Crónicas

Este também é um assunto meu…

Tenho lido e ouvido muitos comentários, nos últimos dias, a dizer que os portugueses não deviam meter-se nas eleições brasileiras, que é assunto que só aos brasileiros diz respeito e que, portanto, devíamo-nos remeter ao nosso papel de observadores silenciosos.

Ouço e leio que quem vive no Brasil é que sabe o que se lá passa; e quem está fora não percebe as nuances da vida política, económica e social brasileira e, portanto, deve abster-se de fazer comentários.
Nada mais errado. Um português, um francês, um argentino, um alemão, um americano, um japonês ou um canadiano, tem todo o direito a viver com intensidade as eleições brasileiras, como viveu com entusiasmo a votação que, nos EUA, elegeu Trump, ou em França conduziu Macron à cadeira do Eliseu e que no Reino Unido levou ao divórcio com a União Europeia.

O mundo hoje é global e os assuntos, até pelas suas implicações transnacionais, pertencem a todos os cidadãos, independentemente da sua localização geográfica.
Por maioria de razão, o que se passa no Brasil afecta e causa emoção aos portugueses, como aos caboverdianos, aos angolanos e a todos os que falam a mesma língua. Ouvimos e dançamos com a música brasileira, conhecemos os seus problemas e alegrias pelas novelas e pelos filmes, lemos os livros com sotaque de autores clássicos e contemporâneos, torcemos pelo verde e amarelo nos campeonatos mundiais e trocamos conversas e afectos com brasileiras e brasileiros espalhados pelos quatro cantos do mundo.

As eleições brasileiras dizem-nos, e muito. Pelas suas implicações na geopolítica mundial, pelo efeito de contaminação do discurso político dos seus candidatos e pelo perigo de banalização e disseminação de comportamentos abusivos e atentatórios dos direitos humanos, sobretudo numa época em que as redes sociais transportam, à velocidade da luz, exemplos que não queremos, nem podemos importar.
E, claro, também nos preocupamos com o destino dos milhões de brasileiros que não votaram em Bolsonaro, e também nos que nele votaram.

Temos o direito, sim, de falar e ter opinião sobre as eleições brasileiras. Como temos o direito de falar sobre qualquer assunto que nos interesse, neste mundo global e cada vez mais pequeno. Estamos voltados para o mundo, de portas e janelas abertas, por mais que alguns as queiram fechar!

 

 

Isabel Costa Bordalo é uma jornalista portuguesa que trabalha em Angola. Actualmente é chefe de redacção adjunta do semanário económico Expansão, depois de ter trabalhado no Novo Jornal (pertencente ao mesmo grupo empresarial), como chefe de redacção e como editora.
Como jornalista trabalhou também em Cabo Verde, onde foi correspondente do semanário português Expresso e onde integrou os quadros da Inforpress – Agência de Notícias caboverdiana.
Em Portugal, foi directora do Jornal do Centro, com sede em Viseu, e foi correspondente dos jornais Primeiro de Janeiro, As Beiras e o semanário Expresso.
É licenciada em Estudos Europeus, com especialização em Economia e Sociologia, pela Universidade Aberta, e frequentou o Curso de Comunicação Social, na Escola Superior de Viseu.

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