Entrevistas

À conversa com George Pimentel

George Pimentel é considerado o fotógrafo de celebridades mais famoso do Canadá. Já fotografou, de Toronto a Hollywood, todos as estrelas de renome tais como Robert De Niro, Rihanna, Swan Mendes, Lady Gaga,… É visto com frequência nos festivais de cinema, desde Cannes a Veneza, como também em eventos como os Oscares, os Globos de Ouro, a MET Gala, Hollywood Hills ou na mansão de Barbra Streisand.

No dia 23 de março, a Federação de Empresários e Profissionais Luso Canadianos distinguiram George Pimentel com o Professional Excellence Award.

Casado há 22 anos e pai de Jacqueline e Sebastian, George nunca esqueceu que é filho de imigrantes de Rabo de Peixe, São Miguel, Açores, razão pela qual nunca mudou a localização do seu estúdio PC Pimentel, da 1661 Dundas St. W, para uma área mais central da cidade de Toronto. Homem humilde, com os pés bem agarrados ao chão, apesar de se sentir abençoado, soube sempre tirar proveito das oportunidades que a vida lhe proporcionou.
Nascido no Canadá há 51 anos, conheceu a ilha de São Miguel na adolescência, onde passou uma temporada para explorar o que aprendera sobre fotografia na Ryerson University, onde se formou em Artes com Honours BA, documentando tudo o que lhe despertava interesse e apresentou o seu trabalho fotográfico como tese de fim de curso.

Fotografia é um negócio de família que começou com o seu avô em Rabo de Peixe, arte que foi passando de geração até chegar ao George.

A vida de George teve como ponto de viragem, uma altura em que havia mais dúvidas do que certezas sobre que rumo dar à sua vida, quando fotografou Robert De Niro no Toronto Film Festival.

A Getty Images, a maior agência de fotografia a nível mundial, considera George como o seu melhor contribuidor.
Quem quiser ver as fotos, basta ir à procura das revistas Vanity Fair, US Weekly, Hello ou People. George Pimentel tem planeado pelo menos 2 livros, contudo, diz ainda não ter chegado a hora certa. Até lá , vamos-nos orgulhando do sucesso mundial deste luso-canadiano.

Revista Amar: Fale-nos um pouco de si?
George Pimentel: Sou um indíviduo normal de 51 anos, nascido aqui e que foi abençoado em ter pais imigrantes muito trabalhadores. Um indivíduo que de vez enquando tem o privilégio de estar no meio de glamour, mas que quando regressa a casa muda de roupa e vai ao Costco às compras. Sou casado há quase 23 anos, tenho 2 filhos, a Jacqueline e o Sebastian. A minha filha já anda na Ryerson University e o meu filho no liceu. O meu pai tem 85 anos e a minha mãe faleceu aos 65 anos depois de ter perdido a batalha contra o cancro e tenho 4 irmãos. O meu avô, o meu pai e os meus tios já eram fotógrafos, em Rabo de Peixe, S. Miguel, Açores. Quando eles, o meu pai e os meus tios, chegaram aqui em 1965, juntos abriram um estúdio no Kensigton Market, na College St… Entretanto a comunidade começou a crescer e os meus tios decidiram mudar de rumo. O meu pai foi o único que ficou em Toronto e abriu, em 1974, este estúdio porque sabia que a igreja que fica do outro lado da rua era frequentada pelos portugueses. Formei-me na Ryerson University com o Honours BA em Artes.

RA: Qual é a sua relação com os Açores?
GP: Especial. Quando andava na universidade decidi que queria conhecer as minhas raízes e aproveitei para fazer dessa aventura o tema da minha tese no 4º ano. Eu fui durante quase 1 ano para Rabo de Peixe, pela primeira vez! Vivi lá com um tio do meu pai que ficou radiante por me lá ter, por me poder mostrar tudo e eu a documentar tudo que podia. Eu fotografei Vida e Morte… pessoas a namorar, jardins, o mar, pessoas a espreitar à janela, as festas, os agricultores a trabalhar nas terras, velórios em casa, os marinheiros, etc. Foi uma experiência inesquecível.

RA: Qual foi o seu primeiro trabalho com o seu pai?
GP: Foi ali, ao lado da Igreja Sta. Helena. O meu pai virou-se para mim e disse “vai buscar o escadote e a câmara que hoje é a Procissão da Ressureição de Cristo”, nunca me esqueci disso (risos) e continuou “vai para aquela esquina tirar fotos de toda gente” e eu assim fiz. As pessoas e as bandas a passar, e eu em cima do escadote a tirar fotos sem parar. Uma semana depois, antes da missa, o meu pai colou-as a todo o comprimento na parte de fora da janela. As pessoas começaram-se a chegar e a tirá-las da janela e pagavam 5 dólares por cada. E foi assim que tudo começou, é de onde venho.

RA: Que idade tinha?
GP: Provavelmente uns 12 anos.

R. A.: Essa câmara ainda existe?
GP: Com certeza e ainda funciona.

R. A.: Reconheceria alguma dessas pessoas se as visse hoje?
GP: O engraçado é que se ando pela rua ou vou ao Dufferin Mall eu reconheço algumas das pessoas, pelo olhar delas. Eu não me lembro do nome de muitas dessas pessoas, mas sou abordado e relembrado que fui o fotógrafo do casamento dos filhos delas, contam que ainda têm as fotos e até penduradas pela casa. E eu gosto muito de saber isso, do reconhecimento do meu trabalho e que toquei a vida dessas pessoas… é algo muito bonito.

R. A.: Voltaria a esse tempo, dos casamentos e batizados?
GP: As pessoas perguntam-me constantemente isso, inclusivamente celebridades pagariam tudo para eu ir para as Bahamas e eu mando o Sam. Eu não tenho tempo e a minha mentalidade mudou.

Para se tirar uma boa foto basta ter um “bom olho” George Pimentel

R. A.: Qual foi a primeira câmara que comprou?
GP: Ó meu Deus… a primeira câmara que comprei era digital, uma Nikon D1X que custou 6.000 dólares, naquele tempo foi muito dinheiro, mas era um investimento que compensou, eu reavi esse dinheiro. E ainda a tenho. Mas deixa-me dizer-lhe isto, esta coisa da tecnologia das câmaras digitais estar constantemente a melhorar, eu já não acredito nisso. Para se tirar uma boa foto basta ter um “bom olho”.

R. A.: A Nikon é a sua marca predileta?
GP: Não tem a ver com isso… se calhar tem a ver com o facto da minha primeira câmara, oferida pelo meu irmão, tenha sido uma Nikon F com lentes e tudo. Mas eu trabalho com qualquer câmara, a marca não é importante. O que conta são os olhos.

R. A.: Quando é que descobriu que gostava de fotografia?
GP: Quando andava no liceu, na altura de fazer o Livro do Ano. Eu tinha um pouco do meu pai em mim e quando tive que tirar a foto da equipa de basquetebol comecei a pensar “espera lá… são 12 jogadores, eu tenho aqui algo especial…” e fui para os treinos e comecei a fotografá-los durante o treino, a driblar, a fazer afundanços etc. e dizia-lhes para irem ter comigo ao meu cacifo no dia seguinte. Quando chegavam, escolhiam e compravam as fotos que gostavam a 5 dólares cada uma. Depois um professor e outros estudantes vieram-me pedir para tirar fotos nos jogos e fui e depois vendia-as. Foi assim que comecei no mundo do negócio… (risos) Depois vieram as peças de teatro. O professor contava comigo, eu era o fotógrafo, então eu pedi a chave de uma sala escura para poder revelar as fotografias que tirava, eu achava que merecia ter a sala, na minha mente eu sentia-me importante, eu era o “fotógrafo da escola”! Era o meu ego, é doentio mas simultaneamente era a minha motivação. O querer ser conhecido pelo meu trabalho sempre fez parte de mim. Acho que isso não é nada de mal, sou quem sou e gosto de ser reconhecido pelo meu trabalho.

R. A.: Foi bom aluno no liceu?
GP: Fui um péssimo aluno no liceu. Eu não tinha notas boas quando chegou a hora de concorrer para a universidade… andei a tirar cursos no verão e a estudar à noite para melhorar as notas, tinha um portfólio maravilhoso e mesmo assim não entrei na Ryerson University no primeiro ano. No segundo ano também não entre, só consegui na terceira tentativa. A maioria dos jovens provavelmente mudado de curso se não entram à segunda tentativa.

R. A.: Quando acabou o curso sabia o que queria fazer?
GP: Sabia que não queria trabalhar a tempo inteiro a tirar fotos a casamentos, comunhões e batizados. Eu tinha criado um estilo próprio e queria explorá-lo. Sempre que saía de casa levava a câmara comigo.

O melhor conselho do meu pai foi “Se fizeres um bom trabalho, eles voltam-te a chamar” George Pimentel

 

R. A.: Qual foi seu primeiro emprego?
GP: Ainda há pouco tempo perguntaram-me isso. E eu respondi que eu nunca tive um emprego, como por exemplo, no McDonalds. Eu tinha um emprego que era, aqui, a ajudar o meu pai. Eu fiz o meu estágio aqui e o meu pai pagava-me. Eu estive sempre ligado ao negócio da família. Eu cheguei a trabalhar uma vez por semana no Seniors Citizens Dance, a vender as senhas das bebidas, na caixa (risos).

R. A.: Qual foi o melhor conselho que o seu pai lhe deu?
GP: Se fizer um bom trabalho, eles voltam-te a chamar.

R. A.: O que o levou a ser um fotógrafo profissional de celebridade?
GP: O gosto pelo glamour e adoro documentar pessoas bonitas.

R. A.: Quem foi a primeira celebridade que fotografou? E como conseguiu?
GP: O Robert De Niro, numa altura em que andava deprimido porque tinha alguns desentendimentos com o meu pai derivado ao facto de ele não aceitar o que eu queria para o meu futuro, era minha mãe perguntar-me o que eu queria fazer com a minha vida e coisas desse género. Mas uma noite tudo mudou. Como já tinha dito, eu andava com a câmara sempre atrás de mim e eu fui ao TIFF porque sabia que o Robert De Niro, que era a maior estrela de cinema da época, ia estar lá e eu era fã e queria vê-lo. Quando cheguei estavam lá 5 fotógrafos com credências ao peito da mídia. Os seguranças olharam para mim e quando viram a minha câmara assumiram que eu também pertencia à mídia e mandaram-me para junto dos outros. Eu caladinho, fui… (risos) quando chegou a limosine e o Robert De Niro sai para dar os autografos, imagine pessoas a gritar, flashes das câmaras a piscar por todo lado… o meu coração disparou, e ele passou e entrou para dentro. Depois, depois é que foi… a mídia pode ir atrás dele mas eu não, porque não tinha a credencial… pensei “coriscos!!!” (risos) e roí-me de ciúmes, mas tive que ficar cá fora. Depois de esperar muito tempo, comecei a arrumar as minhas coisas e nessa altura começa a haver muita agitação e vejo o publicista a acompanhar o Robert De Niro. Alguns fotógrafos já tinham ido embora, outros ainda estavam lá dentro e eu estava sozinho e eu aproveitei o momento e tirei a foto que mudou a minha vida. Eu fui para casa direitinho ao quarto escuro e revelei a fotografia. Foi nessa noite que descobri o que eu queria fazer com a minha vida.

R. A.: A TIFF é só uma vez por ano, como continuou?
GP: Exatamente e isso começou a deixar-me ansioso. Então decidi ir na semana dos Oscares, em Los Angeles, para casa de um amigo. Eu estava a procurar uma maneira de entrar naquele mundo que me fascinava e fui atrás. Eu precisava de tirar e reunir máximo de fotos que podia e criar uma reputação. E comecei andar pelas ruas e às After Partys a tirar fotos.

R. A.: Através de que revista conseguiu, pela primeira vez, uma credencial e para que evento?
GP: Foi com a Flare Magazine para o TIFF. Pela primeira vez eu era um “deles”, não precisava ficar cá fora 5 horas às espera que aparecessem, eu tinha informações onde eles iam estar e a que horas… andei anos sem nada disto, chegando a estar dependente das informações que os colecionadores de autografos me davam ou de alguns motoristas das limosines, que conhecia dos casamentos portugueses que eu fazia.

R. A.: Já fotografou variedíssimos eventos como os Golden Globes, os Oscares, o Canadian Screen Award, casamentos Reais, enfim a lista é infinita. Qual é o evento que falta na sua lista e que adoraria cobrir?
GP: Um evento que adoraria cobrir? Fotografar Cristiano Ronaldo, nem precisava de ser a jogar, mas se fosse a jogar por Portugal no Europeu ou no Mundial ainda melhor. Fotografar o Cristiano Ronaldo está na minha bucket list (lista de desejos a realizar). e já não tenho muito tempo para o fazer. Adoraria passar uma semana a fotografá-lo e fazer um documentário sobre o Cristiano, seria tipo… “ok, agora já posso morrer”.

R. A.: E uma celebridade de Hollywood?
GP: O Joe Pesci. Ele nunca aparece em lado nenhum. Porém, em outubro, vai estrear The Irishman, um filme da Netflix, em que ele participa. Neste momento já estou em conversações com a Netflix para me dar acesso para o dia da estreia, na passadeira vermelha, que se vai realizar em Nova York.

Eu só queria “o beijo” dos noivos, porque a foto do beijo permanecerá para sempre em revistas, livros, etc George Pimentel

R. A.: Esteve presente nos casamentos reais britânicos, do Guilherme e da Kate e do Henry e da Megan. Qual dos dois foi mais marcante?
GP: Os casamentos foram muito diferentes. O primeiro foi especial… eu não sabia o que esperar e tive muita sorte em ser credenciado pela Maclean’s Magazine… eu nem queria acreditar, mas aceitaram a Maclean’s Magazine porque pertencemos à Commonwealth e não tinham nenhum fotógrafo a representar uma revista canadiana. As coisas acontecem por alguma razão e isto foi sorte. Nós nunca saberemos o desfecho das coisas se não tentarmos. Eles lá nem conheciam a revista, mas eu tirei as fotos e publiquei-as na Getty Images. E foi especial porquê? Porque ali estava eu rodeado de glamour, gente bonita, as carruagens com os cavalos, os dourados, os vermelhos, as cores… é glamour ao mais alto nível. Depois era um momento histórico. Quando chegou a hora de nós, fotógrafos, iremos para o lugar destinado à frente do Palácio de Buckingham, tivemos que dar as nossas credências para serem sorteadas e entraríamos consoante nos chamassem… e eu fui o primeiro! Obviamente que escolhi o melhor lugar, mesmo ao centro do palco. Eu só queria “o beijo” dos noivos, porque a foto do beijo permanecerá para sempre em revistas, em livros etc. Eu tinha em mente que na hora das revistas a nível mundial tivessem que escolher a melhor foto, eu queria essa foto fosse a minha, afinal é o meu trabalho, a fotografia é o meu negócio. E assim foi. Em relação ao segundo casamento… eu conheço a Meghan do tempo que era atriz e viveu aqui, em Toronto, durante 7 anos por causa das gravações da séria televisiva Suits. Foi uma amiga em comum, Jessica Mulroney, que nos apresentou e, ainda quando era uma atriz em ascensão fiz várias sessões fotográficas com ela. De repente ela conhece as pessoas certas e logo a seguir foi apresentada ao príncipe. Quando a data para o casamento foi anunciado eu decidi que queria estar presente. E mais uma vez fui o primeiro. Quando ela estava a passar na carruagem, com o Henry, chamei-a e ela olhou, sorriu e eu registei esse momento!

R. A.: Depois dos Oscar, qual o evento que se segue?
GP: O 7º Canadian Screen Awards. Estamos a construir um “Portrait Studio” no backstage só para mim, onde vou tirar fotos aos vencedores assim que sairem do palco com o respetivo prémio.

R. A.: As fotos que tira são publicadas e vendidas na Getty Images e já fez exposições. Já considerou fazer um livro?
GP: Eu penso muito sobre possíveis projetos e tenho as fotos para isso. Eu quero fazer algo diferente e o meu objetivo é fazer livros, mas acho que ainda não chegou a hora certa porque quero envelhecer um pouco mais. Quero que o meu primeiro livro seja sobre Rabo de Peixe, Ilha de S. Miguel. Talvez eu volte primeiro para ver se consigo encontrar as pessoas que fotografei quando lá estive e fotografá-las outra vez no exato local para fazer um “antes e depois”.

R. A.: Depois dessa primeira viagem à ilha, quantas vezes mais regressou lá? E conhece o continente?
GP: Fui várias vezes. Por acaso já não vou há algum tempo, mas vou este ano com a minha família. O continente eu conheço, a minha esposa é de Porto da Carne, concelho da Guarda.

R. A.: Gosta mais de fotografar no interior ou no exterior?
GP: Sempre no exterior, porque acho aborrecido estar fechado num estúdio a tirar fotos. As pessoas quando estão no interior começam a atuar e perde-se a espontaneidade. Só preciso de 5 segundos… e gosto de captar, nesses 5 segundos, a naturalidade numa foto.

R. A.: Gosta mais de fotos a cor ou a preto e branco?
GP: Fotografias a preto e branco, sempre. As pessoas ficam melhor, parecem mais novas e é clássico.

R. A.: Gosta de usar o Photoshop?
GP: Uso nas fotos tiradas a mim (risos), mas não gosto de o usar no meu trabalho, mas tenho que o fazer. Hoje as fotos das celebridades têm que ser todas trabalhadas, depois enviar para elas e só posso usá-las se forem aprovadas. O caso mais recente foi a Fergie, quiseram ter a certeza que as fotos tinha luz suficiente e disseram que se fosse necessário para eu usar o Photoshop, pois querem perfeição. A parte má das câmaras digitais é que se vê tudo na foto, até coisas que não se veem se estivermos de frente para uma pessoa, daí a necessidade de retocar as fotos.

R. A.: Entre revelar as fotos no quarto escuro ou usar a impressora, qual prefere?
GP: Não há nada como criar magia fotográfica. Tirar 12 fotos sem saber como ficaram ou vão sair as fotografias no monitor da câmara e ver o resultado só depois de reveladas é mágico. Como o rolo era e ainda é caro, tem que se esperar, aproveitar e ter a certeza que aquele é o momento certo, ter a intensidade de luz correta etc. para apertar o botão, se não é um desperdício de dinheiro. Isso fez com que eu ficasse melhor, que o meus olhos ficassem mais fortes e com uma visão profunda. O meu avô só tinha uma fração de tempo para tirar uma foto, ele punha uma substância química numa placa de vidro e deixava secar dentro da câmara no escuro e esperava… as fotografias ficavam tão lindas. Às vezes ter mais significa ter menos. As minhas fotos são simples à minha maneira, não gosto de grandes cenários, de ter muita gente ao meu redor, muito menos que estejam a olhar para o que estou a fazer ou a dizer-me o que fazer… eu gosto de estar sozinho com a pessoa ou pessoas, uma câmara, sem holofotes, sem interferências… o meu estilo é flash na câmara, pedir educadamente se posso tirar uma foto, agradecer e 5 segundos para tirar a foto e foi assim que fotografei o Robert De Niro.

R. A.: Porque nunca mudou a loja daqui da Dundas St. para mais perto do centro da cidade de Toronto?
GP: Uma pergunta muito importante… porque esta loja é quem eu sou e mantem-me com os pés no chão. É fascinante como tanto estou a tirar fotos em Hollywood como estou aqui a tirar uma foto de passaport. Ainda estes dias estive com o Tom Brady e com a Gisele Bündchen. Estou bem assim porque é bom para mim e para o meu cérebro. É importante estar aqui, “descer à terra”… isto é real! Nesta comunidade toda gente se conhece, não há nada como isso.

R. A.: Que reação têm as pessoas quando veem as suas fotos dos famosos expostas na montra?
GP: Eles não acreditam que eu as tenha tirado. Eu tive a foto do casamento real pendurada na montra e numa noite que trabalhei até mais tarde, um casal de meia idade parou à frente da montra a olhar para a foto. Quando eu estava a fechar a porta da loja perguntei “gosta da minha foto?”, a senhora, de braços cruzados retorquiu “como assim?”, e eu “fui eu que tirei esta fotografia”, responde ela “pois, querias!” e seguiram caminho. (risos) Eu segui-os com os olhos e sorri. E isto é bom para mim porque o glamour não é real, é falso e a minha realidade é esta.

… os outros fotógrafos chegaram a dizer que foi um “momento do George e da Gaga” George Pimentel

R. A.: O reconhecimento do seu nome e do seu trabalho são o sonho de muitos, ou seja, ser o fotógrafo solicitado pelas “estrelas” da indústria do cinema, da música etc. Tem noção disso?
GP: Tenho… e sinto-me muito honrado por isso. No dia da estreia do filme “A Star IS Born” no TIFF 2018, a Lady Gaga, que me viu, ainda dentro do carro, na passadeira vermelha com a câmara na mão instruiu os seguranças dela para que quando saísse do carro me deixassem fazer o meu trabalho como eu entendessem. Obviamente que eu não sabia disto. Enquanto todos os outros fotógrafos da passadeira vermelha estavam restritos e atrás da barreira de segurança, eu andava à vontade, nisto a Lady Gaga sai do carro e quando chegou ao pé de mim disse-me que quer tirar o véu… eu pedi para ela esperar, escolhi o momento e comecei a tirar as fotos e ela sempre a olhar para a câmara. Foi fantástico. Mas fiquei um pouco constrangido, porque os outros fotógrafos chegaram a dizer que foi um “momento do George e da Gaga”, inclusive houve alguns a fotografar eu a fotografar.

R. A.: Como se sente em momentos como esse?
GP: Para além de abençoado, sinto-me respeitado e eu trabalhei para chegar a onde cheguei. Para eles, artistas, estes momentos também fazem parte do trabalho deles, então é como um trabalho de equipa. Não olho para eles como vedetas, olho como se fosse o diretor de cinema deles e digo-lhes o que fazer. Não há nada pior para estas pessoas estarem perante um fotógrafo sem saberem o que fazer. Às vezes corre bem outras não.

R. A.: Conhece o preço da fama?
GP: Claro que sim. Quando se chega ao auge, ganham-se inimigos e haters, já recebi ameaças de morte, já tentaram acabar com a minha reputação através de cartas… faz parte.

R. A.: O que o incomoda mais nas pessoas?
GP: Incompetência, não lido bem com isso… eu rodeio-me de pessoas competentes, que sabem o que estão a fazer e que sejam sinceras, se não gasto energia em vão em coisas que não interessam… acredite, não consigo lidar com essas pessoas e certas situações.

R. A.: Tem alguma regra que não quebra por nada?
GP: Tenho. Eu nunca invadi o espaço de ninguém que fotografei. Foi assim que fui educado pelos meus pais.

R. A.: Como que acha das estrelas de Hollywood de hoje?
GP: Eu adoro “Old Hollywood”, as estrelas saiam de casa um primor e preparadas caso aparecesse um fotógrafo. Havia mistério e magia em tudo. Hoje já não é assim, porque as pessoas querem saber como os seus ídolos são no dia-a-dia. Por isso eu gosto de tirar a foto em 5 segundos, mais que isso estraga o momento surpresa.

R. A.: No dia 23 de março, foi reconhecido pela Federação de Empresários e Profissionais Luso–canadianos (FPCBP) com o Professional Excellence Award. O que significou esse reconhecimento?
GP: Foi a maior honra que me podia ter dado. Foi um momento muito especial. Eu nunca tinha sido reconhecido desta forma, e é engraçado que os portugueses foram os primeiros. Eu estava muito orgulhoso em ter o meu pai vivo, comigo e na minha mesa para ouvir o meu discurso de agradecimento que dediquei a ele e entreguei-lho quando o levei a casa. Quando cheguei à minha casa disse à minha esposa, que não esteve presente porque tem um braço partido “estou tão orgulhoso dos portugueses.” Eu tinha ido há muitos anos a uma Gala e eram praticamente só trabalhadores da construção e na altura fiquei preocupado com o futuro académico dos jovens luso-canadianos, porque pensei que os pais não estavam a incentivar os seus filhos a estudar. E conforme fui falando com os bolseiros da Gala da FPCBP percebi que isso não aconteceu, quando me disseram que estavam a tirar mestrados, especialisação, etc. deixou-me impressionado.e extremamente orgulhoso. A nossa comunidade chegou longe e vai ficar ainda melhor. Cheguei à conclusão que só precisamos que nós inspiremos uns aos outros.

R. A.: Gostaria de o convidar uma mensagem.
GP: A mensagem é para o jovens… a fase da adolescência é uma parte muito importante das vossas vidas, os anos no liceu, o baile de finalistas e tudo que esteja relacionado com essa época… divirtam-se, sem serem muito rebeldes ou estúpidos. Aprendam e tenham as vossas primeiras experiências que vão ser recordadas para sempre.

Fotografias © George Pimentel

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