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Rui Reininho – A voz dos GNR que sempre apostou na diferença

Imagens: Direitos Reservados

A voz dos GNR que sempre apostou na diferença

 

Nasceram no início da década de 80, no Porto, cidade-mãe de tantas bandas que marcaram uma profunda mudança no panorama musical português. Os GNR começaram com Alexandre Soares, Vítor Rua e Toli César Machado, mas da formação inicial apenas Toli permanece. Em 81 junta-se Rui Reininho e a partir de 1983 os GNR estabilizaram com a entrada de Jorge Romão. Figura icónica, diferente e irreverente, com uma postura em palco inconfundível, Rui Reininho é, para muitos, o grande responsável pela longevidade dos GNR.

 

 

Revista Amar – Há um momento em que os GNR mudam. Esse momento coincide com a entrada de Rui Reininho na banda. É mais ou menos pacífico para toda a gente que há um GNR antes do Reininho e um GNR depois do Reininho?
Rui Reininho – Claro. A primeira fase do grupo é uma fase praticamente sem discos em que havia dois singles na altura não é… aqueles pequenos 45 rotações e pronto. Eu tive a sorte de entrar quando o primeiro álbum do grupo sai em 1982.

Revista Amar – Ainda por cima duma forma muito curiosa porque o Rui foi entrevistar os GNR.
Rui Reininho – Pois fui. Porque eu gostava da banda, e fazia umas peças para um jornal daqui do Porto, um jornal local, que me permitia entrar à borla nos concertos. (risos) Não só nos dos GNR, mas também dos outros grupos que vinham cá na altura, os The Stranglers, música mais new wave, etc. Era fantástico ir ali ao Pavilhão Infante Sagres, ao Académico. Fui ver a Nina Hagen, esses nomes todos da altura.

Revista Amar – Isso foi uma altura absolutamente fascinante, para quem teve a oportunidade de viver os anos 80, não foi? Em Portugal em particular, foi o momento da abertura ao mundo.
Rui Reininho – Foi, foi. Exacto, começam a haver espectáculos. Curiosamente hoje os espectáculos estão um pouco mais localizados na capital do império, digamos assim, mas normalmente as bandas vinham sempre a Lisboa e Porto. Agora, por acaso, até há sítios como Guimarães e agora Braga também com pretensões a ter ali salas com dimensões para o pessoal conseguir trazer bandas internacionais. E depois há os festivais, mas na altura era muito raro. Curiosamente, nesse mesmo ano nós fomos a um grande festival e vamos outra vez este ano que é o Festival de Vilar de Mouros, que já é um histórico.

Revista Amar – Rui Reininho, não será despropositado dizer que a sua vida dava um filme e podia ter várias sequelas, porque há muita matéria (risos). De facto, a vida do Rui Reininho é muito cheia e intensa e, de certo modo, as letras escritas por si, para as músicas dos GNR, acabam por reflectir todas essas vivências.
Rui Reininho – Sim é a parte em que, digamos, eu funciono mais, mas sempre em colaboração com os meus capangas, como eu lhes chamo. Não é depreciativo, pelo contrário, tem sido uma união bastante grande, porque cada um no grupo tem a sua função. Um mais atento à composição, outro mais à organização, digamos que temos subdividido isto que, no fundo, é um negócio, é uma vida, é um fado enorme digamos assim.

Revista Amar – Mas quando eu disse há pouco que há um GNR antes e depois de Rui Reininho é exactamente por essa marca que o Rui deixou nos conteúdos das músicas dos GNR, porque marcou a diferença na altura.
Rui Reininho – Sim, creio que sim e nem sempre até, do ponto de vista comercial, mais agradável porque havia gente que achava que a fase do pop rock português que era uma coisa um bocadinho mais descartável, como uma das canções de uns colegas nossos dizia “mastiga e deita fora”. A intenção de uma certa indústria é um pouco ser isso mesmo, uma sociedade de consumo imediato e para nós é uma surpresa, trinta e tal anos depois, quase já muito perto dos quarenta, bandas até como os companheiros Xutos & Pontapés, o próprio Rui Veloso com quem ainda estive na semana passada e estivemos a comentar isso, como a gente se tem aguentado, digamos assim, porque é difícil.

Revista Amar – Houve períodos áureos e outros menos bons mas, esta fase em que vocês estão agora é uma fase de maturidade, de gente que sabe bem o que está a fazer, que já não está a experimentar.
Rui Reininho – Sim, e uma fase com muita liberdade. Nós temos uma música nova prontinha, que é uma surpresa, e vamos começar a tocá-la em Junho. Começa aqui em Portugal com dois espectáculos. E de facto quer dizer, nós agora decidimos quando é que as coisas saem, fazemos as coisas muito ao nosso ritmo, não temos nenhuma editora chamadas majors por trás, editamos por nós, fizemos o nosso próprio selo – IndieFada (risos).

Revista Amar – Essa eterna ligação à palavra, esse trabalho, esse jogo com a língua portuguesa é muito Rui Reininho. Lembro, por exemplo, o título do livro que reúne algumas das letras dos GNR, com a assinatura do Rui “As Líricas Come on & Anas”. Esse jogo de palavras sempre foi uma arte sua?
Rui Reininho – Ou não estivéssemos a falar com a revista do grupo de comunicação que também tem a Camões TV e a Camões Rádio, estamos no sitio certo (risos). Sim sempre gostei e ainda vou dar uma saltadinha a Palma de Maiorca que é para aparecer bronzeado. (risos). Os poetas podem ser bronzeados, não é? Não têm de ser tísicos ali a escrever no café. Aliás, temos aqui um vizinho ao lado deste café onde estamos, que é um dos meus poetas preferidos e costuma estar a escrever aqui numa das mesas ao lado, que é o João Luís Barreto Guimarães, um contemporâneo e um grande amigo e é muito simpático. Uma pessoa sai de casa e dá de caras com um poeta ali a escrever e depois, um dia destes, estamos a ler aquela poesia num livro que compramos.

Revista Amar – Voltando à sua história de vida. O Rui esteve ligado ao cinema… há pouco quando disse que a sua vida dava um filme, não disse, mas o Rui Reininho fez um curso de cinema. Será que podemos dizer que, no fim de contas, nas músicas dos GNR fazia pequenos argumentos? Pequenas curtas metragens?
Rui Reininho – Fiz um curso de cinema na área do som. Eu vejo um pouco assim. Ainda estivemos recentemente a ensaiar e fizeram-me essa pergunta, uma música como o Bellevue. É uma historinha, tem principio, meio e fim, não tem propriamente um happy ending, mas eu vejo as músicas um pouco como isso de facto, e como sequências. Sim é uma das maneiras que eu tenho de funcionar e de trabalhar.

Revista Amar – E qual é a fonte de inspiração? Como é que o Rui escreve? Eu sei que, normalmente, o Tóli e o Romão apresentam-lhe uma música, o Rui grava, leva a música para casa e trabalha sobre a música, não é?
Rui Reininho – A minha fonte de inspiração são vocês, a humanidade e tudo o que nos rodeia. Sim exactamente, eles passam-me umas linhas melódicas e depois compartilhamos todos e de facto, quando digamos a obra, não quero parecer pretensioso, mas quando a obra nasce é um prazer. Às vezes há coisas que não dão nada, não é… são experiências e há crises de criatividade, mesmo os meus colegas falam disso.

Revista Amar – Pode não ter sido o álbum mais brilhante dos GNR, isso é sempre discutível, mas o “Psicopátria” foi um álbum absolutamente fundamental para catapultar os GNR em termos de grandes audiências?
Rui Reininho – Foi um disco “brilhoso” (risos), pelo menos, de facto e as pessoas têm sido unânimes em considerá-lo um dos discos marcantes na sua época, 1986 creio eu.

Revista Amar – Exactamente. E esses temas de 86, eu sou suspeita não é, porque já estou naquela idade em que posso dizer “isso era do meu tempo”. Mas são músicas que se ouvem hoje e, com excepção duma ou outra, estão muito atuais.
Rui Reininho – Efetivamente (risos)… Nós vamos tocá-las. Nós tocamo-las e este espectáculo também é muito interessante porque nós vamos ter ali músicas fresquinhas, digamos dos anos 80 e 90 em que pegamos outra vez. Portanto, este espectáculo para nós também é o início duma tournézinha que vamos fazer e uma grande parte das músicas fomos buscá-las a essa época, precisamente aos 80 e aos 90, porque era como se fosse o nosso modo de vida. Nós, na altura, fazíamos mais de 100 espectáculos, começamos a fazer mais de 100 espectáculos por ano, o que é praticamente 1/3 de um ciclo, se contarmos com aqueles períodos de inverno um bocadinho mais parados.

Revista Amar – E fizeram os Coliseus, o Estádio de Alvalade, o Estádio do Dragão…
Rui Reininho – Fomos ao Canadá, fomos aos States, Macau, Paris e, curiosamente, muito a Espanha, a começar aqui pela Galiza. Aliás, estão a ver aquele farol ali ao fundo? Se subirem por ali acima vão ter à Galiza. É uma terra maravilhosa, passando por Santiago, ali ao fundo vêem se calhar muitos peregrinos que estão a caminhar. Este ano é um ano de Xacobeo como eles dizem, lá vão eles por aí a pé a caminho de Santiago.

Revista Amar – Mas voltando aos GNR de hoje, vamos contar então com novas músicas, pelo menos uma nova música?
Rui Reininho – Sim porque houve muito trabalho e de facto eu pensei, com esta provecta idade, pensei assim… “agora vou viver nas minhas 7 quintas…”, antes pelo contrário, nunca ensaiei tanto, nunca trabalhei tanto como agora. Em termos de horas por dia, por exemplo. Agora damos connosco a fazer assim 4-5 horas e mesmo as pessoas dizem-me “ é pá não ficas ali cansado?” e eu digo sim fico, fico exausto mas fico contente por ter essa motivação e gostar de me levantar e ir para os ensaios de manhã.

 

“aprendi a aceitar tudo portanto,
a perder uma certa violência,
uma certa raiva que às vezes tinha em mim;
mas eu continuo a gostar de conflito,
gosto de fricção
e acho que os processos revolucionários
também são muito importantes.
Mas gosto muito daquela paz…”

Revista Amar – Uma das fases mais difíceis da vida do Rui Reininho, se calhar grande parte dela coincidiu com essa época de muitos espectáculos, foi a fase em que teve que lutar contra a Hepatite C, viver com ela e enfrentá-la e, às vezes, ser derrotado por tratamentos que não resultavam.
Rui Reininho – Sim. É verdade, foram uns anos muito duros. Eu tenho, vou para quatro anos, a chamada cura clínica que é um alívio também para a minha cabeça. Mas eu acho que tem de se viver com essas circunstâncias, eu mudei muitos aspectos da minha vida e houve uma pessoa que uma vez me disse, “olha de certa maneira a Hepatite C se calhar salvou-te a vida porque obrigou-te a mudanças e, quer dizer, se continuasses naquela aceleração se calhar aí à noite já te tinhas espetado contra um poste ou qualquer coisa”.

Revista Amar – Era uma vida de excessos?
Rui Reininho – Exactamente. Sim havia muita coisa à disposição, os espectáculos eram a uma hora muito tardia. Hoje é diferente. Nós hoje, até os próprios camarins arrumamos de uma maneira muito mais saudável, com uns frutinhos secos não é, umas frutas secas, umas águas mais minerais e a energia do chamado planeta está ali também, não está só naqueles consumíveis chamados aceleradores.

Revista Amar – Há esse lado agora na vida do Rui Reininho, que é o lado mais espiritual. O Rui sempre se assumiu como ateu mas, de há uns tempos para cá, encontrou alguma paz de espirito. Não digo que seja budista, mas…
Rui Reininho – Exactamente, descobrindo outras filosofias de vida e visitando esses países. A minha mais recente viagem foi ir ver as deusas lá em cima. Eles chamam-lhe as deusas, ver aquelas montanhas fantásticas nos Himalaias, ver aquelas montanhas brancas. Acordar de manhã muito cedo, às 5h-6h da manhã, uma pessoa abrir a janela e ver um pico de mais de 8000 e tal metros, o Annapurna e, ao longe ali ao fundo, ainda se vê o Machapuchare não é, é fantástico.

Revista Amar – Mas o que é que procura lá?
Rui Reininho – As pessoas e aquela vibração. As pessoas são fantásticas de disponibilidade, são como as antigas aldeias portuguesas, passam por nós, desde as crianças aos velhinhos, e vivem no meio de nada e passam por ti e dizem-te Namastê, com um sorriso. Há gente que ainda é tão pobre que oferece água quente, porque nem folhinhas de chá tem e estão ali sorridentes, estão a aceitar, tudo é karma, tudo é bom. E segundo eles dizem, os que estão lá a orar, aqueles monges fantásticos com aquele sorriso, têm também o seu smartphone, gostam de relógios de marca, bons ténis e dizem aceitamos tudo, aceitamos tanto um Bentley, como um cházinho. Se me derem uma coisa, eu também usufruo das coisas, aceitar tudo. E eu aprendi a aceitar tudo portanto, a perder uma certa violência, uma certa raiva que às vezes tinha em mim; mas eu continuo a gostar de conflito, gosto de fricção e acho que os processos revolucionários também são muito importantes. Mas gosto muito daquela paz… inclusive, já comecei a gravar os meus gongos tibetanos, aquelas coisas todas, fico encantado. E é uma maneira de eu limpar a cabeça dos milhares de watts que já entraram por um lado e saíram pelo outro e andaram aqui nesta cabeça às voltas.

Revista Amar – Ainda continua a temer e a tremer antes de entrar no palco?
Rui Reininho – Sim, felizmente. Eu gosto muito daquela vibração. Gosto e ficamos todos minimamente nervosos, senão era uma coisa assim muito indiferente, não é.

Revista Amar – Também é sinal da responsabilidade que sentem.
Rui Reininho – Isso, exactamente. E se fosse assim na vida das pessoas… eu acho que também é importante uma pessoa ainda ter um certo nervosismo ao chegar a casa e estar com pessoas que gostam não é, quando se vai jantar com uma pessoa de quem se gosta, uma pessoa ter aquelas borboletas… senão se for assim uma coisa indiferente… a indiferença mata tudo.

Revista Amar – A postura do Rui Reininho em palco nunca deixou ninguém indiferente, foi sempre muito marcante.
Rui Reininho – E agora muito mais cuidadosa. Eu concordo que estou mais afinadinho (risos), porque creio que por vezes disparatava muito, as pessoas viam-se naquela energia. Mas agora tenho preocupações qualitativas, as aparelhagens são melhores também.

“… hoje sou menos fósforo e mais uma vela”

Revista Amar – E tem outra consciência da responsabilidade que tem?
Rui Reininho – Sim do que é um espectáculo. Curiosamente, faço espectáculos muito mais longos e torna-se menos cansativo, digamos que hoje sou menos fósforo e mais uma vela. (risos)

Revista Amar – Olha que bonito. É muito bonito. E se calhar é com esta imagem que vamos terminar a conversa.
Rui Reininho – Não sem antes mandar um grande, grande abraço e muitos beijinhos para os portugueses que vivem no Canadá. Muito obrigado e até breve.

 

Entrevista para a Camões TV conduzida por Madalena Balça / Transcrição: Paulo Perdiz

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