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Salvador Sobral

Fez longas viagens com a irmã e o pai a ouvir Beatles quando era criança. Cantou aos 12 anos na televisão, passou pelo “Ídolos”, apaixonou-se pelo jazz e venceu a Eurovisão. Com a final da Eurovisão em Lisboa, sente-se agora “aliviado”, ele que marcou a história da música portuguesa com a vitória no ano passado. Há um ano, “Amar pelos dois”, composta pela irmã, Luísa Sobral, lançou-o para a ribalta. A singularidade da canção, a personalidade do seu intérprete fizeram com o que o mundo, mesmo quem nunca ligou muito ao festival, olha-se para Portugal com outros olhos.

Depois de ter vencido a Eurovisão, tornou-se num verdadeiro fenómeno. Encheu várias salas de espetáculos pelo país fora e rapidamente os seus CD´s esgotaram. Contudo, devido a uma insuficiência cardíaca grave, o artista viu-se obrigado a fazer uma pausa na carreira para se submeter a um transplante de coração. O seu último concerto foi nos jardins do Casino Estoril, um espetáculo que reuniu centenas de pessoas e que ficou marcado pela emoção.
Entretanto, a 8 de dezembro, após estar vários meses à espera de um órgão compatível, recebeu um transplante de coração. Agora com um coração novo, vem uma vida nova.

A Revista Amar esteve à conversa com o Salvador Sobral. O português que levou muitos estrangeiros a cantar na língua de Camões.

© MDC Media Group

Revista Amar: Bem-vindo à nossa comunidade no Canadá. É um privilégio estar aqui a falar contigo. Como é que te sentes?
Salvador Sobral: Sinto-me muito bem, com muita energia e com muita vontade de dar música às pessoas.

RA: “A fama é uma forma falsa de sair à rua”? Uma afirmação tua.
SS: Ai quem me dera (risos) não, não é. É do Gonçalo M. Tavares, um escritor que eu admiro muito e fez uma letra para uma canção que o Mário Laginha está a musicar de resto já tivemos uns ensaios. “A fama é uma forma falsa de sair à rua” (cantando), é uma canção bonita e é como se ele tivesse entrado em mim e tivesse escrito todas as minhas emoções.

RA: E isso espelha um pouco aquilo que é a tua personalidade?
SS: Completamente, completamente sim.

RA: A fama e a tua operação mudaram completamente a tua vida?
SS: Isso obviamente, para melhor. A fama tem os seus lados mais negativos mas a maior parte das coisas que aconteceram foram e estão a ser boas. Estamos a tocar imenso e, se não fosse a fama, se não fosse a Eurovisão que trouxe como consequência a fama, não teria acontecido.

RA: Pois, e tu foste certamente tocar a sítios que nunca imaginaste.
SS: E ainda vou agora em Espanha, vou tocar ao Festival de Jazz de San Sebastian, a Barcelona; ao Palau de la Música de Valéncia. Impensável.

RA: Espanha é importante para ti?
SS: Eu adoro Espanha.

RA: Tens lá colegas que compõem para ti?
SS: Sim, também. Um grande amigo que vem cá, vem visitar-me. É o Leo que é venezuelano mas vive em Barcelona. Tenho lá muitos amigos. Eu comecei a trabalhar na música em bares e restaurantes a cantar com a malta de lá, em Maiorca e Barcelona.

RA: O jazz e a tua irmã foram alicerces muito importantes?!
SS: Ah sim, sim (risos). É engraçado teres posto os dois na mesma frase porque é verdade. As coisas mais importantes para mim foram o jazz e a minha irmã sim.

RA: Sim, tu respiras jazz por todo o lado.
SS: Mas sabes que entrou tarde na minha vida, entrou quando tinha 21 anos com o Chet Baker e fiquei maluco e a partir daí nunca mais deixei de ouvir.

RA: Como é que está o panorama do jazz em Portugal? As pessoas ainda têm visão fechada em relação ao jazz?
SS: No panorama do jazz há ai muito bons músicos. Eu voltei do hospital e já há uma geração nova de putos a tocar muito bem, bateristas, contrabaixistas e o jazz está vivo em Portugal, e há muitas jam sessions e há muita coisa a acontecer. Claro que as pessoas ainda não estão, não é uma música que se ouça muito mas temos de fazer um esforço para chegar às pessoas com esta música.

© Direitos Reservados

RA: Voltando ao Eurofestival.Tu ganhaste por ser a canção mais simples e seres tu mesmo?
SS: A minha teoria é que o que ganha lá é a diferença. Ganha uma mulher com barba num ano, ganha um gajo que tem uma canção bonita, que é muito raro lá pronto. Eu tinha uma canção bonita e ganhei. Este ano ganhou esta miúda esquisitíssima com uns barulhos esquisitos, uma música estranha. É a diferença que ganha.

RA: Sentes-te um pouco aliviado, já não ter esse peso do vencedor?
SS: Sim, super aliviado, sim, sim. Por já ter acabado. E acabou de uma forma lindíssima, foi um fechar de ciclo muito bonito com o Caetano e com o Júlio, foi muito bonito.

RA: Por falar em Caetano, como foi cantar com ele?
SS: Foi muito bom. Ele é um querido, muito humilde. Há aquelas pessoas que têm a manias de “diva” e não são ninguém e de repente vem o Caetano que é o Caetano e não tem nada de manias, zero. Ele nem um telemóvel tem “Eu não tenho celular Salvador. Eu nunca tive celular”. Acho isso incrível.

RA: No teu último concerto de despedida antes da operação sentiste o medo?
SS: Ah, obviamente. Tenho mais medo agora que estou super bem e tenho medo de perder esta… sabes porque na altura estava tão mal, tão cansado que não sentia que tinha muito a perder agora tenho tudo a perder. Estou ótimo, estou saudável, estamos a fazer muita música, está tudo a correr tão bem. Agora sim há coisas a perder, na altura estava tão cansado que pronto.

RA: Agora com um coração novo, emotivamente com é que estás?
SS: Estou super feliz, super motivado e agradecido. Agradecido é uma palavra de ordem. Agradecido a todos: aos médicos, aos enfermeiros, a tudo, à vida no geral.

RA: Resumindo: tu queres é cantar, aquilo que gostas mais de fazer, duma forma super natural não é?
SS: Sim, cantar tudo desde que seja bom e tenha qualidade. Cantar em português, em francês, em espanhol, em inglês. A música é que é importante e cantar com eles, cantar com Alexander Search, há tanta coisa para se fazer, jogar à bola.

© Dmytro Larin

RA: Jogar à bola, Benfica não por favor, eu sei que tu és benfiquista.
SS: (risos) Isso é um bocado indiferente, o futebol. O futebol já é tão feio, o futebol está morto.

RA: O teu trabalho é feito com diálogos com o Júlio Resende numa de “mano a mano”?
SS: Sim, sim, sim. É um estilo mano-a-mano sim. É um mano-a-mano ali com o Júlio. É uma dependência musical positiva porque nós entendemo-nos muito, muito bem os dois. Há ali uma conexão musical brutal e nunca tinha sentido assim, já tinha sentido outras, e sinto com vários músicos outras conexões, mas com ele é assim uma coisa, funde-se perfeitamente e sabemos perfeitamente o que é que um ou outro gosta. Como se fosse uma relação conjugal mas pronto, é uma relação musical.

RA: “Mano a Mano” é a nova música, marca o teu regresso, é o primeiro tema do álbum?
SS: Sim, a minha ideia é lançar um ou dois singles, vou lançar um em espanhol em breve, “Cerca del Mar” e depois de lançar estes três singles, vou lançar o disco, só em janeiro. Não estou com pressa nenhuma, agora que estou a curtir tocar por aí. Eu gosto de tocar (risos), os discos dão-me ansiedade porque eu gosto da nossa comunicação enquanto banda; e no disco, quando estamos a gravar, há sempre uma tensão inerente não é? E também o público, com a sua energia. Eu gosto é disso. Eu tenho muito mais orgulho no disco que fiz ao vivo do que no disco que eu fiz em estúdio. Ao vivo acontecem imensas coisas.
RA: Nas tuas músicas, nas tuas composições, podemos sempre conhecer mais um pouco de ti?
SS: Sim, mas atenção que eu não componho muito. Mas as pessoas que por acaso compõem para mim parece que me percebem bem, como este Gonçalo M. Tavares, portanto acho que se pode dizer que sim, as letras falam sobre mim embora não seja eu que as escreva normalmente.

RA: O que é que significa para ti a noção de liberdade musical ou até o improviso? Tu és um improvisador nato não é?
SS: Sim, sim. Eu adoro. Desde improviso digamos técnico de notas ao improviso de, de repente, começar a gritar uma letra. No outro dia comecei a recitar uma letra e de repente, começamos aos gritos, não sei. Tudo é válido na música.

RA: É fácil editar o improviso em estúdio?
SS: É difícil. Para mim é muito difícil improvisar em estúdio, não o faço muito porque a coisa está mais fechada e depois ao vivo tudo pode acontecer.

…a música portuguesa está viva
e o jazz também

RA: No panorama português, está-se a tratar bem a cultura portuguesa musical no sentido de garantir uma sustentabilidade dentro da música?
SS: Eu acho que sim. No outro dia acordei e tinha saído um single do Janeiro, um single do Tiago Nacarato, um single do Capitão Fausto tudo no mesmo dia e logo dos três que eu adoro na música. Está ótimo, a música portuguesa está viva e o jazz também.

RA: O mercado terá capacidade de absorver todos esses artistas?
SS: Eu espero que sim. Discos não se venderão, discos não se vendem mas acho que sim, que as pessoas gostam cada vez mais de ir a concertos. Era bom que o IVA sobre os bilhetes voltasse ao que era antes não é? Mas pronto. Porque agora está nos 13% ou uma coisa qualquer mas mesmo assim as pessoas estão a ir aos concertos e estão interessadas, e eu sinto-as cada vez mais interessadas. Também esta suposta saída de crise, nunca se sabe, não é? Faz com que as pessoas tenham mais vontade de sair às ruas, serem mais felizes e irem aos concertos.

RA: Salvador, se fosses eleito para o governo, qual seria a tua primeira ordem de trabalho?
SS: Era logo a cultura. Aumentar a fatia do orçamento para a cultura. Se bem que eu não poderia. Só se fosse presidente da república ou primeiro-ministro não sei quem é que trata disso. Se eu estivesse só no governo, se calhar não conseguia mas fazia o máximo de esforços para isso.

RA: E no Canadá? Já estiveste aqui a tocar para a nossa Comunidade? Existem projetos para vires até aqui?
SS: Adorava ir, mas até agora ainda não há nada. Mas tenho esta entrevista, não sei com quem falar, dêem-me o número que eu ligo para ir ao Canadá tocar. Eu gostava muito. Gosto muito mais do Canadá do que dos EUA. Tenho imensos músicos que eu admiro que são canadianos: Joni Mitchell, Patrick Watson, malta que tu pensas que são americanos e não. Leonard Cohen é canadiano. Pensas que são americanos porque deduzes e não, são canadianos. E parece-me que são um bocadinho com menos manias que os americanos, os estado-unidenses. Os canadianos não são tão plásticos, são mais naturais.

RA: Vais ter agora esta tour em Espanha, uma tour intensa, não é? Fica aqui o convite para os nossos promotores que nos vêm e escutam no Canadá para levarem o Salvador à nossa Comunidade.
SS: Claro, fica aqui o convite. Eu sou barato, sou barato (risos)

RA: Salvador, muito obrigado por esta “pequena” entrevista. Pequena apenas em tamanho porque é um privilégio estar aqui a falar contigo. Boa sorte para a tua estrondosa carreira, de coração. Continua com essa simplicidade e sinceridade no palco.
SS: Obrigado, muito obrigado. Um grande abraço para toda a nossa comunidade portuguesa.

Entrevista: Paulo Perdiz

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