Entrevistas

À conversa com Mara Pedro

Nasceu a 9 de dezembro de 1998, em Viseu, Portugal. Oriunda de uma família sem raízes fadistas, desperta para o fado, quando ouve pela primeira vez a voz de Amália Rodrigues, numa barraquinha de feira popular, em Aveiro.
O que a diferencia das demais fadistas é ausência de influências familiares, ou pessoas relacionadas com o fado, durante a sua infância. A sua voz, estranhamente madura, desde tenra idade, surpreende quem a ouve. Detentora de uma voz meiga com um timbre invulgar, começa a cantar aos 4 anos. No palco, a sua simplicidade e empatia com o público, que gosta de sentir próximo e olhar nos olhos, expressa o seu canto através do sorriso que a caracteriza.
Participou em programas de televisão, entre os quais, “Portugal tem Talento” SIC, “Uma Canção para Ti” TVI, chegando a ser disputada pelos dois canais. Participou nos maiores festivais de fado do país: Festival Caixa Alfama, Festival Caixa Ribeira, entre outros.
Com apenas 9 anos realiza o seu primeiro concerto a solo, na Feira de S. Mateus 2009, em Viseu.
Aos 15 já contava com concertos internacionais: Lituânia, Canadá, Alemanha, E.U.A., Suíça, França, Brasil, Espanha e Brasil.
O teatro também é algo que a fascina e integra o elenco artístico, da peça de teatro Alfama Uma História De Fado em 2015.
Atualmente tenta conciliar as suas duas paixões, o Fado e a Medina Dentária, curso universitário que frequenta.
Em 2017, leva para casa um IPMA (Internacional Portuguese Music Awards) por Best Fado Performance, com o Fado Sorriso do seu 3.º albúm, nos EUA.
Entre as inúmeras distinções que tem recebido pelo seu talento, destacamos as mais recentes: Medalha de Mérito Cultural atribuída pela Academia De Letras e Artes De Paranapuã; Grau De Honra De Comendadora, atribuída pela Confraria Brasileira Da Cultura; Comenda Honorifica, pela prestação de serviços à cultura e sociedade lusófona, atribuída pelo Barão De Ayuruoca; Título de Sócio Honorário, atribuída pelo Presidente da Casa Do Minho no Rio De Janeiro.
Apresentará o seu 4.º disco em outubro, no Centro Cultural Português de Mississauga, Canadá, com temas maioritariamente de sua autoria (letra e música).
Este mês estivemos à conversa com Mara Pedro.

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Revista Amar: Mara conte-nos um pouco sobre si?
Mara Pedro: Sou uma adolescente de 19 anos, fadista e estudante de medicina dentária e canto já desde muito nova. Levo no peito o nosso fado para vários sítios e tenho enorme orgulho em representar o meu país também nos espetáculos que faço pelo estrangeiro. O Fado é um estilo de música que exije muita responsabilidade em cantar, mas que tem o lado gratificante de tocar no coração com a sua melodia forte.

R.A: Frequenta o curso universitário de Medicina Dentária. Quando é que soube que era esta a área que queria seguir e porquê?
Mara Pedro: Sempre gostei muito da área de ciências e da saúde. Em pequena, na típica pergunta “o que queres ser quando fores grande ?” eu nunca respondia cantar, porque isso era algo que eu já fazia e tinha sempre em mente que me ia acompanhar para o resto da vida, mas sabia que queria uma área que envolvesse cuidar das pessoas.
O sorriso foi sempre a minha identidade, o que cativava mais nos outros ,quando me viam cantar. Pessoalmente é também o que aprecio mais quando olho para a cara de alguém. Sorrir é contagiante, quero dar isso aos meus futuros doentes, daí a escolha ter sido tão fácil.

R.A.: Acha que vai conseguir um dia conciliar ambas as profissões, cantora e dentista?
Mara Pedro: Eu comecei a cantar e a descubrir a minha paixão pela música muito antes de entrar para a escola. Levei esta atividade em conjunto com os meus estudos e tentei conciliar, para demonstrar que não é preciso optar tão cedo, por uma coisa ou pela outra. O stress a que me sujeito para passar essa mensagem é muito, mas acredito que é possivel ser dentista, fadista e tudo o que me proposer a ser. As mulheres têm essa facilidade de ser multifacetadas.

R.A.: A Mara é de Viseu, aquela que é considerada “a melhor cidade para se viver”, concorda e porquê?
Mara Pedro: Viseu é a minha cidade, a minha terra mãe e por isso sou suspeita para falar da sua beleza. Contudo, acho que por ser uma cidade pacata, muito verde, com grande patrimonio histórico e cultural, cativa quem lá vive ou passa para visitar. Tem sempre muitos eventos a decorrer e atividades direcionadas tanto para público que vem de fora, como para quem lá mora.

R.A.: Por compromissos profissionais, pretende um dia mudar-se para Lisboa, a capital do Fado?
Mara Pedro: É uma cidade também ela lindíssima, um pouco mais agitada do que estou habituada, mas para já não faz parte dos planos. Os concertos que surgem não se concentram só por Lisboa, sou uma cidadã do mundo, então ainda não senti essa necessidade de me mudar.

É sem dúvida
mais que uma paixão,
é o ar que respiro – Mara Pedro

R.A.: Cantar é uma paixão?
Mara Pedro: É sem dúvida mais que uma paixão, é o ar que respiro.

R.A.: Quais são as outras paixões da Mara?
Mara Pedro: As minhas outras paixões são o conhecimento, gosto muito de aprender, ser uma pessoa informada sobre vários temas, através da leitura, acho que isso define a nossa forma de estar e de pensar na sociedade. Como é óbvio também ganhei a nova paixão na medicina dentária, a minha área. Pratico yoga e natação, são os meus desportos de eleição que me deixam muito relaxada para cantar e passar o meu dia-a-dia. Adoro viajar. Finalmente a outra paixão é a família, tenho uma família numerosa, por isso valorizo todos os momentos que passamos em conjunto, é a animação total.

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R.A.: Começou a cantar muito cedo, apenas com 4 anos, mas porquê Fado e não música Pop?
Mara Pedro: Apenas me lembro vagamente de como foi o meu primeiro contacto com o Fado, mas pelas circunstâncias que a minha mãe me contou, aconteceu muito ao acaso do destino. O Fado veio ao meu encontro, escolheu-me para lhe dar voz, dar voz à nossa cultura. Não tenho outra forma de explicar a feliz coincidência do primeiro disco que pedi, para comprar, ter sido o de Amália; de uma melodia com poemas tão fortes ter impressionado uma simples criança.

R.A.: Consegue ver-se a cantar outro tipo de música?
Mara Pedro: Sim, consigo imaginar-me. Gosto inclusivé de ouvir e cantarolar outros estilos musicais como jazz ou blues, acho que tenho facilidade no tipo de improvisação. Mas as pessoas acabaram por me identificar apenas no Fado, é o meu registo e quero continuar a respeitá-lo.

R.A.: Amália Rodrigues é a referência máxima do Fado, mas tem outras?
Mara Pedro: O nosso pais é muito rico em boas referências do Fado, masculinas e femininas: Marco Rodrigues; Carminho; Camané; Mariza; Ana Moura; Pedro Moutinho e Raquel Tavares são os cantores que mais gosto de ouvir e admiro-os pelo seu percurso.

R.A.: Aos 12 anos, já tinha vencido concursos e festivais: o Concurso “Alverca dá voz ao Fado”, Festival da Canção “Clave de Prata” ambos em Lisboa, o Concurso Fado Amador em Olhos de Água, Algarve, o Concurso de Fado de Vila Real de Santo António; e para coroar ainda é premeada com o Prémio Revelação do Fado, no auditório Pedro Ruivo, em Faro, o Prémio Artista Revelação, em Armação de Pera e o Prémio Revelação na Música – Anim´Arte e ainda edita o seu 1.º album “Doce Fado”, isto tudo entre estudos e concertos. Ainda se lembra como viveu todos estes momentos?
Mara Pedro: É uma enorme felicidade quando somos reconhecidos por aquilo que fazemos. Na altura, em concursos e com os estudos, não tinha uma noção tão clara do que representava, era uma enorme emoção concorrer com pessoas mais velhas e mostrar o meu talento a desconhecidos que me iriam avaliar. Ficava muito nervosa, mas hoje percebo que foram pequenas grandes conquistas, que começaram a traçar o meu caminho.

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R.A.: Na adolescência, com apenas 14 anos, edita o 2.º Álbum Fado Alma Do Mundo, com 12 temas dos quais 8 são inéditos. Porquê arriscar em canções inéditas tão cedo, início de carreira?
Mara Pedro: Na música é importante não pegar apenas no trabalho que já foi feito por outros cantores. Fados tradicionais antigos, carregam a história de uma época, mas começar a construir também um legado de músicas próprias que vão identificar o artista e também a missão de passar uma mensagem atual faz toda a diferença. Por essa razão, agradeço ao produtor por me ter encorajado nesse risco.

Paulo Chaves/IPMA

R.A.: Um ano depois, começam os concertos internacionais, EUA, Canadá, Alemanha, Suiça, etc., mais um ábum “Fado Sorriso” que posteriormente é reconhecido pelo Ministério da Economia, como um produto português de grande qualidade musical certificado pelo Selo Portugal Sou Eu, participa na peça de teatro “Alfama Uma História De Fado” e participa no Festival Caixa Alfama, vence os Prémios de Melhor Fado e Melhor Interpretação no IPMA, EUA, ingressa na universidade… tudo isto e muito mais até hoje, com apenas 19 anos. Como consegue conciliar os estudos, o lazer e a profissão?
Mara Pedro: Sou uma pessoa com uma natureza ativa, mas acho que o segredo é mesmo não me limitar ao dom natural que Deus me deu para chegar aos outros e o qual agradeço todos os dias. A vida é uma incerteza e é necessário estar preparado para todas as surpresas e estudar nunca é um peso, mas sim um acrescento.

R.A.: Este ano Viseu foi palco do maior festival de folclore da europa, a EUROPEADE Festival, com a participação de mais de 200 grupos etnográficos de 24 países europeus. Como recebeu o convite para fazer parte da Cerimónia de Abertura?
Mara Pedro: Foi uma grande honra para mim ter recebido este convite, pois foi um momento auge, a oportunidade de cantar durante a cerimónia de entrega da bandeira da Bélgica à cidade de Viseu.

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R.A.: Volta ao Canadá para a Gala do Fado de homenagem a Amália Rodrigues, no dia 6 de outubro, no Centro Cultural Português de Mississauga. Este convite teve um “sabor” especial?
Mara Pedro: Tem um sabor muito especial por ser para a comunidade portuguesa do Canadá que são sempre um público que sabe acolher maravilhosamente bem. Mas como é óbvio, também por ser uma homenagem à grande diva do Fado que me inspira desde pequena, é emocionante e arrepia fazê-lo.

R.A.: Vai partilhar o palco com o também já nosso conhecido fadista Gonçalo Salgueiro? É a primeira vez?
Mara Pedro: Sim, vai ser a primeira vez que vamos partilhar o palco juntos.

R.A.: Para vos acompanhar no palco, vêm convosco grandes músicos do mundo do Fado. Guilherme Banza, Rogério Ferreira e José Nunes. Já teve oportunidade de trabalhar com eles no passado?
Mara Pedro: Sim, são músicos de excelência e já tive oportunidade de ser acompanhada pelo guitarrista Guilherme Banza no festival Caixa Alfama, entre outras situações. São músicos que pela qualidade, transmitem muita segurança a quem canta.

R.A.: O que podemos esperar do seu espetáculo no CCP de Mississsauga?
Mara Pedro: Vou dar o melhor de mim, e proporcionar um momento agradável, alegre e de muito sentimento. Vou fazer a pré- apresentação do Cd neste espetáculo, por isso o público luso-canadiano vai ser o primeiro a ter oportunidade de ouvir ao vivo o novo albúm.

R.A.: E para finalizar esta entrevista, convido a Mara a deixar uma mensagem à nossa comunidade.
Mara Pedro: Que continuem a ter a mesma saudade, a amar as raízes portuguesas, mesmo à distância, porque só assim se mantêm vivas.

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