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Alma cigana

Lençóis bordados a crivo, mantas de lã pura de ovelha, cafeteiras de cobre dourado, cadeiras de buinho ou uma das camas de ferro em caracol dos quartos do monte, nada disso me coube em herança de minha avó. Inácia Dolores deixou-me um legado menos palpável e bem mais duradouro.

Com residência em três continentes, e sentindo-me canadiana, brasileira e portuguesa conforme o país em que me encontro, associo esse bem-estar à maneira de ser da minha avó materna. Ouvi-a com muita atenção e curiosidade, quando me contava histórias e, sem me aperceber, cedo associei viajar com descobertas de mundos maravilhosos.

A minha avó materna nasceu no interior do Baixo Alentejo, monte dos Viseus, freguesia de Santa Bárbara de Padrões, concelho de Castro Verde. Camponesa iletrada labutou sob a intempérie do clima alentejano de invernos frios e verões escaldantes. As longas caminhadas a mondar e ceifar nas planícies e outeiros, que se estendem de Castro Verde a Beja deram-lhe ensejos de múltiplos encontros com famílias de ciganos que, barulhentos e alegres, se deslocavam de carroça.

“Tenho tanta pena de não ter nascido cigana”, confessou-me repetidas vezes, era eu ainda pequena. E contava-me que os ciganos viajavam por muitas terras, conheciam outros países, falavam uma língua que lhes permitia atravessar fronteiras e serem entendidos em toda a parte.

Gostava de ser cigana e poder descobrir outras terras.

Mãe de três filhos, certamente os influenciou a alargar os seus horizontes. Todos deixaram o Alentejo. A mais velha foi para o vizinho Algarve, os outros, um pouco mais afoitos, fixaram residência em Almada. A avó adorava apanhar o cacilheiro, atravessar o Tejo, passear em Lisboa, ir a Sintra e a Cascais. Nunca recusava um convite para sair, não acusava qualquer fadiga mesmo no fim de um longo dia. Um dos seus passeios mais frequentes era caminhar até à estátua do Cristo-Rei e dali olhar Lisboa, branca e luminosa. A alegria que lhe dava passear era contagiante.

Tornei-me viajante quando em Portugal eram raras as meninas da minha idade que viajavam sozinhas. Fui desencorajada pela família, ostracizada por colegas cujos pais as proibiam de se darem comigo, moça atrevida que viajava sozinha pelo estrangeiro donde trazia ideias modernas e subversivas. A minha avó, no entanto, sempre foi minha aliada. Fascinada, nunca se cansava de ouvir-me contar as aventuras vividas nessa Europa que eu descobria aos poucos e que a deslumbrava. Ela admirava as roupas exóticas indianas, bordadas a missangas e lantejoulas que, nos anos setenta, se compravam em Londres e eram novidade em Portugal. Mostrava-lhe fotografias das catedrais góticas e dos castelos românticos da Alemanha, descrevendo essas belezas com todo o vagar. Dizia-lhe palavras em inglês e em alemão e ela ria, ria, sem entender nada, mas maravilhada por eu saber comunicar com pessoas de países para onde eu ia e vinha de avião, atravessando esses castelos de nuvens onde o seu olhar idealizava sonhos nunca concretizados.

Atribuo à minha avó o gosto de conhecer outras terras, de me ter adaptado facilmente a viver uns anos em África, a permanecer por longos períodos de tempo em continentes como a Ásia e a América Latina. Da minha avó Inácia Dolores, recebi esse modo de estar, sou uma nómada dos nossos tempos, com portátil e malas de viagem, vivendo bem no Brasil, no Canadá e em Portugal.

O monte onde a minha avó nasceu mudou de mãos, da casa onde viveu não resta qualquer vestígio da sua presença. Não sei se algum dos outros netos se lembra dela. A herança que me deixou foi este incontrolável desejo de viajar, a curiosidade de conhecer outras gentes e outras terras, a paixão pelo modo de viver cigano. Sempre que me deslumbro com nova descoberta, intimamente a partilho com essa camponesa alentejana de olhar perdido no horizonte, por onde desapareciam ciganos errantes que a faziam sonhar.

Manuela Marujo

Conto extraído da coletânea Passos de Nossos Avós, 2010 – Aida Baptista e Manuela Marujo

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