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Luísa Todi – A música lírica que invadiu a Europa

“Quem esperar a perfeição na arte, não pode escolher mais belo modelo” publicou uma revista russa à época das apresentações feitas pela meio-soprano portuguesa Luísa Rosa de Aguiar Todi (1753-1833), a cantora lírica que encantou o público e a imperatriz Catarina II, a Grande, em São Petersburgo, e os grandes centros europeus.

Viveu durante três anos na Rússia, sob os holofotes da glória e da admiração da imperatriz (aproximação mediada pelo crítico de música da Baviera Barão Friedrich Melchior von Grimm) que a presenteou com joias imodestas. Era uma vida de princesa ao lado do marido, o violinista italiano Francesco Saverio Todi (1745-1803), “sem olhar as despesas”, pois, tamanha foi a retribuição material diante do celestial lirismo de tão aclamada diva lusitana.

Os periódicos não se cansavam de enaltecê-la, e assim declarou o ‘Le Mercure de France’: “uma voz vasta, impressionante”, e, ainda, “transformou a sua voz em lágrima, e todo o teatro chorava”, na reafirmação descritiva do Dr. Salgado Matos, ex-presidente do Teatro Nacional de São Carlos, de Lisboa. Anos mais tarde, após o seu falecimento, o seu talento ecoava em outras tantas matérias de interesse artístico e cultural, como bem registrou-se em ‘A Arte Musical’, Ano V, Número 117, do começo do século XX. O seu talento ultrapassou claramente os limites nos palcos por onde tal voz marcante arrancou aplausos e suspiros.
Luísa Todi nasceu na deliciosa Costa Azul, onde se situa a cidade portuária de Setúbal, cuja península faz um par romântico com o Rio Sado, via importante do comércio que entrou para a história lusitana, parte do glorioso Império Romano. Ali, na pacata Rua da Brasileira, número 51, na Nossa Senhora da Anunciada.

A menina de futura voz dourada, filha de Ana Joaquina de Almeida e do professor de música Manuel José de Aguiar, já aos catorze anos, iniciou as atividades nas óperas cômicas do Teatro do Conde de Soure, no Bairro Alto da então Lisboa pombalina, local onde foram apresentadas as famosas óperas dos bonecos de António José da Silva. Havia uma intensa atividade teatral no Bairro Alto, com casas que disputavam acirradamente entre si o público, e é possível sugerir que foi um período de considerável glória, pois até o rei D. José I frequentou a região no final de ano de 1765, ao menos três vezes, e no ano seguinte, em abril e em junho (dentre outras vezes), usando o camarote real ricamente adornado por cortinas de veludo e insígnias, uma verdadeira pompa aquela atmosfera cultural. O talento e a relevância artística andavam de mãos dadas na afortunada avenida do porvir, tudo era luz, tudo fez-se claridade às oportunidades que se abriam como portas de otimismo e favorecimento.
Em 1769 casou-se com o também compositor Francesco Saverio Todi, na Igreja das Mercês, em Lisboa. Tiveram seis filhos: João, Ana José, Maria Clara, Francisco Xavier, Adelaide e Leopoldo. O marido estimulou-a a aprender canto com o renomado mestre de capela da corte portuguesa David Perez. Dois anos depois, já se apresentou à realeza de Portugal, e na cidade do Porto. Em 1777, ainda precisando de maior segurança no palco, e de alguns ajustes à voz, foi razoavelmente recebida pelos ingleses, que a aplaudiram com pouco entusiasmo e boa dose de crítica desfavorável. Tomada então de um forte sentimento de elevação, busca o seu desenvolvimento e ultrapassa-se em qualidade, sendo aclamada à altura das divas, no Teatro Régio de Turim, na Itália, em 1780, assinando, em decorrência do sucesso, o contrato como prima-dona. A joia lapidada reluzia com a admiração dos muitos fãs e dos empresários artísticos.

Áustria, Alemanha, Rússia, Portugal, Itália, Inglaterra (desta vez arrebatou estrondosamente a todos, virando a página daquele desagradável episódio londrino) e tantos outros grandes centros europeus passaram a disputá-la, desejando-a nos seus refinados palcos. A estrela assumiu o seu lugar naqueles céus de prestígio. Ela falava francês, italiano e o alemão com fluência, era culta, e tocava piano, era, pois, encantadoramente especial.
Após mais de vinte anos de carreira, retornou à sua terra natal, e em 1803, o seu marido faleceu, levando-a a se aposentar e a recolher-se – em suas roupas de luto até ao fim –, tendo passado por dificuldades financeiras (fruto, especialmente, dos bens que perdeu na tentativa de fuga diante da segunda invasão francesa), além da cegueira da qual foi acometida. Vítima, então, de um acidente vascular cerebral, morreu, aos 80 anos, na última residência, localizada na Travessa da Estrela (atual Rua Luísa Todi), na lisboeta Freguesia da Encarnação.

A grande voz portuguesa de mezzosoprano deixou rica memória aos pesquisadores e aos admiradores póstumos, que nela podem enxergar o valor do esforço, da coragem e, vale a pena ressaltar, da imagem feminina que se destacou em sociedades de grande vulto masculino. Uma mulher, por assim dizer, com personalidade vivamente marcante.

Armando Correa de Siqueira Neto

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