MigraçãoSolidariedade

Imagens que nos comoveram. E depois?

Donald Trump recuou na separação de pais e filhos migrantes na fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas vai continuar a promover a sua política de tolerância zero. Na Europa, encontrará alguns governos que concordam com as suas práticas. É preciso, pois, criar zonas de pressão para interromper certas barbáries, infligidas a pessoas completamente indefesas. Neste caso, as imagens reúnem sempre uma força colossal. Necessitamos de as pôr a circular. Rapidamente e em força.

Por estes dias, paralisámos, novamente, diante de fotografias de crianças em sofrimento. Desta vez, não tivemos qualquer réplica da fatídica foto de Aylan Kurdi, o menino sírio-curdo de três anos que, a 2 setembro de 2015, morreu numa das praias da Turquia a tentar fugir do seu país. Agora as imagens serão mais prosaicas. Mostram-nos rostos de crianças. Algumas em choro compulsivo, outras silenciosamente apavoradas. Todavia, não é necessário revelar estados de alma para nos imobilizarmos diante delas. Basta saber que esses pequeninos foram brutalmente arrancados do colo de seus pais. Os factos são atuais e estão a acontecer algures na fronteira dos EUA com o México onde gente fardada, com armas e luvas (!) está a deter migrantes que procuram entrar em território americano. Somam-se já duas mil crianças nessa situação.

As imagens vão chegando em permanência. Há crianças presas em estruturas que mais parecem jaulas, outras sentadas no chão a chorar quando se veem arrancadas de seus pais, outras ainda com olhar assustado ao lado de homens armados. Abala. Muito. Indigna-nos. Profundamente. Todos saberão que estes quadros humanos correspondem a meninos que estão a ser separadas de seus progenitores por ordem da administração Trump, que resolveu erguer uma cruel hostilidade à entrada de migrantes nos EUA, o país multicolor que sempre cultivou a diversidade de raças.

A reação internacional foi musculada. Nos Estados Unidos, alguns republicanos e democratas posicionaram-se contra Trump de forma determinada. Num artigo de opinião, assinado no jornal “Washington Post”, a ex-primeira-dama Laura Bush que se integra na mesma área política do atual presidente americano, embora a proximidade em relação a ele não seja grande, escreveu isto: “Os americanos orgulham-se de ser uma nação moral, de ser uma nação que envia ajuda humanitária para locais devastados por desastre naturais, fome ou guerra. Orgulhamo-nos por acreditar que as pessoas devem ser avaliadas pelo conteúdo do seu caráter, não pela cor da sua pele (…). Se somos realmente esse país, temos de parar de separar pais e filhos”. O ex-presidente Barack Obama publicou esta pergunta retórica na sua conta do Facebook: “Somos uma nação que aceita a crueldade de arrancar crianças dos braços de seus pais ou somos a nação que valoriza as famílias e trabalha para as manter juntas?”.

Na Europa, Angela Merkel, Emmanuel Macron, Theresa May, Jean-Claude Juncker também foram firmes na condenação aos EUA. Não chega. Precisamos de continuar a indignar-nos, até porque há demasiados sinais perigosos. A Hungria aprovou um pacote legislativo que torna crime prestar auxílio a quem entra no país sem documentos, mesmo em contextos de pedido de asilo. Em Itália, Matteo Salvini, logo que tomou posse como ministro do Interior, disse aos migrantes e refugiados isto: “Acabou o recreio, façam as malas e partam”. Agora ameaça boicotar a minicimeira europeia sobre imigrantes do próximo domingo.

Desta vez, as imagens do que se passa na fronteira com o México cumpriram o seu papel. Mas não podemos baixar os braços. Os jornalistas precisam de escrutinar em permanência o que é feito a esse nível e a opinião pública mundial tem de continuar a indignar-se. Em força. Porque há gente demasiado perigosa a conduzir certos países.

Felisbela Lopes
Prof. Associada com agregação da Universidade do Minho
Cortesia JN - www.jn.pt / O artigo pode ser lido aqui

599 total views, 65 views today

Tags
Close
Close