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Alterações climáticas – Part I

A evidência cientifica é clara. O nosso clima está a mudar rapidamente, quer por razões naturais, como e principalmente por exploração humana.

Estudos e projeções apresentam números pouco animadores caso as emissões de gás não sejam severamente reduzidas. As alterações climáticas são já consideradas uma das maiores ameaças a longo prazo que a vida no planeta enfrenta.

Só para dar alguns exemplos, veja esta reportagem (em inglês) sobre a potencial perda de um quarto dos animais terrestres e das plantas até 2050, o que totaliza um milhão de espécies perdidas (1 em cada 10 atualmente existentes).

Veja ainda como o aquecimento global pode provocar 500 mil mortes humanas em igual período, ou como todo o gelo do Ártico já poderá ter derretido por essa altura.

Existem ainda numerosos estudos científicos sobre as alterações climáticas a que pode aceder facilmente através da Internet, oriundos das mais respeitáveis organizações. National Academy of Science, Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), World Meteorological Association (WMO), NASA, e tantas outras.

Todas vão de encontro às mesmas conclusões. O consenso científico é de 97 a 98%.

Mas o objetivo deste artigo não é falar sobre previsões. É falar sobre o que está a acontecer agora. Hoje mesmo.

Não podemos correr o risco da inação: até 2050 alguém há-de resolver, há tempo, ou se calhar já nem estou vivo.

Não podemos, porque já estamos a sofrer os efeitos.

2016 foi o ano mais quente alguma vez registado. O segundo mais quente? Sim, esse mesmo, 2015. E o anterior? 2014… A tendência é clara.

De seguida, vamos abordar o que é o aquecimento global, principal fator das alterações climáticas, e de que forma estas alterações estão a destruir os ecossistemas, em particular a vida selvagem.

DR

O que causa o aquecimento global e quais as suas consequências

O aquecimento global resulta da acumulação de gases de efeito de estufa na nossa atmosfera, em particular o dióxido de carbono e o metano. Podemos pensar nestes gases, quando estão em níveis normais, como uma espécie de cobertor, que mantém o planeta quente e habitável.

O que tem vindo a acontecer nos últimos 200 anos, é que o ser humano aumentou significativamente os níveis destes gases na atmosfera, especialmente com a queima de combustíveis fósseis como o petróleo e o carvão a partir da Revolução Industrial.
Ou seja, é como se tivéssemos adicionado mais um cobertor à nossa atmosfera — e agora o planeta está a ficar demasiado quente por causa disso.
Para complicar o problema, estamos ao mesmo tempo a destruir as nossas florestas. As árvores absorvem naturalmente um dos principais gases do efeito de estufa, o dióxido de carbono, pelo que quanto menos árvores existirem, menos dióxido de carbono é removido da atmosfera.

As consequências do aquecimento global são diversas e afetam toda a vida na Terra.

Subida do nível das águas, oceanos cada mais quentes e ácidos, secas cada vez mais longas, vagas de calor, falta de alimento e água doce, gelo polar a derreter, são apenas algumas.

Um clima a mudar rápido demais

Os animais necessitam de habitats saudáveis e estáveis para poderem viver.

Alterações climáticas naturais, como as que já aconteceram várias vezes na história da Terra, são geralmente graduais e prolongam-se por milhares ou milhões de anos, o que permite aos seres vivos adaptarem-se e evoluírem.

Certamente nem todas as espécies sobrevivem, mas isso é consequência da seleção natural, que nos diz que são as espécies mais fortes (entenda-se, que melhor se adaptam) que sobrevivem.

O que está a ocorrer por intervenção direta do ser humano, é que as alterações são tudo menos graduais.

Tal como pode observar, os níveis de dióxido de carbono na nossa atmosfera, ainda que com altos e baixos, sempre se mantiveram abaixo de um determinado nível (a linha horizontal que cobre desde há 400 mil anos até à atualidade).

Em 1950, pela primeira vez a linha é ultrapassada. E nestas últimas décadas, apresenta uma subida a pique que ultrapassa e muito qualquer outro nível que a atmosfera tenha tido anteriormente.

Uma alteração tão acentuada e em tão pouco tempo, não dá espaço para grandes adaptações, se é que dá para alguma. Por isso mesmo os animais estão a sofrer, alguns de forma grave, o efeito das mudanças climáticas.

Sem um travão, o aquecimento global pode tornar-se no fator mais destrutivo da vida selvagem desde o aparecimento do Homem.

Os quatro pilares de um habitat saudável

1. Temperaturas adequadas
Nenhuma outra região do planeta está a sofrer tanto com o aquecimento global como o Ártico, que está a perder todo o seu gelo.

Os ursos polares são um dos maiores predadores terrestres e necessitam de territórios grandes para caçar e criar os seus filhotes. Com o derretimento do gelo, os territórios destes animais são cada vez mais diminutos.

A subida da temperatura da água provoca o declínio das populações de trutas, salmões e muitas outras espécies que necessitam de água gelada para sobreviver. Estes peixes crescem mais devagar, o nível de oxigénio na água é mais baixo e ficam mais suscetíveis a doenças e parasitas.

A subida da temperatura nos oceanos já provocou graves danos nos recifes de corais, que servem de casa e proteção a diversas espécies de peixes e plantas. Quando um coral morre, todo o ecossistema que ele suporta também desaparece.

2. Água doce
Grandes cheias aumentam os níveis de erosão das rochas, o que diminui a qualidade da água e afeta os habitats aquáticos.

A alteração do padrão das chuvas está a levar à construção de barragens em zonas que afetam tanto peixes como mamíferos, que anualmente migram pelos rios acima.

Seca extrema é fatal para as plantas, das quais os animais selvagens dependem para se alimentar e encontrar abrigo.

A seca também priva os animais de terem acesso à água. Um único elefante necessita de até 300 litros de água por dia, só para beber.

3. Fontes de alimento
O alimento disponível para as espécies migratórias é alterado. As aves, por exemplo, chegam ao seu destino no tempo certo para encontrarem insetos, sementes e plantas com flor.
Devido à subida das temperaturas, essas fontes de alimento dispersaram-se mais cedo ou não chegam sequer a nascer / florescer.

Invernos amenos levam os alimentos previamente armazenados por diversos animais a estragarem-se. Esses animais, que dependem do seu próprio armazém de comida, ficam assim sem sustento.

As populações de krill, que servem de fonte de alimentação para diversos animais tais como baleias, focas, pinguins, lulas, vários peixes e aves marinhas, estão a diminuir. As emissões de dióxido de carbono e acidificação do oceano são fatais para os seus ovos, que não chegam a eclodir.

4. Território para criar os filhotes
Algumas espécies de aves migratórias chegam aos territórios de nidificação e põem os seus ovos mais cedo do que o normal.

As focas-aneladas dependem quase exclusivamente do gelo ártico para viver e se reproduzir, pelo que são naturalmente afetadas pelo derretimento polar. Além disso, a queda de menos neve leva as focas bebés a saírem prematuramente das suas tocas, numa fase em que ainda não estão preparadas para sobreviver ao ar livre.

Espécies migratórias e outros animais que dependem de pantanais são afetadas pela seca e perdem o seu habitat essencial para se reproduzirem.

O aumento do nível das águas do mar e as alterações de salinidade são uma ameaça para os manguezais (florestas de mangue), o que deixa muitos peixes, moluscos, crustáceos e outros animais sem território para se reproduzir ou sequer se alimentar.

Os ninhos das tartarugas marinhas estão em perigo caso o nível das águas suba. Uma subida de 50 centímetros já colocaria em risco os ninhos em 30% das praias das Caraíbas.

Carlos Gandra

Mundo dos Animais


O presente artigo continuará na próxima edição, com a análise das principais espécies de animais afetadas pelas alterações climáticas.

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