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Diário de Bordo com Cristina Gonçalves Pereira – Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Évora

Partir à descoberta do meu País que, embora pequeno na sua dimensão geográfica, é enorme na sua dimensão humana, é sempre para mim um grato prazer. Ser viajante por um dia e concentrar nele os cambiantes de luz e cores, perfumes, sabores e sensações que fazem de cada lugar um lugar único, é um desafio que acolho com grande entusiasmo. Os meus roteiros são orientados pelo interesse paisagístico dos locais escolhidos, porém sempre com uma forte componente de investigação gastronómica, fruto da minha actividade de Chef que apesar de assumidamente amadora, levo muito a sério…
Assim, munida de uma bagagem onde cabe uma máquina fotográfica e pouco mais, parto de Lisboa com destino a Évora, numa manhã de outono. São cerca de 140 quilómetros de autoestrada que se fazem numa hora e pouco. Pelo caminho, está decidido fazer um desvio até Arraiolos, onde há um Restaurante que faz a introdução perfeita a este dia de incursão no Alentejo…
Feito o caminho suave da autoestrada, ladeada de paisagens que vão cambiando cores e cenários, desde as zonas industriais limítrofes de Lisboa, até às gloriosas planícies alentejanas, passando por arroxeados vinhedos, já vindimados que produzirão os afamados vinhos de Palmela e Península de Setúbal, saímos na direção de Arraiolos.

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Após percorrermos alguns quilómetros de estrada entre herdades em evidente atividade agropecuária, onde o gado convive com o sobreiro e a oliveira tão característicos da região, Arraiolos surge á nossa frente, organizada numa deliciosa paisagem de típico casario branco, riscado a azul e amarelo, que sobe em níveis graciosamente justapostos até ao Castelo, mandado erigir por D. Dinis, nos idos de 1300, cuja muralha alberga a igreja de São Salvador.

Por graça refiro que o Castelo e o Paço existentes na época, foram doados por D. João I, em 1384, ao seu Condestável D. Nuno Álvaro Pereira, 2º Conde de Arraiolos, que aí morou, o qual, ao que consta, é meu ilustríssimo e remoto antepassado. Será por isso que cada vez que viajo pelo Alentejo me sinto em casa?

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Após o almoço, cujos pratos locais incluíram ovos mexidos com espargos verdes, presas com migas, acompanhados por um vinho alentejano de cor rubi e robusto paladar frutado, finalizando com um pratinho de encharcada, cumpriu-se o desígnio do forasteiro: subir ao Castelo para admirar a paisagem de campos a perder de vista, picados aqui e ali por um amontoado de casas brancas, baixas e largas, tão características da região.

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O ar que se respira é puro e perfumado do restolho ainda seco do verão, aquecido por uma morna temperatura de outono suave e seco. A chuva tarda e este outubro veste-se ainda dos tons de amarelo, característicos do verão Alentejano.

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Ir a Arraiolos e não ver os seus afamados tapetes é como ir a Sintra e não ir à Casa do Preto aos travesseiros (lá iremos, prometo). Por isso aqui vai: um tapete destes é uma obra de arte! Dependendo do tamanho pode levar semanas ou anos a fazer, mas a certeza é que leva muito trabalho e dedicação, por isso o seu justo preço é alto. Data do século XVII o seu reconhecimento oficial, mas existem referências escritas a esses tapetes desde 1530, já que eram considerados um património pessoal e dados a rol nos testamentos e dotes. Porém, acredita-se que a feitura de tapetes a “ponto de Arraiolos” é bem mais antiga, já que a laçada dupla cruzada que caracteriza esse ponto é conhecida na Península Ibérica desde o século XII.

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Inicialmente os desenhos dos tapetes eram livres, mas a partir do século XVII passaram a reproduzir motivos orientais e persas, também característicos da nossa azulejaria da mesma época.
Toda a feitura dos Tapetes de Arraiolos é trabalho artesanal, feito na região e inclui a criação do gado ovino, a tosquia e preparação da lã, o seu tingimento e necessário fiar. Depois é todo um trabalho manual, feito maioritariamente por mulheres. Hoje em dia proliferam muitas lojas que comercializam os Tapetes e há-os a vários preços.

Também não me vou embora de Arraiolos sem registar que no último fim de semana de outubro terá lugar a Feira da Empada, acontecimento gastronómico de que sou visita regular e ao qual conto voltar… apenas por uma questão de pesquisa gastronómica, obviamente!
Captadas algumas fotografias da paisagem circundante, partimos em direção a Évora.

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À entrada, é o imponente Aqueduto Romano que nos recebe e desde logo nos prepara para o que vamos encontrar, logo que se entra pela Muralha que encerra a cidade histórica e a circunda com mais de dois quilómetros de construção, em duas cercas, produto de várias reconstruções em diferentes épocas, patenteando, por isso, influências Romanas, Visigóticas, Árabes e Manuelinas.

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Esta bela cidade já é referida desde o tempo dos Fenícios e fez as delícias dos Romanos, cujo imperador Júlio César dignificou com o título Ebora, Liberalitas Julia, no século I, AC. Nesta importante cidade de confluências de vias ibéricas, há marcas de grandeza que perduram até hoje, como o já referido Aqueduto, as Termas que pouco a pouco vão sendo reveladas em recentes escavações arqueológicas, o Templo de Diana, entre muitas outras.

Évora foi resgatada aos mouros por Geraldes sem Pavor em 1166 e teve Foral de D. Afonso Henriques em 1257, sendo pois uma das mais antigas cidades portuguesas a sul.

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Deambulando pelas ruas de Évora, caminha-se pela história e aprende-se em cada rua estreita, calçada pelo escuro basalto irregular, em cada arco de velha pedra, em cada largo para onde confluem caminhos, em cada parede austera de convento, em cada gracioso pátio mouro, que somos apenas os viajantes de um tempo fugaz e que o que fica de nós é pedra…
Do ponto de vista arquitetónico e urbanístico, Évora manteve de forma articulada, elegante e inteligente a sua belíssima estrutura ancestral, que harmonizou depois com o Período Renascentista do século XVI, sem recusar a componente rústica e popular que trouxe até aos nossos dias um conjunto eclético, sabiamente equilibrado e bem preservado que faz desta magnífica Cidade-Museu, a razão do seu reconhecimento, em 1986, pela UNESCO, como Património da Humanidade.
Desta minha curta viagem a Évora, fica também uma conversa tida com um membro do Grupo Pro-Évora, fundado há quase 100 anos e cujo objetivo é a defesa do património histórico-artístico eborense. A este grupo de cidadãos, representativos do tecido humano e económico da cidade, se deve a preservação da cidade de Évora, bem como a classificação de inúmeras construções como Monumento Nacional.
Não ficaria completa esta minha incursão à Mui Nobre E Sempre Leal Cidade de Évora, se não referisse as iguarias com que me deliciei. Merecem destaque a Sopa de Cação e os Secretos com Migas de Azeite, bem como a sofisticação contida de uns Medalhões de Carne Mertolenga (DOC) com Cesto de Farinheira com Esparregado de Espinafres. Aliás a qualidade desta carne aguçou o meu espírito de Chef e tendo encontrado o ponto de venda dos Produtores de Carne Mertolenga, logo aviei um assinalável carregamento de bifes com que se hão de delíciar os meus clientes…

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Uma excelente e reconfortante noite dormida num Hotel encostado ao Aqueduto, fechou em beleza este dia de visita. No dia seguinte, um regresso a Lisboa devolveu-me à realidade, mas já estou a planear um próximo passeio de que darei notícia, neste meu DIÁRIO de BORDO de um CHEF.

 

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