Sociedade

Desarmem-me. Pelos que amam a vida…

 

Para que serve uma escola? Formar seres humanos, transformando-os em cidadãos mais esclarecidos, educados e com mais respeito pelos outros e por si próprios. Esta é, deve ser, a mais nobre missão do sistema de ensino de qualquer país. Mais do que um local onde se armazena saber, a escola tem que ser um espelho da sociedade que desejamos construir – mais justa e mais fiel aos valores da democracia e da tolerância.

A sequência assustadora de massacres ocorridos em escolas dos Estados Unidos – 18 só neste ano de 2018 (que ainda agora começou…) – deixa-nos perante uma terrível evidência: a escola já não é um lugar seguro.
O assunto não é novo. É, aliás, tema de discussão e até, podemos dizer, profunda divisão entre a opinião pública norte-americana: serão as armas demasiado acessíveis e, consequentemente, um incentivo à sua posse e uso? Por um lado, temos a poderosa indústria de armamento e todos os que a apoiam, a defenderem as vantagens de qualquer cidadão andar sempre armado, como se de cowboys nos tratássemos. Por outro, temos quem alerte para o perigo de qualquer pessoa, com um desequilíbrio mental evidente, poder, com toda a facilidade, montar um verdadeiro arsenal na cave lá de casa.

Escrevi o adjetivo “poderosa” quando referi a indústria de armamento e não foi por acaso. São conhecidas, porque foram denunciadas em várias ocasiões, as ligações que, ao longo dos tempos, se foram construindo numa verdadeira teia de interesses político-económicos. De tal modo assim é que nunca uma administração norte-americana conseguiu regular a venda de armas, tornando-a mais segura e prudente.

Donald Trump – o atual Presidente dos Estados Unidos da América – continua empenhado em tornar o seu país “great again” e já anunciou que, na sua opinião, a solução passa por armar os professores. Será mesmo, Mr. Trump? Combater a violência com violência?
A escola secundária de Marjorie Stoneman Douglas foi o palco da mais recente desgraça. Foram 17 mortos, vários feridos e muitos outros marcados para sempre com os gritos de dor e pânico a vincarem-lhes os dias e as noites. A vida nunca mais será igual. Falta o professor que morreu de forma heróica protegendo, com o seu corpo, os seus alunos. Falta o colega com quem se brincava na hora do recreio, falta a escola como porto seguro. Faltou os que amam a vida responderem aos gritos de alerta de quem planeou a morte de outros – Desarmem-me.

Não tem faltado, no entanto, bom senso a todos os jovens que têm levantado a sua voz para mostrar a indignação perante a aparente passividade de quem tem o poder de ajudar a mudar o estado das coisas. De forma clara, os jovens estudantes sobreviventes, mostram ao país que não aceitam que a solução seja apenas abanar os ombros e lamentar. Primeiro de forma espontânea e quase catártica, mas agora com um cariz mais organizado, lideram um movimento que parece não querer parar. No próximo dia 24 de março, em Washington D.C., acontecerá uma marcha pacífica, exigindo ações concretas para prevenir a violência com armas. Conseguiram, entre outros, um apoio de peso – Jimmy Fallon anunciou recentemente que estará presente, com a mulher e os seus dois filhos.
No dia 24 de março, Washington vai mostrar que os jovens que hoje ainda não têm direito a voto, são os adultos do futuro. E que não se resignam e que se juntam para que não aconteça mais do mesmo.

De massacre em massacre, choram-se os mortos, lamenta-se a dor dos familiares e reza-se por alma de quem partiu, cravejado de balas – vítimas indefesas de uma qualquer loucura, inexplicável e sem perdão. Mas os dias passam, outras notícias se sobrepõem e rapidamente se encarregam de apagar os holofotes sobre as mortes de dezenas de crianças, professores e funcionários, que só cometeram o crime de estar naquela hora, naquele dia, numa escola a tentar construir uma sociedade melhor.

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