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“Num copo de vinho…”

Uma conversa com Joaquim Carvalheira sobre um ano agrícola numa vinha

História do Vinho em Portugal – II

A mesa estava repleta de iguarias, a família reunida à volta do lauto repasto. O cordeiro de Deus aguardava nas travessas a sua distribuição pelos comensais famintos, devido ao adiantado da hora. Os pratos da baixela foram enchendo-se de carne, arroz de forno e batata assada dissipando no ar, os aromas característicos desta época de outono. Por sua vez, o vinho posto a respirar algum tempo antes, inebriava o olfato dos convivas. Terminada a refeição, teve início a conversa sobre um ano agrícola numa vinha. Quanto trabalho árduo se encontra num copo de vinho.

Breve História da Quinta do Valdalagea

A Quinta do Valdalagea localiza-se no Baixo Corgo e é composta pelo Valdalagea, os Covais e a Eiró. Esta propriedade está na família dos atuais proprietários, desde o tempo em que a filoxera transformou os extensos vinhedos durienses em autênticos mortórios, a partir de 1867. A família Silveira, com o título de Viscondes de Várzea adquiriram esta propriedade que se encontra no limite da antiga estrada de Armamar até à barca da Régua. Numa das adegas da Eiró podemos encontrar a data de 1875, a qual atesta a sua vetustez. Por seu lado, nos Covais podemos encontrar uma casa apalaçada datada dos inícios do século vinte (1902), o seu lagar de vinho ostenta uma inscrição com as iniciais do trisavó dos atuais proprietários. A Quinta do Valdalagea encerra na sua génese história e tradição.

O meu interlocutor nesta amena cavaqueira dirige os trabalhos agrícolas na Quinta do Valdalagea, situada no Baixo Corgo uma sub-região da Região Demarcada do Douro. Numa propriedade de aproximadamente 50 hectares, a vinha ocupa uma área estimada de 32 hectares. Sobranceira ao rio Douro, os vinhedos vão ganhando altivez desde os 120 até 290 metros de altitude. Esta variável geográfica condiciona de certa maneira a distribuição das castas pela propriedade. Nas áreas de menor altitude os tintos – Touriga Nacional (um terço), Tinto Cão, Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinta Barroca (uma percentagem residual). Nas áreas de maior altitude os brancos – Viusinho, Rabigato e Malvasia Fina. A quinta preservou meio hectare de vinhas velhas para memória futura.
Lá bem no alto da quinta, podemos avistar a margem direita desde da foz do Corgo ao vale do Rodo, uma paisagem deslumbrante em qualquer estação do ano. No inverno as cheias marcam indelevelmente as margens do Douro. O escritor Alves Redol no seu livro Horizonte Cerrado do Ciclo Port Wine – I, descreveu como ninguém uma cheia.

“Vista do Peso, a cheia tornara-se num espectáculo grandioso e dramático, transformando, por inteiro, a bacia da Régua e o vale do Rodo, onde os olhos, habituados ao esplendor de vegetação e cores, horizontes e ondulações, ficavam magoados de desolação. Ali, do Alto, a tragédia fazia-se mais pungente. O Salgueiral era um amontoado estranho de casas que nasciam na águas sangrentas do rio, cujos os limites se alargavam para além da estrada de Lamego, inundando os vinhedos mais rasos, e vindo da outra margem, desde o vale do Rodo, que era agora um braço do Douro, donde surgiam raras copas de árvores e telhados destruídos”.

Ano agrícola numa vinha

O ano agrícola começa em pleno repouso vegetativo entre meados de novembro e finais de fevereiro. No início deste período efetua-se uma pré – poda mecanizada. Segue-se a poda da vinha durante um longo período de tempo.
Ainda durante o repouso vegetativo os trabalhos centram-se na correção ao solo e a replantação. Na replantação utiliza-se o americano da estirpe Montículos. A utilização destes porta enxertos pressupõe menor vigor e não induz a produção tão cedo, mas em contrapartida garante maior longevidade e melhor adaptação à rudeza do solo. Com vista a uma satisfação do mercado, temos feito melhoria de castas através da técnica de reenxertia de garfo. Contrariamente ao que se dizia no passado, a reenxertia devia ser efetuada em repouso vegetativo, chegámos à conclusão que se for feita no arranque do processo vegetativo ou mesmo em plena circulação da seiva, obtém-se maior percentagem de vingamentos. Seguem–se as mondas químicas com produtos sistémicos e residuais. Iniciado os crescimentos ou o processo vegetativo, normalmente nos finais de abril, variando de ano para ano, temos a necessidade de aplicar o primeiro tratamento anti–míldio e anti-oídio. No seguimento deste primeiro tratamento devemos manter um programa de tratamentos que só termina no final de julho, programa esse que está inteiramente dependente das condições atmosféricas.
Normalmente durante o mês de maio fazem-se as despampas e emparas (orientação da vegetação). Findo este processo inicia-se a primeira desponta mecânica dos lançamentos, coincidindo esta tarefa anualmente com o início de junho.

A partir da primeira quinzena de agosto – Nossa Senhora da Assunção – começam os preparativos para a colheita dos brancos, com a recolha de amostras para avaliar o estado de maturação (equilíbrio entre ácidos/açucares e aromas) e assim programar a vindima dos brancos que ocorre antes dos tintos, ultimamente na derradeira semana de agosto. Posteriormente avalia-se o estado de maturação dos tintos, temos que ter em linha de conta os ácidos, os açucares, os aromas e outra variável ainda – a cor e os taninos – procurando atingir o equilíbrio desejável ao tipo de vinho que desejamos vinificar. Depois de analisados os dados disponíveis no boletim analítico e a partir da matéria-prima que temos, define-se a data da colheita e as técnicas de vinificação a aplicar na adega.

A conversa termina como começou, à mesa. Após longos dias de vindima a calcorrear socalcos e entre bardos, a tradição manda que se ofereça a ADIAFA – refeição dada aos trabalhadores depois de concluída a vindima, onde por vezes o proprietário faz um balanço dos trabalhos e coloca um ponto final em mais um ano agrícola.

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