Psicologia

Todo o começo é difícil

É consistentemente bem explicada a apreciação evolutiva das espécies — destaque-se a humana –, especialmente em razão do que se pode extrair com a tecnologia atual: análises laboratoriais comparativas de DNA (ácido nucleico que apresenta informações genéticas) de dados contemporâneos e de evidências fósseis do Paleolítico Superior, cuja datação é a filha de métodos rigorosos dentro da tradicional família científica. E mesmo sob a cáustica crítica dos céticos mais intolerantes, basicamente, só amostras contaminadas ou procedimentos metodológicos inadequados de datação por radiocarbono (14C), por exemplo, são os responsáveis por erros que recebem a devida correção através de oportuna e adequada repetição do exame em foco. A postura científica não é a de bater o pé diante de inconsistências, mas de retestar e invalidar a sua hipótese se necessário, do contrário, sua austeridade também lhe permite autenticar o avanço positivamente, dando novo passo na jornada do saber.

Naturalmente, a pesquisa sobre os últimos 40 mil anos tem razoável facilidade de ser realizada, todavia, há alguns contratempos, em doses correspondentes, às datações (anteriores) a partir de 60 mil anos, logo, uma acinzentada nuvem de dúvidas pode pairar sobre o terreno da antiguidade mais distante, alarmando os precavidos que, mesmo sob o teto da investigação disciplinar, têm o direito legítimo de ficar com a mão no queixo e o pé atrás até que a futura robustez de novos tijolos sustentem vigorosamente as paredes do prédio científico.

Por conseguinte, recuar ainda mais pode nos causar desconfortos ao viajar na máquina do tempo das possibilidades teóricas, quais tonteiras acerca dos passos evolutivos já percorridos, dores de cabeça a partir das conexões e dos saltos através das espécies e de seus prováveis elos, e, sobretudo a respeito do mecanismo que opera o funcionamento de tais desenvolvimentos, ainda que certos achados longínquos falem praticamente por si e se tornam os seus próprios advogados de defesa numa disputa entre as partes que se contestam pela complexa natureza da questão, quer seja, as transformações que moldam a biologia sobre o planeta desde há muito, sob a batuta da maestrina natureza e a rebelde e indisciplinada orquestra das pressões ambientais, na preciosa e ainda mal compreendida música ‘Adaptação evolutiva’, em DNA Maior, na partitura da vida.
Desta forma, os primórdios só são ouvidos por meio de ecos que tanto esclarecem parte da sua biografia ao observar os achados mais primitivos quanto confundem a mesma compreensão na hora de encaixar certas peças do imenso e desafiador quebra-cabeça orgânico. É uma espécie de megacódigo a ser decifrado, que poderá revelar um pouco mais sobre as origens da vida em seu reduto mais íntimo, no nascedouro em que se formou o primeiro RNA (molécula que processa a síntese de proteínas) rudimentar, e que, segundo os especialistas, existiu anterior ao próprio DNA, que se formou lenta e gradativamente. Experimentos de laboratório (células vivas a partir de químicos sem vida) foram realizados em 1953, pelas mãos dos cientistas estadunidenses Stanley L. Miller (1930-2007) e Harold C. Urey (1893-1981), nos quais se testou com alguns equipamentos e componentes químicos, simulando condições atmosféricas da época, a geração espontânea de vida.

Dúvidas à parte, a questão central gira ao redor do planeta chamado “Potência”, em uma órbita inconfundível de curiosidade sem fim, ainda a ser desvendada, haja vista considerarmos o ponto: a preexistência de uma espécie de programação latente (potência, as possibilidades do ser, aquilo que não é mas que pode vir a ser, conforme o filósofo Aristóteles) que, mesmo sob a chuva de asteroides denominados de acaso no processo evolutivo, chama a atenção pelo considerável e constante “direcionamento” que leva ao ato (a manifestação do ser, na visão também de Aristóteles) das sucessões de desenvolvimento. Trocando em miúdos, ao fazer a pergunta crucial: Porventura o acaso pode fazer as suas jogadas no tabuleiro sorte-azar e balançar as apostas do jogo vital, mas há contínuas vitórias da natureza que parece “saber razoavelmente bem de antemão” as cartas que serão viradas? Uma jogadora malandrinha?

Por que a natureza, mesmo sob o sabor do vento e das tempestades caracterizados pela pressão ambiental sabe exatamente que rumos tomar a cada eventual evolução adaptativa, como se houvesse uma programação em seu bojo? Ainda que a evolução da natureza forneça a si mesma contínua evolução e, portanto, informação valiosa para o adequado desempenho de suas funções como boa funcionária que é na sobrevivência biológica que só cresce no mercado da existência, de onde provêm as inaugurais orientações do primeiro e fundamental dia de início das atividades como RNA, o primeiro cargo ocupado no capital organograma biológico? Qual a origem da potência diante de tamanho ato original? Se for o acaso, é, pra não deixar por menos, o sujeitinho mais sortudo que já se viu na face da Terra,
quiçá no universo…

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