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O espírito de Bocage

Cercado de mistérios, mitos e inverdades, subiu aos céus do infinito, da glória e das saudades, pois seus versos bem rimados, os sonetos variados, fazem dele a audaz figura de poeta tão amante quão ousado, que, em público, aos tantos, cora, e, na intimidade, a alma livre aflora. Quem foi, afinal, Manuel Maria Barbosa du Bocage?

Obviamente não pretendo responder a tal questão, ao menos não na magnitude que ela representa e exige, haja vista os seus biógrafos não se entenderem bem, chegando ao extremo de as pesquisas divergirem acerca do próprio local de nascimento, em Setúbal, Portugal, em 1765. De um lado, a Rua Edmond Bartissol, número 12 (antiga Rua de São Domingos), de outro, o Largo de Santa Maria com a antiga Rua das Canas, atual António Joaquim Granjo.

Bem, dúvidas históricas, interesses turísticos e comerciais à parte, nem sobre o seu fim, em 1805, foi possível atestar a concretude dos ossos, estes, podem estar enterrados em Lisboa, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, quem sabe na Igreja da Memória, ou na cova de número 36 do Cemitério das Mercês, e, ainda, desafortunadamente, talvez em uma vala comum no Cemitério do Alto de São João. O facto é um só, do começo ao fim, o poeta, que viveu até aos quarenta anos (faleceu de um aneurisma na carótida, no Bairro Alto, sob os cuidados da irmã Maria Francisca), deixou a herança de muitos fantasmas, que hoje acenam aqui, amanhã, acolá. Não lhe foi o suficiente o estardalhaço com que se fez anunciar por onde passou, a propósito, um homem do mundo, e até nas terras brasileiras levantou poeira através dos versos satíricos que compôs, além de outros, de elogios e bajulações – não era do seu feitio -, dirigidos ao vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza (o 4º conde de Figueiró), tinham o objetivo de conquistá-lo ao ponto de permitir a sua estada por ali, do muito que gostou, tendo se hospedado na Rua das Violas [atual Teófilo Ottoni], no Rio de Janeiro, mas o plano falhou, e teve de embarcar na nau Nossa Senhora da Vida, chegando a Moçambique, e, em seguida, ao Estado ultramarino português de Goa, na Índia, como guarda-marinha (nomeado pela rainha D. Maria I), em outubro de 1786, atrás da glória épica, qual o admirado Camões, e fugir dos asfixiantes tribunais da inquisição, assim, os novos ares da aventura sopraram à promessa de ir ao encontro do sol da mais elevada importância própria. Deixou a colónia e a alta sociedade fluminense sob as ternas saudades descritas no verso assinado com seu pseudónimo Elmano Sadino [Gertrúria]:

“Pus, finalmente, os pés, onde murmura
O plácido Janeiro, em cuja areia
Jazia entre delícias a ternura”

Lá ficou o seu rastro de noitadas em luxúria, mas nem é preciso se deter a respeito da vida amorosa que o colocou no hall da fama pelas escandalosas e incontáveis conquistas ao longo dos anos de dedicada libertinagem. Todavia note-se que até neste quesito, não se pode atribuir veracidade aos nomes de todas as amantes que desfilaram na passarela íntima de Bocage, ficando, pois, ao encargo da pesquisa séria (e da sorte) se esta ou aquela, de facto, conheceram tão diletos poemas diretamente da fonte, sussurrados ao pé do ouvido… Bocage, portanto, é quase um título de respeito que chega ao entendimento mais pelo pecado do que pela santidade, fazendo-se autoevidente quanto à reputação já difundida. Talvez resida aí uma rara certeza.

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Ah! O respeito, que tão caro lhe custou, e, notoriamente, a passagem pela cadeia do Limoeiro, por comportamentos inadequados e desrespeitosos a serem corrigidos, assim determinado pelo intendente-geral da Polícia Pina Manique (1733-1805), foi a punição mais dolorosa contra a sua liberdade, especialmente a liberdade de expressão, com a qual lutou incansavelmente através da voz e da escrita, com afiada raiva, humor penetrante e gostosa inteligência, ressalve-se devidamente. As suas obras endossam os valores nele contidos. Rebelde e arbitrário ao conformismo e à mediocridade, criticou duramente muitas pessoas, notadamente religiosos e outros poetas, desentendendo-se com os membros da Nova Arcádia, a academia literária de prestígio da qual rompeu sociedade e se afastou rapidamente.

Bocage, “magro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão na altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio, e não pequeno…” em seu autorretrato, a descrição poética do homem que até aos dias de hoje impressiona e é pouco conhecido, relegado às pobres interpretações nascidas no mito e no medo. E, não obstante às dificuldades materiais relacionadas ao homem, escondidas ainda sob o chão da história, eleva-se o seu espírito de poeta aos altos montes da riqueza literária, da criatividade, da ousadia e da liberdade.

 

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