Filosofia

Os frutos da justiça

Qual uma imensa árvore frutífera, a justiça demonstra obedecer a uma natureza peculiar, cuja missão é dar frutos proporcionais aos cuidados que a cercam através do tempo, fazendo-a se manifestar, paciente e inabalável. O assunto é antigo e problemático, dividindo as pessoas por seus julgamentos neste campo, muitas têm a opinião de que a justiça de fato está presente, outras, no entanto… Mas que tipo de justiça pode, a despeito de certa “demora”, manter-se fiel em seus princípios ao observar quem quer que seja sem fazer distinção? Há mesmo um tipo de justiça que alcance a menor das infrações pessoais ou o mínimo gesto virtuoso e responda invariavelmente à altura, debaixo da clara luz das evidências ou na espessa escuridão do segredo?

Talvez seja o momento de levantar o tocheiro sobre as compreensões de alguns pensadores de considerável estatura intelectual e moral, a fim de estimular a reflexão acerca daquilo que um dia pensaram, e as experiências por nós vividas, desde que as retiremos do baú do esquecimento, numa espécie de exercício que tem por objetivo confrontar teoria e prática:

“Nasce o castigo no momento mesmo em que nasce o pecado.”, Hesíodo (770-700 a.C.); “O castigo segue de perto o pecado.”, Platão (428-347); “O primeiro castigo do culpado está em não poder absolver-se a seus próprios olhos.”, Epicuro (341-270 a.C.); “Tal o efeito maravilhoso e irresistível da consciência, obriga-nos a nos denunciarmos, a combatermo-nos a nós mesmos.” Montaigne (1533-1592); “O crime e a punição nascem do mesmo tronco. A punição é um fruto que, sem suspeita, amadurece dentro da flor que a escondia. Causa e efeito, meios e fins, semente e frutos não podem ser separados, pois o efeito já viceja na causa, o fim preexiste nos meios, o fruto na semente.” Emerson (1803-1882).

O que pretenderam provocar tais personagens das páginas dos importantes livros da filosofia e da ciência? Que razões os levaram a concluir de modo essencialmente tão próximo as questões básicas acerca da justiça? Você já observou ou experimentou algo relacionado? Ligou um ponto a outro, ainda que estivessem distantes no tempo, quer dizer, entre uma causa e um provável efeito? Talvez nos “esqueçamos” de muitas coisas, mas elas talvez não nos esqueçam…
Ousemos perguntar: não é a semente da justiça a nos habitar por toda a vida, resultando nos frutos que surpreendem pela falta de conexão entre uma ponta e outra do conjunto que une causa e efeito? Ignorar algo impede a sua existência? Não vemos uma colossal parcela de tudo o que nos cerca, porém ela está ali funcionando na doce quietude da desatenção… Borbulhantes transformações biológicas nos rondam todo instante, por exemplo, mas a sensação que temos é a de marasmo em boa parte da jornada vital, queixamo-nos por tal razão inclusive. Mas não perceber, não equivale a inexistir na balança que media o saber e o desconhecimento…

O que as antigas ponderações sobre a justiça querem nos dizer? É possível apenas ouvir e esquecer conveniente e rapidamente? Ou há uma rica brecha no pensamento, aguardando a fervorosa vontade de entender com profundidade, aliando os registros alheios à vivência íntima a respeito da existência da justiça? Por que o sábio – e escravo do abominável Epafrodito, secretário do imperador Nero – filósofo Epicteto (55-135), escreveu, dentre tantas outras maravilhas: “A maioria das pessoas não se dá conta de que tanto o auxílio como o prejuízo pessoais vêm de dentro de nós mesmos.”? Seriam os frutos da justiça?

Armando Correa de Siqueira Neto

Psicólogo e Mestre em Liderança

2,845 total views, 88 views today

Tags
Close
Close