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O rei do fado e o seu reinado

As ruas estreitas e de acentuadas ladeiras formam o quadro colorido por suas casas tipicamente lisboetas, decoradas não apenas pelas cores mágicas a encher os olhos dos admiradores da arquitetura histórica, mas também pela alma musical que reveste o tradicional bairro português que viu nascer nada menos do que o fado, um forte símbolo da nação, que encanta deleitosamente aos ouvidos daqueles que se lançam à envolvente viagem de tamanha sensibilidade.

Foi, na verdade, o nascedouro de um reinado, como é peculiar às memórias do próprio país, e como tal, teve o seu rei, ou o conhecido “rei do fado”, Fernando Maurício (1933-2003), que ali nasceu e viveu à Rua do Capelão, a criança que faria indiscutível sucesso ao longo da vida. Ele não tinha uma coroa e um cetro, e nem os desejou, ainda que simbolicamente; é exatamente assim retratado no Museu Casa Fernando Maurício, no local, ao pé da guitarra de concreto que homenageia e eterniza o bairro da Mouraria e seus filhos prediletos.
De vida simples, amigo de muitos amigos, o boémio natural — se assim for permitido perceber por força dos hábitos na sua profissão de cantor — soltava a voz desde muito cedo, e tanto zelou pelo ganha-pão ao trabalhar com a manufatura de calçados quanto cantava em associações à época. Participou do concurso “João Maria dos Anjos”, aos treze anos, alcançando o terceiro lugar, que lhe abriu as portas para o porvir de tantos triunfos que registariam de vez a sua assinatura sonora. E o tempo lhe foi favorável, cujo reconhecimento chegou-lhe, por exemplo, com a Medalha da Cidade, a comenda de Bem-Fazer da Presidência da República e o prêmio Melhor Fadista, em 1969. Foi um emblema do Fado Castiço (genuíno, de boa casta), e não lhe agradava o ‘fado com verniz e champanhe’, a pureza estava a correr pelas veias.

O “artista do povo” (uma auto-intitulação), deixou a importante impressão “o fado é o meu bairro”, que pode ser percebida pela força do convívio e da doce inspiração a brotar-lhe ao peito constantemente, e também pelo distanciamento que manteve de outros sítios, levando-lhe a cantar nas festas de bairro, nos pequenos eventos locais e nos restaurantes típicos, e não a lançar-se mundo a fora, qual a monumental fadista e conterrânea Amália Rodrigues (1920-1999), que fincou muitas bandeiras musicais nas muitas terras ao redor do mundo. Fernando Maurício gostava de cantar ali, nas imediações, ademais, ele tinha medo de avião e de outros meios de transporte, ficou onde quis, e fez o que percebeu ser o certo para si.
E as músicas? Títulos como Igreja de Santo Estevão, O menino que não fui, Biografia do Fado, Escrevi teu nome no vento, Alfama, Como é bom ser pequenino, Bairro eterno, dentre outras, lindíssimas, mas vale a pena perguntar: não é para pensar e principalmente sentir ao inebriar-se com ‘Boa noite solidão’? Ah! Boa noite solidão é uma conversa às profundezas da alma, o contacto direto entre o fadista e o vazio solitário, uma poesia cantada, no fundo, para si mesmo, diante da distância da sua amada, num gesto humano que se submete a tal penúria, ao fazer inicialmente um convite de boas-vindas à solidão que chega no escuro da noite, e, após alguns momentos de resignação e até cortesia, os pedidos se encaminham, pouco a pouco, para uma despedida: Boa noite solidão que vem, e que vai, pois o desejo maior é o de finalmente sonhar com ela…
Que sonho adocicado pelas notas! Eis uma biografia sem par, com lembranças igualmente incomuns, cujo tempo é capaz de parar mesmo que tão somente por instantes, a duração da música que conta sobre sentimentos a tocar o coração da história de muita gente, os súditos de sua majestade, eis, portanto, os passos musicais dados pelo rei do fado em seu reinado. Viva o rei!

Imagens: Direitos Reservados

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