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Os segredos do autoconhecimento

Mais de meia dúzia de sábios aqui descritos, apontam na mesmíssima direção do autoconhecimento, esse profundo e revelador exercício existente no desenvolvimento humano, então seria lógico perguntar as razões que os levaram a pensar a respeito, se dedicando ao tema, e a deixar tais ideias à posteridade, o bilhete de aviso que provoca quem dele se serve, qual uma preciosa bebida que pode matar a sede evolutiva tão enraizada no código genético, quiçá no espírito…

Por que exatamente pensadores geniais deixariam uma herança tão simples e enigmática em sua forma quão complexa, rica e profunda em seu desdobramento? “Sê quem és, sabendo.”, Píndaro (518-438 a.C.); “Conhece-te a ti mesmo.”, gravado no Oráculo de Delfos, observado por Sócrates (470-399 a.C.); “Não vás para fora, volta a ti mesmo. No homem interior habita a verdade.”, Santo Agostinho (354-430); “Triste destino é o homem morrer conhecido de todos, mas desconhecido a si mesmo.”, Francis Bacon (1561-1626); “Aquele que analisou a si mesmo, está deveras adiantado no conhecimento dos outros.” Diderot (1713-1784); “Quantos homens sabem observar? E entre os poucos que o sabem, quantos observam a si mesmos? Cada um é para si próprio um desconhecido.”
Nietzsche (1844-1900); “Observa-te a ti mesmo como faria teu pior inimigo, e tornar-te-ás teu melhor amigo.” Desconhecido.

E, apesar do ceticismo e da controvérsia acerca dos Evangelhos Apócrifos encontrados em 1945, no Egito — acervo da Biblioteca de Nag Hammadi, no Museu Copta do Cairo, devidamente datado pelos processos técnico-científicos –, é possível dar ênfase mais ao conteúdo do que ao seu alegado autor, a fim de evitar qualquer polêmica desnecessária: “(3) Jesus disse: Pois bem, o reino está dentro de vós, e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então, sereis conhecidos e compreendereis que sois filho do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.” Assim, vale perguntar: não é cativante o apelo ao autoconhecimento ricamente disposto no papiro egípcio? Mais uma vez, o que pretenderam conhecidos e desconhecidos, há tempos, ao registrarem a sua compreensão de forma unânime, fazendo-a chegar posteriormente às mãos de eventuais leitores?

Não é segredo que a ciência da Psicologia tem como um de seus fundamentais objetivos o autoconhecimento, ao estimular as pessoas a se conhecerem mais profundamente, as quais podem chegar a ter compreensões diferentes sobre o mundo com o passar do tempo, alterando pontos de vista capazes de lhes trazer alívio, conforto e maior aceitação de si, em muitos casos. Logo, a questão centra-se nos benefícios advindos da investigação íntima, pois, o que não se enxerga num dado momento, noutro alcança-se melhor horizonte, o fogo ao redor não queima tanto (se é que queima), o pesar diminui, a escuridão perde espaço para a luz…

Os segredos do autoconhecimento deixam de sê-lo pela autodescoberta resultante da dedicada prática, cujos esforços contínuos fazem aperfeiçoar o saber pessoal, a recompensa louvável pelo trabalho exercido no campo das ideias. Todavia, para que se chegue ao inestimável tesouro, são necessários o desejo e a autorização para empreender tamanha exploração particular, ninguém pode fazê-lo por outrem, ademais é uma responsabilidade intransferível. Porquanto, mais de meia dúzia de sábios aqui descritos puderam registrar com empenhado zelo o que entenderam na intimidade de suas reflexões, pois não se caminha com as pernas alheias, e a descoberta dos segredos do autoconhecimento é singular apesar de estar disponível potencial e universalmente em nós.

 

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