Mundo

Cimeira Kim Jong-un & Donald Trump

Mike Trukhachev

Reviravolta histórica ou teatro político?

 

Nestes últimos meses as relações entre os lideres da Coreia do Norte e dos EUA mostravam-se dignas de um reality show, com afirmações descuidadas e ataques através das redes sociais. O resultado resume-se com a cimeira do dia 12 de junho.

De um lado vemos os Estados Unidos a suspender os exercícios militares defensivos com a Coreia do Sul, seja esta a prova de boa-fé para as negociações ou apenas a reafirmação da politica “America First” ao quebrar de certa forma o apoio dado à Coreia do Sul e distanciar-se de uma questão externa. Do outro lado, Kim Jong-un conseguiu construir finalmente um caminho viável para o desenvolvimento de armas nucleares…apesar de feita a promessa para caminhar para a desnuclearização total, a verdade é que não foram definidas datas nem etapas para que isso acontecesse, ficando apenas a promessa feita por um líder questionável.

Direitos Reservados

Com estas negociações, consegue reduzir o risco de um ataque preventivo pelos EUA. E mais importante, desta forma consegue o alivio nas sanções que lhe foram e poderiam ser impostas, que curiosamente é um ponto fundamental para que possa disponibilizar verbas para o desenvolvimento de armas nucleares. Na verdade, o plano para garantir que a economia do seu país não sofria um golpe catastrófico começou quando o seu primeiro encontro como líder foi feito com Xi Jiping. Apesar do tema das armas nucleares da Coreia do Norte ter sido americanizado, a verdade é que a República Popular da China tem um papel muito mais relevante do que aquele que lhe é atribuído, não só é o país que melhor conseguiria impor sanções económicas para afetar o país vizinho. Como por outro lado, é o país que mais tem a perder com a queda do regime que poderia despoletar uma crise de refugiados e uma península coreana unida, nuclearmente armada, mas pró-EUA, com potencialidade para representar uma das maiores ameaças ao regime comunista chinês.

A Coreia do Norte com este suposto ato de boa-fé consegue diminuir a sua imagem de Estado pária e com promessas vagas, desviar a atenção de outros assuntos tão relevantes como as armas nucleares, sendo eles os Direitos Humanos e a falta de liberdade e democracia.

Foi de facto um momento histórico, principalmente para Kim Jong-un que conseguiu o que os seus antecessores não conseguiram – a promessa de retirada das tropas americanas da Coreia do Sul – sem abrir mão do seu bem mais precioso. Pouco será de esperar desta cimeira, mas a verdade é que é difícil ler o panorama internacional quando as personagens principais são dois lideres instáveis. Se um deles (Kim Jong-un) deve ter uma equipa incrível a trabalhar a seu lado para conseguir tanto e dar em troca tão pouco, o outro (Trump) provou mais uma vez ter pouco poder de negociação, seja por falta de conhecimento, de jeito ou por o trabalho em equipa não ser o seu forte.

Apesar do processo de negociação de desarmamento ser um processo demorado e ao inicio, parecer quase sempre inexistente, será difícil acreditar que Kim Jong-un estaria disposto a deixar morrer aquele que para si seria o seu maior legado. Para mim, esta cimeira continua a ser uma manobra de distração e as promessas feitas não terão quaisquer repercussões práticas num futuro próximo e do lado americano, serviu apenas para aumentar o ego do Sr. Presidente.

Inês Carpinteiro

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