Sociedade

Até quando??

 

A água de boa qualidade é como a saúde
ou a liberdade: só tem valor quando acaba.

Guimarães Rosa

 

Lembram-se daquele som de água a correr livre, por entre penhascos? Lembram-se dos rios que galgavam as margens no inverno? Lembram-se dos meses a fio que reclamávamos com a chuva? Aquela que molha todos (tolos…) e a outra a que molha até ao osso? Lembram-se?… Pois lembram… tenho a certeza que se lembram. Tão bem quanto eu.
Vivemos em Portugal um ano de seca extrema. Ouvi há dias uma meterologista a dizer que precisamos de chuva ininterrupta, durante vários meses, para compensar os terrenos ávidos de água. Secos. Os rios transformaram-se em ribeiros, tímidos, sem força. As albufeiras tentam garantir as cotas mínimas. Este é o Portugal de 2018.

Foi a rádio que me trouxe notícias de uma realidade tão longínqua, quanto assustadora. Na África do Sul, nomeadamente na Cidade do Cabo, a previsão atual é: se os habitantes não reduzirem o consumo de água para os 87 litros diários e os serviços municipais não pouparem mais água, as torneiras fecham a 22 de abril de 2018. 87 litros diários. Pois, eu também não tinha noção, mas isto significa, basicamente, que os hábitos do dia-a-dia têm que ser profundamente alterados – “Os duches são apenas de 90 segundos, só podemos puxar o autoclismo uma vez por dia e usar a máquina de lavar roupa uma vez por semana”, conta Aurélie Sousa, uma portuguesa a viver na cidade sul-africana há cerca de um ano.

Como é possível viver assim? Perguntamos todos em uníssono. A resposta é… tem que ser! Como é possível chegarmos a este ponto? A resposta é… andámos todos a fazer orelhas moucas aos múltiplos avisos, que os cientistas nos fazem há tantos anos. Sim nós. Todos. Cada um tem a sua quota parte de responsabilidade. É chocante, sem dúvida! Mais ainda quando percebemos que o mundo e quem o domina continua a assobiar para o lado. Não falta a água em Bruxelas, nem em Berlim, nem em Nova Iorque ou Washington. Este é o mundo de 2018.

Não será possível reverter o mal que está feito. As alterações climáticas, por mais que queiram ignorá-las, estão a entrar nas nossas vidas. Mas há que travar um processo de autodestruição que a humanidade parece ter iniciado. E encontrar soluções – sim é possível dessalinizar a água do mar e torná-la bebível (os israelitas que o digam…); sim é possível diminuir as emissões de dióxido de carbono; sim é possível diminuir a camada de ozono; sim é possível fazermos todos uma melhor gestão da água que consumimos, percebendo o quão preciosa ela é.

O corpo humano é constituído por cerca de 65% de água – cerca de 75% do peso de um músculo é composto por água, o sangue por sua vez contém 95% de água, a gordura corporal 14% e o tecido ósseo 22%. Somos, portanto, seres absolutamente dependentes de água, tal como acontece com a base da nossa alimentação, seja ela de que tipo for.

Sim, a água é mais do que preciosa. É vital para a existência da humanidade. É urgente que todos tenhamos consciência disso e que passemos a palavra. Aos nossos filhos, aos amigos, aos mais velhos… a todos! Poupar água é hoje muito mais do que uma forma inteligente de gerir os domésticos recursos financeiros. É um gesto de elevada cidadania e responsabilidade social.
Em Portugal e em várias outras regiões no mundo ainda é possível ouvir a água a correr livre, entre penhascos… mas até quando?

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