Entrevistas

Miguel Oliveira

Chama-se Miguel Oliveira e corre em busca do sonho de um dia ser campeão do mundo de MotoGP. Miguel Oliveira vai estrear-se na categoria rainha na próxima temporada aos comandos de uma KTM. Aos 23 anos, Oliveira chega ao MotoGP é a concretização de um sonho de criança, tornando-se no primeiro português a disputar o principal campeonato do mundo de motociclismo de velocidade. Vai concretizar metas e objectivos mesmo estando na elite dos melhores e levar consigo sempre a bandeira de Portugal.

Revista Amar: Como começou esta paixão pelas motas? Isto é algo que já vem de família..
Miguel Oliveira: Sim, de família. Se o pai é pescador o filho vai acabar por ir também à pesca e isso aconteceu comigo. O meu pai sempre foi muito ligado às motas, ligado às concentrações motards; quando era pequenino ia com ele e lógico que cresci rodeado do mundo do motor e, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde ia acabar em cima de uma mota.

RA: E aprendeste a não desistir até chegar ao momento em que estás atualmente.
MO: É, quando se é pequeno tem-se pouca noção daquilo que é responsabilidade ou se iremos chegar um dia, ou não, a algum lado. Eu não criava muita expectativa para aquilo que ia, simplesmente ia de forma natural, divertia-me; e para mim a adrenalina e a competição estavam-me no sangue portanto dificilmente iria ser preciso um trabalho muito específico para puxar por mim porque eu, de natureza, sempre fui muito competitivo: primeiro comigo mesmo e depois quando entrava em competição com os outros era ainda melhor. Portanto quando se é pequeno percebe-se muito pouco essa responsabilidade.

RA: Como foi a tua primeira corrida e o teu primeiro triunfo?
MO: Não coincidiram os dois (risos) porque demorou muito tempo. O meu primeiro ano de competição foi muito atribulado, eu queria era estar longe de tudo e de todos, aprender a andar de mota sozinho primeiro para depois ir para as corridas. E no meu primeiro ano não tive, de facto, nenhum triunfo mas tive algumas dificuldades que tive de ir ultrapassando com a adaptação à mota, adaptação a tudo. Mas sim, a primeira vez que entrei numa corrida estava muito nervoso (risos). É a única coisa que me recordo porque o resto apagou-se tudo da memória (risos).

RA: E o número 44 acompanha-te desde o princípio não é?
MO: Quase desde o princípio. Eu comecei com o 51, foi o número que eu herdei do meu pai das competições, porque ele corria com o 51 e eu queria também correr com o número do meu pai. Mais tarde, quando comecei a ir para Espanha os números eram sorteados. Nesse fim-de-semana que eu corria em Espanha e em Portugal no domingo, calhou-me um 41 e eu quando vim para Portugal já não tínhamos números um na caixa de ferramentas e colocamos um quatro. Por acaso a prova correu bem e ficou o 44.

Miguel Oliveira

RA: A mota exige muito respeito.
MO: Sim. E para mim desde pequeno, sempre foi algo que impactou muito positivamente na minha vida, o facto de estar num desporto em que se lida com o perigo, se lida com a integridade física também dos outros pilotos e onde há que respeitar as regras da pista. Fez-me crescer e ganhar uma maturidade muito mais rapidamente que miúdos da minha idade que se calhar não a têm por isso mesmo, por o desporto exigir esse nível de respeito e de se lidar com o factor do perigo.

RA: Além do talento é necessário haver, para estas provas, muito instinto e preparação física?
MO: Sim. Preparação física não pode faltar porque é um desporto muito físico; depois claro, um nível de preparação psicológica: estar preparado para a prova, ter a mentalidade correcta para afrontar certos desafios. E depois claro, andar de mota é tudo muito instintivo: advém do treino, advém da repetição e depois levamos tudo ao detalhe. A condução acaba por ser focada apenas no ínfimo detalhe de conseguirmos andar rápido.

RA: Formula 1 do Motociclismo. Qual a sensação? É a sensação de que atingiste um sonho de criança? Estar na Elite dos melhores?
MO: É um sonho tornado realidade. Obviamente que se me dissessem com dez anos, quando eu sonhava com o Moto GP, que iria chegar e iria correr contra o Rossi, se calhar desmaiava não é? Mas o que é facto é que a carreira é construída passo a passo e etapa a etapa vamos concretizando metas, objectivos e essa linha fica cada vez mais ténue entre aquilo que é o sonho e o que poderá ser a realidade concretizada e isso foi acontecendo comigo. Portanto o choque não foi muito grande, finalmente estava num sítio e agora estou no Moto GP. Para algumas pessoas poderá fazer confusão, mas para mim foi um passo natural que sabia que mais cedo ou mais tarde iria ser dado.

RA: Miguel e estar no pódio a ouvir o nosso hino é qualquer coisa de espectacular…
MO: É um momento de glória, é um momento de felicidade porque, no final do dia, é aquilo que eu também represento estando no campeonato do mundo: é uma nação, é um país e ouvir o hino, obviamente que é algo muito pessoal e que toca a todos os portugueses.

RA: Sentes algum tipo de pressão agora que vais para o Moto GP?
MO: Não, a pressão sou unicamente eu que a coloco porque não quero ser apenas mais um, quero ser um dos melhores pilotos do Moto GP e para isso foco-me no meu trabalho e naquilo que é o meu dia-a-dia, a minha preparação, adapto bem a minha expectativa à realidade das minhas circunstâncias (estar numa equipa nova com uma mota recente), adaptar-me a uma nova categoria. Portanto, não poderei dizer que serei campeão do mundo já no próximo ano mas o objetivo é esse.

RA: Já andaste na nova mota? Qual a sensação de andar num “avião” daqueles?
MO: Sim, já realizamos testes. É uma boa sensação. Foi como disse há pouco: é um passo que também é natural, existem coisas novas a que nos temos de adaptar. É lógico que é um grande “avião”, é uma mota que anda muito, tem muita complexidade eletrónica e é preciso entender como utilizá-la ao nível da minha condução. Mas agora é uma curva de progressão ascendente, espero eu, e trabalhar no bom sentido para o mais cedo possível poder dominar a mota que eu tenho nas mãos.

RA: Podemos chamar-te o “Valentino Rossi” português? É o teu ídolo não é?
MO: Sim, talvez (risos). Sim, foi uma referência para mim, fez-me olhar para o Moto GP portanto é inevitável dizer que o Rossi impactou muito positivamente na minha vida, é uma pessoa que eu modelei durante o meu início de carreira e que olhei muito e pelo qual tenho grande admiração.

RA: Para terminar, vais andar, no futuro, a muitos km/h cheio de felicidade?
MO: Sim, este desporto para mim é aquilo que me causa muita felicidade. É lógico que com alguns momentos menos bons mas é um desporto no qual eu sinto grande alegria ao fazê-lo. No dia em que já não me divertir ou no dia em que não ficar nervoso para uma prova, é dia de arrumar as luvas e fazer outra coisa, acabar a dentária e vir arrancar dentes (risos).

Paulo Perdiz

MDC Media Group

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