto nas eleições em 2010, como em 2014, nunca me envolvi em apoiar candidatos para presidente da Câmara. Fiz a minha campanha. E sempre disse que trabalharia com o candidato que ganhasse. E foi o que eu fiz. Tanto Rob Ford como John Tory me nomearam como presidente da Comissão de Habitação, portanto, não houve diferença (…). Este presidente convidou-me para estar no executivo e eu aceitei. Na altura, quando foi o primeiro mandato, achei que não deveria estar no executivo. Achei que era cedo e as linhas não seriam, talvez, tão idênticas. Havia mais pontos de discordância no mandato do Ford. Neste presidente, há coisas que eu tenho concordado com ele, há outras que eu não tenho. Não estamos cem por cento sempre de acordo. Mas o que este presidente da Câmara conseguiu fazer foi quebrar esta tensão muito grande que havia, trazer os ânimos para baixo, unir mais a Assembleia e todos os vereadores. Ele tem sido um presidente da Câmara que, assim como tem trabalhado comigo, também tem trabalhado com muitos outros vereadores, da esquerda e da direita, porque nós aqui na Câmara … embora todas as pessoas saibam que temos tendências políticas, não temos partidos políticos, oficialmente. Portanto, o presidente da Câmara para poder passar qualquer coisa precisa de 23 votos. E ao precisar de 23 votos, tem que trabalhar com várias pessoas. E ele tem conseguido fazer isso. E acho que isso é importante.

Ao mesmo tempo, eu também tenho amadurecido como política, tenho cada vez mais trabalhado nas pastas que me têm sido dadas. E a pasta da Habitação é uma pasta que este presidente identificou como prioritária para ele. E felizmente, e ainda bem que o fez (…); os três maiores assuntos na cidade são o trânsito, a habitação e os trabalhos. Nós temos que ter uma cidade que continue a atrair investimento e continue a criar trabalho. Mas a Habitação e o Trânsito são duas áreas que ele apostou bastante. E, obviamente, isso aproximou-nos um bocadinho mais, para trabalhar cada vez mais próximo. E ele tem sido um presidente que não tem poupado esforços alguns para esta batalha. Quando eu lhe digo que é preciso reivindicar junto do governo provincial ou federal, nós temo-lo feito, ele dá a cara, ele luta; quando é preciso aumentar orçamentos aqui na Câmara para certas coisas da Habitação, ele tem feito isso. E, portanto, obviamente, cria uma parceria porque acreditamos no que estamos a fazer. Vemos que os nossos objetivos estão a ser alcançados mutuamente.”

RA – Na sua opinião, o município de Toronto está no caminho certo no que diz respeito a questões como a burocracia, transporte público, habitação e redução da pobreza?
AB “No caminho certo, está. Precisa é de se apressar a andar o caminho (risos). Precisa de correr um bocadinho mais. Acho que ainda está a andar a passos vagarosos. E eu acho que nós temos que começar a correr, porque a cidade está a crescer muito rapidamente. Vamos receber mais 450 mil habitantes nos próximos 20 anos. Nós temos problemas e assuntos que não eram tratados há décadas. Estivemos décadas sem construir qualquer trânsito aqui nesta cidade. Estivemos décadas sem haver um investimento sério na habitação. Nós temos as pressões do mercado da habitação e tudo isto precisa dos três níveis de governo a atuarem rapidamente nestas áreas.”

RA – É a presidente da Comissão de Habitação Social – uma das pastas prioritárias deste governo local. Pode enumerar algumas das principais medidas implementadas neste contexto e o que os munícipes podem esperar nos próximos tempos?
AB“A cidade tem um plano de criar mil unidades de arrendamento por ano. Este ano, vai ser o primeiro ano que finalmente conseguimos alcançar esse objetivo. E isto vem através de termos feito algumas iniciativas. Começámos a pôr terrenos da Câmara à disposição para criar fogos de habitação a preços acessíveis. Fizemos também um programa que dá incentivo a organizações sem fins lucrativos e a empreiteiros para construção de prédios não lucrativos. Foi um investimento de 255 milhões de dólares, em cinco anos, e isso foi tudo feito através desse projeto de habitação. Criámos também não só habitação acessível, mas o que nós chamamos de “supportive housing” (habitação de apoio). Por exemplo, nós criámos uma casa com uma organização – a Covenant House – para vítimas de tráfico humano. Estávamos a ver um índice de tráfico humano a aumentar aqui na nossa cidade e não havia um espaço em que as vítimas pudessem se sentir seguras para saírem desses sítios. Então, foi criado. Pela primeira vez, também criámos um sistema de habitação de apoio para jovens da comunidade LGBTQ. Também aumentámos dois centros drop-in de apoio a mulheres. Portanto, tudo isto têm sido iniciativas que não é só na habitação acessível, mas é no que nós chamamos de “housing continuum”. Quando falamos em “housing” (habitação) não é só habitação social. Nós temos abrigos, habitação de apoio, temos habitação social, temos habitação com rendas a preço acessível. E depois temos rendas de mercado. E em todas estas áreas, nós precisamos de ter iniciativas que estamos a tomar ação. Tem sido esse o trabalho principal. Nós não estamos só a focar-nos numa área, como por exemplo o da habitação social – que temos feito um investimento de quase mil milhões de dólares, ao fim deste ano vai ser de mil milhões de dólares.

No ano passado, o orçamento (operacional) deu o maior aumento ao Toronto Community Housing – 18 por cento. Nunca tinham tido este tipo de aumento. E todos estes programas que tenho vindo a dizer, para criar novos fogos habitacionais com rendas de preço acessível. Mas também estamos a fazer na habitação de apoio e abrigos. E mesmo na área de habitação de mercado estamos a tomar novas iniciativas. Estamos a falar de um “vacant house tax” (imposto sobre casas desabitadas). Sabemos que há milhares de habitações que foram compradas e que estão hoje vazias e, portanto, nós precisamos que essas habitações venham para o mercado de arrendamento ou mesmo para o mercado de venda. Mas que entrem, para que possam ser a casa de alguém, que não estejam fechadas. E, portanto, estamos a criar este imposto para ver se conseguimos incentivar isso.

Estamos a criar regulamento também para o Airbnb, porque também sabemos, uma vez mais, que estão milhares de apartamentos que deveriam ter sido para arrendamento ou para compra e venda e que estão hoje só no Airbnb. E estamos a criar regulamentos para que isso não aconteça, para que as pessoas continuem e possam arrendar em Airbnb, mas que não seja uma forma só de investimento. Que não haja investidores que comprem 20-30 ou 40 apartamentos e que estão ali só para Airbnb, porque isto faz com que todos os preços comecem a subir. Se eles compram 20 ou 30, são menos 20-30 que estão no mercado para as pessoas poderem andar a competir. E isto tudo tem um impacto nos preços. Portanto, todas essas iniciativas têm sido iniciativas que nós temos estado a tomar para tentar controlar o mercado habitacional.

Felizmente, este assunto também tem recebido a atenção do governo provincial e do governo federal. Tanto um como o outro têm tomado ações e têm tido iniciativas também para fazer a mesma coisa. Porque este é um assunto que nos afeta a todos. Há coisas que nós não podemos fazer – as taxas de juro, nós não podemos fazer, só o governo federal é que pode afetar isso. Uma estratégia nacional de habitação, como vai ser lançada no mês que vem, não somos nós que podemos fazer. Só o governo federal é que pode fazer isso. A taxa para os investidores estrangeiros, só o governo provincial é que podia fazer. E já o fez. Portanto, cada um está a tentar fazer a sua parte. O que é bom. E o que é bom, também, é haver este diálogo, como tem havido ultimamente entre os três níveis de governo nesta pasta.”

Hoje, eu percebo muito bem quando me diziam que nós
conseguimos amar dois países e
conseguimos amar duas culturas, porque é assim que eu me sinto.

RA – Outro plano que também envolve a participação dos três níveis de governo é o SmartTrack de John Tory. Pode, num resumo, explicar este plano à comunidade?
AB“Nós tínhamos as linhas de caminho de ferro. O governo provincial lançou um projeto que é o RER (Regional Express Rail) – para a eletrificação das linhas de ferro e ter comboios que circulam de 15 em 15 minutos, durante o dia, nestas linhas. Portanto, a linha que vai para Barrie, a linha que vai para Kitchener, a linha que vai para Stouffville, portanto, todas estas linhas vão ter comboios de 15 em 15 minutos. O presidente da Câmara concorreu nas últimas eleições com um projeto que é o SmartTrack. E o que é o SmartTrack? É fazer com que na linha de Kitchener e Stouffville – que faz um “U” à volta da cidade – a Câmara faça mais investimentos nessa linha e que esse serviço que era para ser de 15 em 15 minutos e ter apenas algumas estações, vai ter mais estações, vai ter mais 6 estações que a Câmara vai pagar e vai ter comboios de 7 em 7 minutos e a preço (tarifa) da TTC (…).”

RA – E ao nível de financiamento municipal, quais as ferramentas que a Câmara vai usar?
AB“As únicas ferramentas que temos – o imposto municipal sobre os imóveis.”

RA – Foi nomeada vice-presidente de Toronto. Foi uma festa dentro da comunidade. Esperava isso?
AB“Esperar, esperar, a gente nunca espera. Certezas, certezas, também nunca se tem na política. Gostava? Claro que gostava! Acho que tenho alguma coisa para oferecer. Fiquei extremamente satisfeita e honrada e lisonjeada de o presidente me ter escolhido. Ele poderia ter escolhido qualquer pessoa da área de Toronto e obviamente que fiquei satisfeita de ele ter reconhecido o trabalho que temos feito. Acho que foi um reconhecimento do trabalho que temos feito. E acho que foi um reconhecimento da nossa parceria.”

RA – O futuro a Deus pertence, mas que tipo de ambições políticas a Ana tem?
AB“Ser reeleita em 2018 (risos). Ter mais quatro anos de mandato.”

RA – Tirando o facto de a Ana estar tão empenhada nesta sua dedicação ao poder local, que outros projetos gostaria de concretizar?
AB[uma pausa] – “É assim. Eu acho que os meus projetos estão muito interligados uns com os outros, e com o nível político, com o que eu faço e com a municipalidade. Eu tento sempre envolver jovens naquilo que eu faço. Gosto muito de ligar pessoas e de criar oportunidades para pessoas, especialmente jovens. Não sei se foi porque senti que isso talvez me acontecesse a mim, que tento sempre me rodear de jovens. Felizmente eu tenho vários jovens a trabalhar comigo e jovens que vêm fazer estágios no meu escritório e jovens que se querem envolver. E isso dá-me muito gozo. É algo que eu quero continuar a fazer, vá para onde vá, é uma coisa que eu quero continuar a fazer. É promover este envolvimento de cada vez mais jovens na vida cívica e política desta cidade.”

RA – No meio de tudo isto, sobra algum tempo para a Ana dedicar a si própria?
AB “Pouquinho. Mas ainda sobra um bocadinho. Sobra um bocadinho para passar algumas férias com a família. Para dar umas corridas de vez em quando. Para ir ao cinema de vez em quando. E para estar com os amigos … sem falar de política. Sabe tão bem!”

RA – E Portugal, como é que fica a relação entre vós?
AB“Fica muito bem. Portugal é um país lindíssimo e tem uma cultura fabulosa e oportunidades muito grandes no futuro. E acho que está a atravessar uma etapa interessante. Eu espero que consiga agarrar algumas oportunidades que podem surgir. Tem também desafios muito grandes pela frente. E eu espero que consiga tornar esses desafios em grandes oportunidades. Gosto imenso de ir lá sempre matar as saudades. Eu lembro-me que quando eu vim para o Canadá e fui a Portugal a primeira vez, as pessoas perguntavam-me do que é que eu tinha mais saudades. E eu dizia: ‘Do brilho do sol’. E disso ainda hoje continuo a ter saudades, do brilho daquele sol. Hoje, eu percebo muito bem quando me diziam que nós conseguimos amar dois países e conseguimos amar duas culturas, porque é assim que eu me sinto.”

RA – No início da entrevista, a Ana disse que lhe deu uma “dor de barriga” antes de vir para o Canadá. Se fosse hoje, voltava a ter essa “dor de barriga”?
AB[responde convictamente] – “Não. Acho que também toda essa experiência me abriu muito mais. Se eu hoje tivesse que sair do Canadá e voltar para Portugal, porque tinha um projeto qualquer interessante, também o faria, ou se tivesse que estar noutra parte do mundo; hoje o mundo também é muito mais pequeno. Nós hoje estamos em contacto com as nossas pessoas queridas, muito mais facilmente. Em 1991, ainda escrevia cartas para as minhas amigas, à mão! (risos). Hoje em dia, quem é que escreve cartas à mão?! Ninguém. E demorava quase uma semana a chegar cá as cartas. Imagina o que é não saber o que é que se passava na escola durante uma semana inteira. Naquela altura era devastador. Mas hoje em dia, o mundo está muito mais pequenino e nós conseguimos estar muito mais perto uns dos outros, mesmo embora a distância física seja grande. E há um entendimento muito maior. E, portanto, eu acho que hoje já se torna muito mais fácil.”

 

 

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