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luís Vaz de Camões: O mito e o homem

Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim co’a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; [E] o vivo e puro amor de que sou feito, Como matéria simples busca a forma. Luís de Camões

O século XVI é marcado pela genialidade dos poetas cuja estatura alcança os muitíssimos anos seguintes até a contemporaneidade, e devem, naturalmente, ultrapassar tantos outros, graças ao talento que abrangeu vasto conhecimento cultural e da psicologia humana, e, sobretudo a intimidade com a escrita, o seu muito singular espírito em forma de grafia profundamente incomum. Todavia, tamanha presença se fez ausente às provas materiais que estabelecem e consolidam os fatos biográficos, causando verdadeiras reviravoltas quando se tentou levantar o véu da fantasia poética que cobria a vida do inglês William Shakespeare (1564-1616), e, debaixo do esvoaçante tecido, pouco foi descoberto, formulando a suspeita de que sequer o dramaturgo mais famoso do mundo havia existido. Foi um choque! Um verdadeiro estarrecimento. Por ventura, questionou-se, o autor de ‘Ser ou não ser, eis a questão’ inexistiu? Então, Hamlet, o príncipe dinamarquês, era tão palpável quanto o seu suposto criador? Mas, felizmente, alguns historiadores dedicados trouxeram consistência ao caso e boa possibilidade corpórea ao Shakespeare de sempre.

Não obstante, Portugal parece viver algo similar. Teria o seu ‘príncipe dos poetas’, Luís Vaz de Camões, sido obra que se insere dentro de outra obra, transformando-se em um mito capaz de possuir corpo e alma qual se afigura às nossas mentes sedentas por ver um rosto sempre que as ideias nos chegam abstratamente ao coração? Haviam-no desenhado com os pormenores tanto físicos (cabelos da cor loira arruivada, estatura mediana, cego de um olho em batalha no Norte da África), quanto psicológicos (valente, orgulhoso e inteligente) em tão profunda impressão cultural que se transformou em ninguém menos do que Camões? Pode-se apontar onde nasceu, mas provar… Lisboa, Coimbra, Alenquer, Santarém, e até Chaves, na Espanha (há estudos que sugerem tal imigração familiar galega), por exemplo, e o nascimento em 1524 ou 1525. E quanto ao dito exílio na sedutora vila do Ribatejo, Constância? Casa, jardim e estátua reúnem o arsenal de há considerável tempo. A tradição teria superado a realidade? Uma vez dito – seguida de milhares de outras -, dito está, assim fica… Observe que o seu falecimento, em 1580, é igualmente etéreo, deixando ao futuro a comprovação mais robusta sobre o passado, a confirmação de que na Calçada de Santana, na Freguesia da Pena, em Lisboa, suspirou pela última vez o grande poeta Camões, cujos ossos também não passam sem uma boa dose de desconfiança acerca do seu real paradeiro (na Igreja de Sant’Ana, próximo à residência da mãe, inicialmente) para além do Mosteiro dos Jerônimos, em Belém. Mas a simbologia e o clamor nacional podem muito bem ocupar o espaço das mentes em detrimento das dificuldades ou suposições que rondam o seu herói. As ideias ficam, e são elas que podem nos alcançar quando nos dirigimos ao seu encontro de mentes e braços abertos.

Camões, ao que tudo indica, era o filho de uma família aristocrática, porém de poucas posses financeiras, e realizou os Estudos Superiores em Coimbra, através de um tio prior de um mosteiro. Lutou em Ceuta, o que lhe custou o olho direito em batalha, e possuía vigor para a luta, consideravelmente percebido nas vezes em que se meteu em brigas noturnas (era um boémio) na pujante Lisboa daqueles tempos, tendo, inclusive, sido preso. Conquistou a alcunha de ‘Trinca-fortes’, salientando o lado arruaceiro. O sangue lhe corria efervescente às veias! Seu temperamento colérico impôs-se através dos comportamentos afrontoso.

Para o seu azar (ou sorte, conforme assinalam alguns dos seus estudiosos, por ter refletido profundamente e extraído importantes ideias), quando retornou de Ceuta, em 1552, no dia da Procissão do Corpo de Deus, atirou-se a uma briga em auxílio aos amigos, ferindo levemente com a espada o pescoço de Gonçalo Borges, um servidor da Casa Real – o rei D. João III e a corte estavam em Lisboa – assim sendo, foi preso na Cadeia do Tronco (já demolida), acessível pelo pátio e pelo túnel do Tronco, nas imediações da Rua das Portas de Santo Antão. Amargou nove meses até ser perdoado, tanto pelo ferido quanto pelo rei. Seguiu viagem à Índia e à China, onde se apaixonou por uma nativa de nome Tin Nam Men, a Dinamene poética, descrita, com sofreguidão, em razão de ter morrido no naufrágio que os trazia de volta a Portugal, em 1556. Diz-se que Camões teve de nadar certo trecho com um braço apenas, salvando os manuscritos de ‘Os Lusíadas’ com o outro…

Pouco dinheiro teve ao longo da vida, e muito dependeu dos amigos, e até para comer e se vestir, em certas ocasiões, por eles foi assistido. Reside nas palavras do Frade Carmelita José Índio, que o acompanhou nos momentos finais de vida, o retrato da pobreza: “que cousa mais lastimosa que ver tão grande engenho mal logrado. Eu vi-o morrer num hospital de Lisboa sem ter um lençol com que cobri-se.” Foi um nobre, D. Gonçalves Coutinho, que pagou pela inscrição tumular “Aqui jaz Luís de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu.” O poeta assemelha-se mesmo a uma personagem retirada de epopeias cheias de aventura, emoção e fantasia, mais do que o homem que é homenageado por sua concreta e importante existência.

Ainda, pouco se sabe a respeito das mulheres que o teriam inspirado, as musas que ele fez questão de ocultar, acenando tão somente com as possibilidades deixadas à sua pena sobre o papel: “em várias flamas variamente ardia”. Mas é evidente que idealizava grandemente o amor, elevando-o ao topo celeste da poesia.

Armando Correa de Siqueira Neto

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