Animais

Panda Gigante

março 2016

A Revista Amar traz-lhe este mês uma das espécies mais ameaçadas do planeta. Existem apenas cerca de 1000 panda gigantes na natureza. Devido à sua raridade, têm simbolizado os esforços de conservação das espécies em perigo de extinção.
É provável que já tenha visto um panda gigante de peluche na montra de uma loja de brinquedos. É também provável que já os tenha visto na televisão. O que não é provável é que já tenha olhado para um exemplar desta espécie, mesmo num jardim zoológico. É que restam apenas cerca de 1000 pandas gigantes na natureza e são muitos poucos os zoológicos que os possuem.
Os pandas gigantes são animais inconfundíveis, pelo seu padrão de pelagem, pela sua timidez e passividade. Pertencem à família Ursídea e o seu nome científico Ailuropoda melanoleuca significa “gato preto e branco”. Também a designação chinesa faz alusão ao felídeo, pois “Da Xiong Mao” significa “grande gato urso”.
Evidências fósseis demonstram que os pandas terão aparecido no final do Pliocénico, há dois ou três milhões de anos. Neste período eles encontravam-se amplamente distribuídos no leste asiático. No entanto, a sua distribuição sofreu uma contracção devida a alterações climáticas e estes animais tornaram-se relativamente raros.
É possível que tenha sido esta a causa para que tenham começado a ser considerados seres especiais, criaturas quase divinas, possuidoras de poderes sobrenaturais, capazes de proteger de desastres, prevenir de doenças e exorcisar espíritos malignos. Talvez por este motivo eles tenham sido mantidos em cativeiro, como animais de estimação nos jardins dos imperadores chineses e permanecido praticamente desconhecidos fora do misterioso império chinês, até ao final do séc XIX.

março 2016
Mas já nesta altura a situação da espécie começava a ser crítica. Adaptados às florestas frias e húmidas onde crescem as diversas espécies de bambu de que preferencialmente se alimentam, eles foram empurrados para as montanhas à medida que ocupação humana reclamava terras para a agricultura e pastorícia, madeira para combustível e espaço para infraestruturas, tal como continua a acontecer. A usurpação da floresta pelo Homem tornou o seu habitat demasiado pequeno. Em onze anos, de 1973 a 1984, o habitat adequado para a espécie sofreu uma regressão de 50%. Actualmente eles estão restringidos a seis domínios isolados de montanha, em três províncias ao longo do limite sudeste da China.
Embora a destruição do habitat natural dos pandas seja, actualmente, a maior ameaça à sua sobrevivência, o isolamento das suas populações acarreta ainda outros problemas. Em intervalos regulares (de 30 a 80 anos, dependendo das espécies), as plantas de bambu florescem e morrem de seguida. Embora regenerem a partir de semente dentro de um ano, podem decorrer 20 anos até que as plantas consigam suportar novamente uma população de pandas gigantes.
Quando o bambu numa área floresce, os pandas têm de se mover para outras áreas onde tal fenómeno não esteja a decorrer. Históricamente, isto seria relativamente fácil, mas a fragmentação do habitat tem impedido que os animais se desloquem em busca de alimento quando a escassez de bambu se aproxima, o que tem levado a que muitos indivíduos morram literalmente à fome. Uma vez que 99% da sua alimentação consiste em folhas e ramos de bambu e este alimento não é muito calórico e proteico, eles necessitam de passar 10 a 12 horas por dia a alimentar-se e consumir 10 a 18 kg de material vegetal diariamente, o que implica a necessidade de uma elevada disponibilidade alimentar para que uma população subsista.
Estas migrações seriam igualmente fundamentais como promotoras dos cruzamentos entre populações distintas. Em ilhas de floresta compromete-se a renovação do património genético e o vigor das populações. Este é um problema extremamente sério, já que se calcula que o número mínimo de pandas para evitar os perigos potenciais da elevada consaguinidade seja de 500 indivíduos por população e se estima que a espécie sobreviva, actualmente, em apenas 35 populações isoladas, a maioria das quais com menos de 20 indivíduos.
Para além da destruição de habitat favorável, os pandas gigantes encontram uma outra ameaça preocupante – as crias são muitas vezes capturadas para fornecer jardins zoológicos e os adultos são mortos para comercialização das suas peles, utilizadas para fazer casacos e cobertores detentores de poderes especiais, como a predição do futuro e o afastamento de fantasmas. Apesar de existir pena de morte como condenação pela captura de pandas, esta não desencoraja a actividade, já que a compensação financeira pela pele e couro é maior do que um camponês consegue ganhar durante uma vida inteira, uma vez que as peles valem fortunas nalguns mercados asiáticos.

março 2016
Outro dos problemas que interfere na conservação da espécie prende-se com a baixa taxa de renovação das populações, que não lhes permite recuperar rapidamente da caça ilegal e de outras causas de mortalidade. Embora cada fêmea possa dar à luz duas crias de dois em dois anos, normalmente apenas uma sobrevive. As crias apresentam, ainda, uma elevada taxa de mortalidade pois, com excepção dos marsupiais (como o cangurú), os bebés panda são os mamíferos recém-nascidos mais pequenos. Nascem cegos e pesam menos do que uma maçã, o que os torna bastante vulneráveis.
Muito pouco se sabia desta espécie até 1940, quando os cientistas chineses começaram a fazer observações na natureza. Os esforços de protecção iniciaram-se em 1957 e as primeiras quatro reservas foram estabelecidas em 1963. Actualmente existem 13 reservas, com uma área total de 5 827 km2 . Têm sido empreendidos esforços no sentido de aumentar estas áreas e criar novas reservas, com corredores ecológicos, mas as adversidades encontradas têm sido muitas.
Estão já a decorrer diversos programas de conservação, alguns recorrendo à reprodução em cativeiro, como forma de assegurar a sobrevivência da espécie. Contudo, esta tarefa tem-se mostrado extremamente difícil, em grande parte devido ao desconhecimento da biologia reprodutora destes animais. Apesar de existirem jardins zoológicos com sucesso neste tipo de técnica, ele ainda não é suficientemente significativo para manter a população, mesmo em cativeiro. Por todos estes motivos, é patente, pelas estimativas populacionais, que a espécie se extinguirá dentro de poucos anos, a menos que sejam intensificadas as medidas de protecção do seu habitat.

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