Música

Sérgio Godinho – Um despertar tão necessário para esta Nação apagada

 

Sérgio Godinho

Um despertar tão necessário para esta Nação apagada

Sérgio Godinho nasceu em 1945, no Porto. Com apenas 20 anos de idade, partiu para o estrangeiro. Primeiro destino: Suíça, onde estudou Psicologia durante dois anos. Mais tarde, mudou-se para França. Viveu o maio de 68 na capital francesa. No ano seguinte, integrou a produção francesa do musical “Hair”, onde se manteve por dois anos. Em Paris, privou com outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário Branco. Sérgio Godinho ensaiava então as suas primeiras composições, na altura em francês. Em 1972, Sérgio apresentou um novo álbum, Pré-histórias, que inclui um dos temas mais emblemáticos da sua carreira: A noite passada. Colaborou como letrista no álbum Margem de certa maneira, de José Mário Branco.

Em 1973, mudou-se e conheceu todo o Canadá numa carrinha, onde casou com Shila, colega na companhia de teatro The Living Theatre. Integrou a Companhia de Teatro Génesis. Estabeleceu-se numa comunidade hippie em Vancouver, e foi aí que recebeu a notícia da Revolução do 25 de Abril, que o levou a regressar a Portugal. Já em terras lusitanas, editou o álbum À Queima-Roupa (1974) um sucesso que o fez correr o país, atuando em manifestações populares, frequentes no pós-25 de Abril. Havendo regressado a Portugal após a revolução democrática do 25 de Abril de 1974, Sérgio Godinho tornou-se autor de algumas das canções mais unanimemente aclamadas da música portuguesa – Com um brilhozinho Nos olhos, O primeiro dia, É terça-feira, para citar apenas três. Temas que são obrigatórias no panorama da música em Portugal.

O novo disco Nação Valente traz-nos de volta ao conforto e à inquietação que Sérgio Godinho tem proporcionado ao longo da sua carreira. Mas transporta-nos ainda para territórios poéticos e musicais de alguma forma inéditos na obra do cantautor e que ilustrarão, seguramente, os seus futuros “best of” – um conjunto de temas que pode muito bem representar aquele que tem sido o “nosso” quotidiano na presente década. Sucessor do galardoado e muito aplaudido Mútuo Consentimento, Nação Valente é o 18.º álbum de estúdio, quebra os sete anos que Sérgio Godinho esteve sem gravar novas canções. Sete anos sem gravar, mas não de silêncio, nem sem editar.

Em 2013, edita Caríssimas Canções, em 2014 Liberdade Ao Vivo e em 2015, com Jorge Palma, edita Juntos, o disco que recentemente recebeu o Galardão de Ouro. Entre a música, Sérgio Godinho apropria-se do sobrenome de contador de histórias e lança-se na edição, primeiro de um livro de contos, Vida Dupla (2104) seguido do seu primeiro romance, Coração Mais Que Perfeito (2015). Este é, portanto, um regresso muito desejado.

Nação Valente tem produção de Nuno Rafael, um dos seus habituais “assessores” e com a partilha na composição das canções com alguns dos nomes que Sérgio Godinho mais respeita da música nacional. Falamos de nomes como David Fonseca, Filipe Raposo, Hélder Gonçalves, Pedro da Silva Martins ou um velho companheiro, José Mário Branco. Márcia é outro dos nomes que aparece aqui, por ter o único tema no disco para o qual Sérgio Godinho faz uma versão. Nação Valente tem a ainda a colaboração do “multidisciplinar” Filipe Melo que soma à sua participação enquanto músico, os (memoráveis) arranjos para cordas e sopros.

Por inspirar e conseguir deixar-se inspirar, Sérgio Godinho pode-se fazer acompanhar da solidão no processo criativo de construção da letra, mas na música e arranjos rodeia-se de profissionais que carregam a música portuguesa atual e que aqui a elevam para lá do que seria espectável. Surpreende por isso Nação Valente, por nos transportar para o universo Godinho, mantendo uma alma mutável e renovando o corpo.

O que marca também a diferença neste álbum é a unidade, todo ele funciona como um todo, construído passo a passo a cada canção, de um jeito refrescante e com alguma surpresa, acústico. Aos 72 anos Sérgio Godinho, de pontaria cada vez mais precisa, apresenta-nos o que pode bem ser um marco na sua carreira, munido de canções emblemáticas. Nação Valente, tema que dá nome ao disco volta-se agora para um coletivo: Portugal. Ainda que saídos da crise mundial que nos virou do avesso, os problemas que assombram este país continuam. Como maldição da qual não encontramos saída facilmente, num andar para a frente com âncora de dívidas e intrigas politicas.

Que Força É Essa e Liberdade imperam numa ação contra as injustiças sociais, já Nação Valente tem uma conotação diferente. O tom é de esperança e positivismo, como uma invocação dos passados feitos para nos fazer andar pra frente. Um despertar tão necessário para esta Nação apagada.

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