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Esmolar não ofende

Como em todos os dias de labor, o trânsito pedonal nas “quatro esquinas” mostra-se intenso, como em hora de ponta. Verdadeiramente não sei se poderemos falar de uma hora de ponta na cidade. Pressente-se a urgência de alguns transeuntes no percurso do caminho que os separa de mais um dia de trabalho. Passeiam-se outros, despreocupados. Deixam o olhar preso a um rabo de saia, ou escorregando por uma montra decorada. O cauteleiro abre os pulmões e rasga a claridade da manhã com valentes pregões, repetitivos. Poucos lhe dão atenção. Poucos se convencem da consistência da promessa de uma grande sorte num pequeno retângulo de papel pintalgado de algarismos.

Um corpo imóvel, férreo, enclausurado na memória do tempo e na consistência criativa do escultor. Um corpo assistindo ao corrupio das gentes. Sobre a mesa que lhe suporta o peso da memória estão também os instrumentos da sua labuta criativa, o tinteiro e a caneta, bem como a recriação de alguns dos seus mais conhecidos livros, tesouros da genialidade aquiliniana. Por detrás ergue-se quase um bosque de camélias. Troncos alinhados com o espaço muralhado e com a arquitetura de um verdadeiro mestre; território onde em tempos se realizava o mercado local, hoje espaço de cultura e lazer. Os transeuntes aproximam-se, lacaios de uma indisfarçável curiosidade e vontade de tudo abarcar em abraços fugazes, captando o cenário instantâneo em múltiplas poses. Alheios ao perfil humanista e renovador do escritor. Apartados da mensagem filantropa dos seus múltiplos escritos. E o escritor depressa se torna apenas espetador de uma longa história repetitiva, pedaços insignificantes de vidas apressadas e desprendidas.

Os sons da urbe ora se repetem, ora se renovam. São os sons das histórias, como letras que se unem em frases cantadas. As ruas em movimento são trechos de uma pauta musical. Os sons desarmónicos de uma concertina vão-se prendendo às pessoas, como uma conversa desagradável da qual não conseguimos alcançar o final. Um homem ainda jovem, um jovem adulto como agora se afirma, manobra com desembaraço uma concertina. Mantém a concertina apoiada sobre os joelhos. Na cabeça sustenta um chapéu obscuro, desgastado e triste. As vestes descuidadas aparentam um uso prolongado. Olha em redor enquanto manobra o instrumento musical. A seu lado, mesmo junto ao seu pé direito, mantém-se estático um pequeno cão. Realmente um cão pequeno. O animal segura na boca fechada um cordão que sustenta um copo plástico, uma caixa de esmolas. O cão é o ajudante do músico, como a bengala de um cego apelando à caridade alheia. O animal assemelha-se a uma estátua viva. Reagindo apenas a qualquer moeda lançada para dentro da caixa de esmolar.

– Um cão obediente! Bem treinado!
– Coitadinho do animal. Ainda é pior do que estar preso!
– O animal é inteligente! Não é qualquer um que faz o que ele faz.
– Aquilo é uma tortura. O cão nem se pode mexer!
– Vê lá se deixas o cão mexer-se de vez em quando, ó parvalhão. Quando é que lhe dás de comer? Deixa-me tirar-lhe uma fotografia.

O homem aproxima-se do cão. Coloca-se de cócoras. Aponta a câmara fotográfica ao cão. O clarão do flash surpreende o animal. Reage de forma instintiva, violenta. A caixa de esmolar tomba pelo chão, as parcas moedas rebolando, espalhadas. O cão abocanha o braço nu do homem. O homem desequilibra-se, confuso. O cão mantém-se preso pelos dentes às carnes rasgadas. O homem recupera o equilíbrio mas não a calma, grita, pragueja. Alguns transeuntes riem. Uma menina corre atemorizada. O homem segura com a mão livre o pequeno cão pelo pescoço. O rapaz da concertina encontra-se de pé, gesticulando. O pequeno cão agita-se, os dentes ainda cravados no braço nu. O rapaz da concertina agarra-se ao homem, tropeçam, rebolam pelo chão. O cãozito liberta o braço sangrante do homem … toma a caixa de esmolar nos dentes e retoma a posição … o focinho no ar, olhando os transeuntes … esperando pelo som da concertina e das moedas a pingar na caixa.

Carlos Almeida

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