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À conversa com Michelle Madeira

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Uma voz conhecida da comunidade portuguesa de Toronto, a jovem luso-canadiana prepara-se para abraçar novos desafios e concretizar o que aparenta ser uma (re)descoberta pessoal e profissional. O popular continua dentro de si. Quem não se lembra de “Fronteiras”, o seu primeiro álbum, quando ainda era uma adolescente. Ou o mais recente trabalho “Músicas Populares”, que saiu no ano passado, feito a pensar num público mais saudosista das suas canções.
Mas agora, é a fusão de pop, folk e música alternativa que Michelle Madeira quer explorar.
No dia 28 de setembro, no Lula Lounge, tem o seu «showcase» canadiano, onde vai apresentar pela primeira vez o seu novo género musical. Uma apresentação em Inglês pensada para seduzir os “olheiros” da indústria musical no Canadá e ser a plataforma de lançamento de uma carreira a nível nacional.
Na sua biografia online, Michelle Madeira apresenta-se como uma cantora e compositora poderosa e inspiradora cuja mistura de tom vocal natural, paixão e uma alma sensível fazem dela um verdadeiro achado no mundo da música.
Ela é uma vencedora em muitos níveis e foi um dos artistas cabeça de cartaz no Winterfest 2013, coordenado em associação com a estação de rádio CIRV FM 88.9. No top 32 de finalistas do Canadian Idol (ainda que com um certo sentimento de desilusão), a nomeação como “Melhor Artista Feminina” no Ontario People’s Choice Award e o prémio no Mississauga Arts Award acabariam por chegar na hora certa para motivá-la na busca de uma carreira musical.
Mais tarde, estava entre os principais artistas no 2015 International Portuguese Music Awards (IPMA), em New Bedford, Massachusetts, ao lado de nomes internacionalmente reconhecidos, como Lucenzo, Ménage ou Sarah Pacheco.
A sua versatilidade musical leva-a a cantar com artistas de renome internacional como Regis Philbin, Suzy McNeil, Michael Burgess, Michael Ciufo e Carolyn Wonderland; em paralelo, partilha o palco com cantores portugueses populares, como Tony Melo (Starlight), José Cid, David Navarro, Joe Puga, Tony Camara, Romana, só para citar alguns.
Outros feitos dela incluem o ser a voz da música promocional do Square One Mall “Be the One” e música tema do 25º Aniversário do Carassauga. Para além de vencedora do Mississauga Future Star, Michelle Madeira arrebatou o prémio principal no (experimental) Johnny Lombardi Portuguese-Canadian Singing Festival.
Canta em várias línguas, incluindo, Inglês, Português, Italiano e Chinês, fazendo dela uma verdadeira cantora multicultural que acredita que “a música é uma língua internacional que todos partilhamos”.
Respeitada por colegas da música pelo seu profissionalismo, Michelle Madeira tem desempenhado o papel de júri no Canadian Chinese Idol e The John Santos Amateur Singing Completion.
Esta uma das vozes da comunidade portuguesa no Canadá que estudou teatro e inglês na Universidade de York. O talento musical que começou a cantar aos 13 anos de idade e que, sem falsas modéstias, continua a sonhar com uma carreira musical personalizada e plena de sucesso. A filha que tem nos seus pais dois dos seus maiores fãs. A artista que é este mês o destaque na capa da Revista Amar.

Eu nasci para a música, para cantar.
É o que me faz feliz e onde me sinto realizada

Revista Amar – Começou a cantar aos 13 anos de idade. Numa fase adolescente, já sentia que queria abraçar uma carreira musical?
Michelle Madeira – Sim. Eu comecei a cantar muito cedo, quando ainda era uma menina pequenina, mas tudo começou aos 13, quando a minha avó me ouviu a cantar, numa das reuniões familiares, disse aos meus pais que eu deveria ter lições de canto e perseguir uma carreira musical. O meu pai, que tem um lado “musical”, não é cantor profissional, dizia que eu tinha uma voz linda e também me incentivou… e tudo começou em casa, mas quando eu comecei a cantar em festa de família e de amigos descobri o quanto eu gostava de cantar. A minha primeira atuação a “sério” com um maior número de público foi no club de futebol do meu pai “Operário Sports Club of Toronto”, espaço que me é muito especial, e porque foi lá o ponto de partida da minha carreira.

RA – Em 2005, ficou integrada no Top 32 de finalistas do Canadian Idol. Esse foi um momento de desilusão ou deu-lhe ainda mais força para seguir a carreira musical?
MM – Foi um pouco dos dois. Foi a primeira vez que entrei num concurso nacional… e não era como cantar para a família ou 100 pessoas, como era até então. Cantei para o Canadá, as expetativas eram outras, tinha 18 anos e queria cantar muito. A partir dali, compreendi que tinha que trabalhar mais e o que tinha que melhorar. Os jurados deram-me muitas críticas positivas e construtivas. Eu sempre fui muito “técnica” e focava nisso, mas faltava-me alguma coisa… o sentimento… e os jurados aperceberam-se disso! Eles disseram algo que nunca esqueci: – “Tu cantas muito bem, mas não estamos a sentir…”; desde esse dia, até hoje, eu tenho trabalhado muito nesse sentido, ou seja, eu ponho todas as minhas experiências, emoções e sentimentos nas canções que canto! Hoje sei o que eles queriam dizer.

RA – A Michelle já partilhou palcos com artistas intercontinentais incluindo Regis Philbin, Michael Burgess, Michael Ciufo, Carolyn Wonderland. O que aprendeu com eles?
MM – É assim, todos estes artistas têm uma carreira longa, com características diferentes. Cantar com eles foram momentos únicos, pois são profissionais e humildes. Eu aprendi muitas coisas diferentes de todos eles, mas o que ficou, foi que cada artista é diferente, tem a sua personalidade, as suas qualidades, cada artista é único.

RA – Do lado português, também chegou a cantar com artistas populares como Tony Melo (Starlight), José Cid, David Navarro, Joe Puga, Sarah Pacheco, Isabel Sinde, Tony Camara, Romana, entre outros. Como viveu essas experiências?
MM – As experiências foram e são diferentes, pois para além de sermos da mesma comunidade, existe a amizade e temos muita coisa em comum, o amor à música e de cantar. A partilha e troca de experiências é mais fácil e como somos todos artistas diferentes, aprendemos muito.

(…) Quando uma canção é transmitida com emoção e sentimento, ela vai ser entendida independentemente da língua.

RA – A Michelle canta em várias línguas, incluindo, Inglês, Português, Italiano e Chinês, fazendo de si uma verdadeira cantora multicultural. Esta sua aventura linguística, é uma forma de conquistar outros públicos?
MM – É assim, eu costumo dizer que a ‘música é uma língua internacional que todos partilhamos’, não importa a letra, não importa se estou a cantar em português ou inglês. Eu canto canções que eu gosto e que me digam algo e tento passar ao público, e quando uma canção é transmitida com emoção e sentimento, ela vai ser entendida independentemente da língua. Cantar em chinês foi uma casualidade, eu ganhei um prémio no Metal Works em Mississauga e tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com muitas pessoas. Uma delas, era o filho do presidente da The Malasian Association of Canada, que me pediu para aprender uma canção em chinês e eu aceitei o convite. Num dia, eu aprendi e gravei. O pai, Henry Lee, quando ouviu gostou tanto que começou a agendar-me para festas da comunidade chinesa. Foi uma experiência engraçada.

RA – Cantora e compositora. Qual destas duas facetas prefere mais?
MM – São duas facetas diferentes e gosto de ambas, mas de maneira diferentes. Como cantora tenho mais experiência, sinto-me mais confortável e à vontade… está dentro de mim. Compor é muito pessoal, sempre gostei de escrever poemas e estórias, mas não tinha a confiança para mostrar o meu trabalho para o público.e agora é que estou a começar a dedicar-me mais e a desenvolver.img_1061

RA – A Michelle tem tido o prazer de cantar os hinos nacionais canadiano, norte-americano e português, em várias cerimónias políticas e eventos desportivos. É daqueles convites a que não consegue dizer Não!?
MM – Estes convites são uma honra, cantar os hinos nacionais não importa de que país seja é uma honra! Não há música mais internacional do que os hinos nacionais, as pessoas quando ouvem o “seu” hino nacional têm e sentem orgulho e sabem a letra, e aquele momento em que se ouve milhares de pessoas a cantar quase a uma só voz, é arrepiante. O momento do hino é único e emotivo, durante aquele momento não há diferenças ou desigualdades, só o amor pelo seu país. Graças a Deus nunca me aconteceu , mas estas são aquelas em que tu não te podes enganar, pois toda a gente conhece a letra, e vamos ser realistas, o hino é aquela canção que no fim tem sempre a ovação de pé!!!”

RA – A Michelle foi a voz da música promocional do Square One Mall “Be the One” e da canção tema do 25º Aniversário do Carassauga. Apenas duas mais-valias para a sua carreira musical ou algo mais do que isso?
MM – Em ambas as ocasiões, foram muito importantes. Cantar a música promocional do Square One Mall foi uma honra, pois é considerado um dos maiores Centros Comerciais do Canadá. O Festival de Carrassauga é um festival multicultural enorme que respeito muito e poder cantar nas suas bodas de prata foi muito gratificante. Tenho muito orgulho de ter estes eventos na minha carreira, no meu currículo.

RA – A Michelle venceu o Johnny Lombardi Portuguese-Canadian Singing Festival (2012) e foi a vencedora do Mississauga Future Star (2008). Conquistar esses dois prémios foi importante para a autoestima enquanto artista musical?
MM – Ora bem, para mim o mais importante é cantar, claro que estes concursos foram importantes e foi bom ganhar, mas se não ganhasse, ficava feliz na mesma. Agora, o vencer é a confirmação de que estou no caminho certo, pois eu sou muito autocrítica e perfecionista em relação ao meu trabalho.

RA – Por que aceitou ser um membro do júri no Canadian Chinese Idol e no The John Santos Amateur Singing Competition?
MM – Porque eu sei o que é estar no outro lado à espera de ser avaliada, então achei que podia dar aos concorrentes aquilo que outros membros do júri me deram antes, ou seja, conselhos, partilhar as minhas experiências e dar dicas positivas.

RA – Fale-nos dos álbuns “Fronteiras” e “Músicas Populares” e as diferenças entre ambos.
MM – “Fronteiras” foi o meu primeiro álbum, saiu quando ainda era uma adolescente e fi-lo para mim, escolhi as canções que eu gostava na altura, enquanto que para o “Músicas Populares” que saiu no ano passado foi feito a pensar no meu público. Canções que eu cantava em eventos e que não estavam gravadas e as pessoas perguntavam-me se estas se encontravam no “Fronteiras”. Foi assim que decidi dar este presente a todas aquelas pessoas que gostam de mim e à communidade portuguesa por sempre terem apoiado a minha carreira até ao dia de hoje.

RA – Com o ano de 2016 a caminhar a passos largos para o seu fim, que balanço faz até ao momento?
MM – O balanço é positivo. Tem sido um ano de descobertas tanto a nível profissional como pessoal. A nível profissional, finalmente encontrei o caminho que tanto procurei, e trabalhar com Evanson Chung e Milú Pacheco nos últimos 2 a 3 anos tem sido fundamental na busca do meu “género musical”. Foquei-me muito nesta busca, pois não podia continuar como um hobby (passatempo). Eu quero cantar a tempo inteiro. Cantar é o que eu mais quero fazer no mundo. Era importante que eu descobrisse quem eu sou verdadeiramente para dar “aquele” salto que todos os artistas ambicionam; foi assustador, eu que pensava que sabia quem eu era musicalmente, e ao mesmo tempo fantástico descobrir que afinal há muito mais dentro de mim para dar, não só na comunidade portuguesa como também no Canadá. É como se tivesse renascido!4

Não estou a dizer que a partir desse dia vou deixar a comunidade portuguesa, não é isso, simplesmente vou também tentar encontrar o meu “espaço” neste país que me viu nascer, 
sem nunca esquecer as minhas raízes e tradições,
pois fazem parte de mim, são a base de quem eu sou!

RA – No dia 28 de setembro, no Lula Lounge temos o teu «Showcase» canadiano. O que podemos esperar e por quê em Inglês?
MM – Este foi o dia que escolhemos para mostrar a nova Michelle Madeira. Foi para este dia que tenho vindo a trabalhar com o Evanson Chung nos últimos anos. É no dia 28 que vou mostrar pela primeira vez o que descobri ser o meu género musical. E espero que gostem. Este «showcase» é em Inglês, porque eu quero começar uma carreira a nível nacional. Vão estar presentes pessoas da indústria da música canadiana e espero que gostem do meu género musical e que a partir daqui eu possa lançar-me nesta nova fase da minha carreira. A partir desse dia, tudo pode acontecer, ser agenciada por um promotor para entrar neste mundo da música que adoro e depois quem sabe até assinar um contrato com uma discográfica. Não estou a dizer que a partir desse dia vou deixar a comunidade portuguesa, não é isso, simplesmente vou também tentar encontrar o meu “espaço” neste país que me viu nascer, sem nunca esquecer as minhas raízes e tradições, pois fazem parte de mim, são a base de quem eu sou!

RA – E qual é o verdadeiro género musical da Michelle Madeira?
MM – É uma fusão de pop, folk e música alternativa. Eu gosto de cada um deles, mas para mim têm que estar juntos para fazer sentido e juntei os três de forma harmoniosa para se completarem.”
Em 2017, o que podemos esperar em termos de projetos?
MM- “Tenho projetos sim, mas tudo vai depender como vai correr no dia 28 de setembro, porém posso adiantar que estou a planear «Showcases» fora do Canadá.

RA – Qual o estilo musical que prefere mais interpretar em palco?
MM – Todos, mas em particular este meu novo género musical, a fusão do pop, folk e música alternativa.

RA – Cantar para a comunidade portuguesa é algo de que não abdica?
MM – Nem pensar, nem posso. Foi graças à nossa comunidade que eu aprendi a falar português. Claro que eu podia falar em casa com os meus avós, mas foi a cantar em português que fiquei muito mais ligada à comunidade, à lingua, às tradições, à cultura. E foi uma benção ter esta oportunidade na vida, pois aprendi muito sobre o que é ser português. E independentemente de para onde a música me levar, eu vou ser a Michelle Madeira, luso-canadiana. Nunca hei de esquecer de onde vim.

RA – Ainda recorda a primeira grande atuação junto da comunidade portuguesa?
MM – A primeira grande atuação na comunidade portuguesa que me deu a oportunidade de estar em frente de um grande público foi no clube de futebol do meu pai (Operário Sports Club). Este ano, no dia 22 de outubro, no Oasis Convention Centre, eles vão comemorar o seu 40º aniversário e eu irei cantar com Rui Bandeira. Fazer parte desse momento, é algo que é muito importante para mim, porque representa o primeiro local que me deu a oportunidade de atuar perante um grande público quando eu tinha apenas 14 anos de idade. Agora, anos mais tarde, eu posso celebrar essa efeméride com eles.

RA – Estudou teatro e Inglês na Universidade de York. A parte do teatro está na gaveta à espera de ser resgatada?
MM – Nunca se sabe. Mas para já não penso nisso. Quando fui para a Universidade estudar, foi porque eu gosto de aprender, mas a escolha do curso em si não foi, porque eu pensava um dia a vir ser professora. Eu queria cantar, mas também tinha que ter um plano B, no qual nunca me foquei nesse plano B, depois de me ter formado. Quanto ao teatro, é diferente. Eu participei em muitos musicais na escola e gostei muito de os fazer, porque era música com teatro. Foi assim que começou o meu gosto pelo teatro, mas também não era o meu plano seguir essa vertente no futuro. Mas, quem sabe eu volte a fazer um musical.

RA – Os seus pais são dois dos seu maiores fãs. Isso ajudou a cimentar a sua vontade de correr atrás de uma carreira musical?
MM – “Eu sou uma sortuda. Os meus pais sempre me apoiaram e o que eles queriam, e querem, é ver-me feliz. Foi o meu pai que me levou para a comunidade e a minha mãe ajudava-me com o guarda-roupa, era a minha promotora e, mais tarde, também me apoiaram finaceiramente.”

RA – Se não tivesses a música, o que escolhias para ti?
MM – Nada. Eu nasci para a música, para cantar. É o que me faz feliz e onde me sinto realizada!!! É um sonho que se tornou realidade, é a minha vida!

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