Crónicas

Francisca Cunha: A dança no corpo

Mil Novecentos e Noventa e Dois. Um ano bissexto do século vinte. O ano da emissão de novos canais de televisão portugueses. O ano internacional do espaço, pela ONU (Organização das Nações Unidas). O ano de “Vem Dançar Comigo”, o filme que emergiu na Austrália, com direção de Baz Luhrmann; um dos maiores cineastas da atualidade. Por entre inúmeros afazeres. O ano da vinda ao mundo de Francisca Cunha. E Cunha a palavra que entra no verso só para lhe completar a medida, segundo o dicionário Priberam.

Francisca Cunha é uma das grandes promessas da dança em Portugal, com projeção pelo mundo. O vigor do corpo, a suavização das veias circundantes, as flores iluminadas e todos os movimentos previamente estabelecidos, ou arvorados. A inevitável explosão de sentimentos manifestos. O deixar crescer, asseverar, garantir.

A dança ensina-nos a desprender os desgostos inveterados da vida. Da vida das gentes, o picar as amarras. A menina que tem o mesmo significado que talento. Um engenho que merece ser partilhado pelos quatro cantos do planeta; o astro que gira à volta do sol. Desde o sair do ventre, ao astro de primeira ordem. Com apenas vinte e seis anos, sonhadora, intuitiva, e ao mesmo tempo frágil. Francisca Cunha encerra uma exímia capacidade de reflexão e formação de ideias; através das ruas, dos eventos enobrecidos, da seriedade feita com arte. A destreza de escrever com o corpo, a melodia dos abalos emocionais. A poesia corpórea, e há sempre imenso a dizer quando a dança existe, insiste, e persiste.

Por dentro dos dias que correm a favor, podemos vê-la despedir brilho no palco da banda portuguesa Santamaria. A banda que este ano celebra vinte anos de carreira. Os aplausos imensos, os gritos de júbilo, o público extremamente envolvido. O efeito de acontecimentos mágicos a par dos mais diversos espaços disseminados pelo país, muito por culpa do projeto “Sport Danceforkids”, do qual é parte integrante. O trabalho consolidado que se assume como precursor, com rumo às crianças, jovens, e também adultos. O plano perfeito dirigido por Carla Teixeira, que afirma a pés juntos “O céu já não é o limite para este brilhante grupo.” E no que refere ao talento, ou é realizado de forma insigne, ou é infrutuoso trabalhá-lo. O êxito emana da veneração especial, das coisas que merecem acontecer. Haja o que houver.

“A menina dança sozinha por um momento. A menina dança sozinha com o vento, com o ar, com o sonho de olhos imensos.” – Um poema de Mário Quintana, fazedor de versos sobressaído em Alegrete, no Rio Grande do Sul.
Francisca Cunha, a servir de epígrafe, incorporou no passado dia treze de julho o espetáculo “The Greatest Show D4KS”, no grande auditório da Exponor, Porto. A magia presente, o tronco humano disposto aos mais carismáticos sentimentos de afeição. O aclamado evento que reuniu um vasto leque de profissionais da dança, onde alunos e professores puderam beber do amor, da entrega, da dedicação, das demonstrações de aprovação. A preconizada contemplação que ainda hoje permanece na memória de todos. A dança, ou o ritmo da vida, que é a mesma coisa. Da epopeia, da série de grandes acontecimentos.

“Passion. Beauty. True Love.”

A menina que não cede ao betacismo, que consiste na troca dos sons “v” por “b”, assemelha-se à ponderação, à precaução. A menina que gosta de “arreganhar a tacha”, que torna viável o “pinchar”. Cada passo é apenas o essencial, que funciona como uma ponte entre o sonho e o encontro. Ao recontro da expressão, que corre, que defronta o súbito, e todos os anseios coloridos; os que escutam e sentem a dança. Da menina e moça, torna-se impossível não sentir a melodia, quando dança dentro dos olhos da paixão, de quem a vê. Como diz Mia Couto “Só quando danço me liberto do tempo; esvoaçam as memórias, levantam voo de mim.” A menina que dança como se ninguém estivesse a fazer por ver, que vem do coração, que chega de braços abertos, que ama sem titubear. É a paixão em movimento.

Francisca Cunha. A menina que não deixa ninguém indiferente, que eleva a dança a um nível de excelência ímpar. Não é uma questão de sorte. Absolutamente. É uma questão de trabalho, demarcar limites, solidez, acreditar, tornar real. Tudo é uma questão, que mais não é uma razão, sobretudo conseguir.

André Marques

Fotografia: Luís Marante (LM – Photography)/ Makeup: Bea Varela

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