Música

AMOR ELECTRO


A melodia é o sentido da alma. O habitante comum que transcende o universo. A música manifesta a arte inumerável, a natureza que alimenta e conserva o mundo. A música transforma ou converte as pessoas, traz ao espírito sentimentos maviosos, envolve o cultivo de um povo, encerra a imponente recompensa. A música é, indubitavelmente, a voz do coração. A conjugação perfeita de todos os verbos.

“A palavra amor presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa. Pode significar afeição, compaixão, inclinação, atração, ou ainda, apetite, paixão, satisfação, conquista, desejo, líbido. O conceito mais popular de amor envolve de um modo geral a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objeto que seja capaz de receber esse comportamento amoroso. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser.” – Amor Electro.

Dois mais um não são três, são quatro. A banda natural de Lisboa está de volta aos discos com “#4”. Os Amor Electro, após cinco anos de interlúdio, a corporação de músicos desenhada por Marisa Liz, Tiago Pais Dias, Rui Rechena, Ricardo Vasconcelos e Mauro Ramos, descobre-se com uma maturidade invejável e com o peito mais aberto ao que é considerado revolucionário, inovador.
O novo trabalho carrega na bagagem onze sonoridades altamente distintas. Onze temas onde o amor volta a embeber na poesia antiga, onde o sentimento de afeição caminha de mãos dadas com a vida de todos os dias.

Pelo meio das cores que destacam a força e o carisma, por tempos indiscutíveis, é imprescindível o ato de revisitar a “Canção de embalar”, de José Afonso; o homem que deu voz à revolução dos cravos de Mil Novecentos e Setenta e Quatro. O homem maior que a intenção, o conceito.
E nos entretantos o propósito de ser. A conformidade agradável de Marisa Liz. O clamor que mostra, uma vez mais, a harmonia eletrizante que absorve a qualidade animalesca, absoluta. E “Juntos somos mais fortes”, o hino entoado a pés juntos, que tão bem nos representa além-fronteiras. O tema que namora a união, que fala sobre fazermos algo por nós, e de nós um caminho que seja limpo, concreto, alinhado com o coração de todos aqueles que nos rodeiam, porque juntos é mais fácil.

O sentido da música em posição de respeito, por caminhos inteiros, arreda as ameaças da destruição, suscita no corpo a consciência e o imediato, com tendões, bicos dos pés, suores alucinados. Quem canta os Amor Electro torna-se, incontestavelmente, o autor e criador da sua própria biografia. E que assim seja, ou amém, o incontornável e sabido “Procura por mim”. Aplaudido com gritos de júbilo e vitória, o atinado, a dança perfeita para um momento a dois. Com letra de Mauro Ramos e música de Tiago Pais Dias. A interpretação equivalente ao êxito vocal de Marisa Liz. Porque o amor sossega a dor.
E quatro o número que se relaciona com a alma, assim como o agitado e forte “Vai dar confusão”. A mistura vintage e impactante de “Sei”, com saída arrebatada de Miguel Pité, e ainda o single de avanço “A miúda do café”, o clássico electro-pop irresistível que promete não deixar ninguém indiferente. Para dançar a plenos pulmões.

O quatro que define características, o melhor caminho a seguir. O quatro que simboliza determinação, dados no chão. O quatro da pop dos anos oitenta. É importante destinar que a maior parte das letras são da autoria do baterista Mauro Ramos e de Marisa Liz, mas há que evidenciar a coautoria do cantor e compositor Fernando Tordo no abalo moral “O nosso amor é uma canção”. Jorge Cruz percorre a vida de “Candeias às avessas”, e Hugo Sá, seguidor da banda que incita “A barca”. O tema nove do álbum pertence ao título “Alternativa”. A alternativa que nos ensina a ser um pouco mais. O texto da humildade, da não perfeição lógica das coisas. A opção entre duas substâncias existe. Por fim, o tema que dá início a um concerto absolutamente extraordinário. Uma experiência absolutamente explosiva
“Vivemos tempos difíceis, mas somos a alma de um povo. Vivemos tempos difíceis, mas derrubamos com tradições. Mas olha para trás e lembra-te que em tempos fomos heróis.” – Amor Electro.

A música dos Amor Electro anula a dor. A banda que é sinónimo de talento, castelo erguido a todo o vapor. O amor que estimula novos caminhos. O electro que renuncia ao conformismo do que mais vende. Os Amor Electro pertencem à geração dos que não sentem vergonha de cantar em português.

Amor Electro. Porque é de amor que se faz gente. Porque em Amor Electro faz-se futuro.

André Marques

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