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Quem esteve na gestão das instituições sabe o que custa

 

Quem esteve na gestão das instituições sabe o que custa

O bispo de Santarém, D. José Traquina, em entrevista ao Público (Lurdes Ferreira) e Rádio Renascença (Eunice Lourenço), denotou uma lucidez, algo rara nos dias que correm, na análise aos temas que lhe foram propostos.
Destaco a radiografia que fez às instituições de solidariedade social, apontando dificuldades e oportunidades. A minha experiência, de quase 17 anos, neste setor permite-me afirmar, sem quaisquer constrangimentos, que o retrato que fez do setor e, algo fundamental do ponto de vista estratégico, da relação com a tutela denotam um conhecimento profundo das matérias e uma coragem que aplaudo: “Vem um ministro que cuida por cantinas sociais e pede às instituições que peguem naquela valência; muda-se o ministro, acaba-se essa proposta. E aos empregados que se colocaram, o que se faz? “

Posso dar alguns exemplos que sistematizam esta afirmação. Durante décadas, as instituições de solidariedade social, apoiaram, através da resposta social Centro de Atividades de Tempos Livres, milhares de famílias cujos filhos só tinham escola, no 1.º Ciclo do Ensino Básico, no período da manhã ou da tarde. No período não assegurado pela escola, as crianças frequentavam o CATL, onde usufruíam de acompanhamento escolar, atividades de enriquecimento curricular e alimentação (pequeno almoço/lanche e almoço). Sem pré-aviso, sem negociação, sem respeito institucional descartaram-se as instituições, sem qualquer preocupação com as pessoas que nelas trabalhavam, nem com a sua sustentabilidade financeira. Ontem eras imprescindível, hoje nem te falamos… O ensino pré-escolar parece estar em risco de sofrer o mesmo processo de erosão…

Por vezes, em conversas com colegas do setor, ficamos com a sensação que há um plano, mais ou menos oculto, de desmantelamento do setor ou, eventualmente, de deslocalização do peso das organizações. Estaremos atentos à recém-criada Confederação da Economia Social Portuguesa (CESP). Os associados da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) votaram favoravelmente, sem que houvesse, a meu ver, informação suficiente, a adesão à CESP. Que venha por bem, estaremos atentos!
Para dar mais dois exemplos recentes, as Obras Sociais do Pessoal da CM e SM de Viseu, são a entidade coordenadora de dois projetos, no âmbito do Programa Operacional de Inclusão Socias e Emprego (POISE): Contrato Local de Desenvolvimento Social – CLDS 3G Viseu Igual – e Rede Local de Intervenção Social (RLIS) – Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS). A pouco mais de um ano do seu términus, não temos qualquer informação quanto a sua (des) continuidade. Não sabemos o que dizer às pessoas que beneficiam da nossa intervenção, nem aos 10 profissionais que se dedicam a estes projetos a tempo inteiro.

Porque me identifico com boa parte do que disse D. José Traquina, passo a transcrever os trechos que considero mais significativos:
“Como é que as nossas instituições de solidariedade que prestam atenção e cuidado às pessoas – tendo as pessoas menos rendimentos – para poder colaborar e sendo instituições que conseguem garantir emprego – se vão assegurar no futuro?”
“A certa altura (as instituições de solidariedade social) foram aliciadas a criar valências para servir as populações. Mas depois mudam-se as regras e as instituições ficam com funcionários seus sem conseguir corresponder.”

“Há instituições com muita dificuldade em resolver o seu problema económico, porque as instituições não estavam preparadas para se tornarem “empresas”.”
“Na infância, apoiaram-se centros sociais paroquiais para terem creche e jardim-de-infância. A seguir o Estado constrói um jardim-de-infância ao lado. A certa altura, não se justifica a infra-estrutura. Mas fica a educadora de infância que não tem o ordenado mínimo, mas que precisa de crianças para educar. Então despede-se com indemnização, justa com certeza. Isso leva a instituição a uma situação complicada de gerir. Quem esteve na gestão das instituições sabe o que custa.”
“Quase todas as instituições são geridas por voluntários que ganham coisa nenhuma. Estão ali de corpo inteiro, não recebem, mas às vezes não são considerados. Nem todos funcionaram bem. É natural.”

“Existem dois tipos de dificuldade: um deles é a mudança de política, a outra é a dificuldade de gestão de pessoas menos habilitadas para os cargos. Pode acontecer.”
Escrevo este texto, no domingo de Páscoa, tempo de reflexão, renovação, recomeço; tempo de esperança. O mote está dado! Obrigado D. José Traquina!

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