Solidariedade

Sem Fronteiras – Without Borders

Quantas vezes procuro a génese da violência nos seres humanos, será algo intrínseco, um instinto de sobrevivência inato a todos os seres? Contudo mais refinado no Homem. Como seres racionais, bastaria racionalizar a ameaça, argumentar com o agressor, por forma a entabular uma conversa civilizada, sem uso da violência, não custa certamente aceitar essa impossibilidade nos demais seres vivos, mas no Homem! Passados todos estes milhões de anos, a espécie confirmou em parte, a teoria da evolução darwinista, em que as espécies mais fortes derrotaram os mais fracos, e que a seleção natural observada na natureza, as variações casuais que aparecem nos organismos, aumentam as suas probabilidades de sobrevivência e reprodução. A adaptação das espécies ao meio envolvente possibilitou esta evolução até ao presente momento, as espécies que possuem as características mais “favoráveis” têm mais possibilidade de sobrevivência.

DR

Como explicar então, os comportamentos mais agressivos, a pouca assertividade, no limite a prevalência do instinto animal primário?

Desde os primórdios, esse instinto serviu para sobreviver, bem como se transformou numa forma de poder, manifestação de superioridade física, entre iguais. A luta pela posse do alimento, por vezes escasso, gerou conflitos entre as primeiras comunidades recoletoras, entre o Homem e os restantes animais. A posse e o domínio dos territórios, a causa primordial dos primeiros conflitos entre os humanos. A delimitação do espaço vital, a assunção da propriedade individual como algo inalienável, consagrou e potenciou o desencadear da violência humana. Murado o primeiro pedaço de terra, surge pela primeira vez um novo conceito, a propriedade, sendo motivo de conflito e disputa entre os homens.

Na atualidade, esse sentimento de posse mais alargado materializa-se cada vez mais na necessidade surpreendente de certos países levantarem muros convencionais e não convencionais entre eles e os seus vizinhos, herança ancestral desses nossos antepassados. Basta viajar pelo mundo, de norte para sul e de este para oeste, para sentir a demarcação subtil, por vezes, serpenteada a arame farpado noutros casos, das fronteiras impostas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, uns a favor da livre circulação, outros preferem os vistos de entrada, seletivos nas admissões, em que a nacionalidade, a etnia, a religião, a ideologia política são critérios de admissão ou rejeição.

Ao longo da história da Humanidade, o homem construiu demasiados muros entre os povos da Terra, poderíamos enumerar uma lista de muros e fronteiras, a Grande Muralha da China, o Muro de Berlim, o paralelo 38 entre as Coreias, a fronteira de Caxemira entre a Índia e o Paquistão, a fronteira em Belfast na Irlanda do Norte que está de volta com Brexit, no Sara Ocidental em Marrocos, as cercas no norte de África entre Marrocos e Espanha, o muro de contenção cercando a Faixa de Gaza na Palestina, a fronteira de Gaza com o Egito. E que dizer da vergonha de Calais, no extremo oriente a fronteira entre Hong Kong e a República Popular da China. Uma lista interminável acrescentada todos os dias.

Carlos Cruchinho

Em janeiro tive a oportunidade de cruzar a “linha verde ” com mais de 45 anos, a última fronteira que divide a cidade de Nicósia, em Chipre, pertencente à União Europeia. Após um longo voo com escala em Viena, o avião fez-se à pista no aeroporto de Larnaca por volta das 20h30m, chegados ao parque de estacionamento impossível não vislumbrar ao longe na montanha, a bandeira intermitente da Turquia. Os nossos anfitriões rapidamente nos esclareceram a situação geopolítica da ilha, bem como os constrangimentos de circulação entre o sul e o norte ocupado da ilha.

Carlos Cruchinho

Em síntese a República de Chipre é membro da União Europeia desde 1 maio 2004, reivindica exercer a soberania sobre toda a ilha, mas na prática apenas controla a parte sul (57,3% do território). A “linha verde” (3,7%) controlada pelas forças de paz da ONU, serve de zona desmilitarizada de contenção. Por sua vez, a parte norte (36,3% do território ocupado pelo exército turco desde 1974, inclui parte da capital Nicósia) da autoproclamada República Turca de Chipre do Norte em novembro de 1983, apenas reconhecida pela Turquia.

 

DR

A “linha verde” pode ser cruzada exclusivamente pela “Ledra Palace Check Point”, um local controlado pelas forças de segurança de ambos os lados da ilha e pelos capacetes azuis da ONU. Como estrangeiro ao atravessar o check point senti algum nervosismo, a tensão existente nos olhares das forças de segurança na fronteira, contrastava com a normalidade da travessia dos cipriotas gregos e turcos de uma lado para o outro da fronteira. Esta minha experiência trouxe-me à memória o cruzar da fronteira nos Pirenéus entre França e a Espanha na década de 70 durante as viagens de regresso a Portugal com os meus pais emigrantes.

 

Carlos Cruchinho

Dois mundos totalmente diferentes, a sul uma Nicósia cosmopolita e culturalmente identificada com o ocidente, enquanto a norte uma Nicósia culturalmente mais próximo duma sociedade com pendor islâmico. Os altifalantes instalados no minarete propagam nos céus de Nicósia cinco vezes ao dia, o chamamento para as orações. A sul os templos albergam a ortodoxia da religião, onde os ícones bizantinos exibem a génese do cristianismo.

Uma excelente estadia em terras cipriotas, onde a hospitalidade das gentes se assemelha à hospitalidade portuguesa, marca identitária da cultura mediterrânea comum aos dois povos, onde o valor da paz está sempre presente. A rica e diversificada gastronomia cipriota resulta da influência de todos os povos que interagiram com a ilha. As saladas com queijo Feda, o porco e o frango frito, a pita no kebab ou simples, os molhos de iogurte, sempre acompanhado de vinho ou cerveja.

 

Carlos Cruchinho

Na hora da partida, ao levantar voo novamente a ilha espelhada no mar, ganha a grandeza dos seus antepassados, uma identidade milenar envolta de mediterrâneo. Exibe as suas montanhas agrestes, pontiagudas de arestas, com cicatrizes por sarar neste mártir destino, lido nos oráculos dos deuses do Olimpo. Cercados de verdejantes prados de Esperança, cada dia enfrentado com determinação estoica dos sofredores, resilientes lutadores.
Sem esquecer as memórias recentes da violência inusitada, enfrentam a injustiça de cabeça erguida. O devir será a bonomia das gentesdeixando a infelicidade no passado. esquecido.

A cobertura mediática exacerbada à construção do muro entre os Estados Unidos da América e o México, bem como a última fronteira – o Mediterrâneo – entre a África e a Europa, alimenta o populismo dos líderes de certos países, no enclausuramento de fronteiras neste planeta globalizado. Urge percorrer caminho inverso, à imposição de limites e fronteiras, deveríamos privilegiar o lançamento de pontes de diálogo entre os povos, uma nova pangeia mundial. Essa violência latente em cada fronteira surge como uma reminiscência da ancestral delimitação de território arcaica revisitada nos primórdios da Humanidade. Como seres pensantes deveríamos seguir o exemplo das aves, dos peixes, dos animais nas savanas e estepes, cruzar territórios com naturalidade, sem preconceitos, vistos de entrada ou de saída. Um enorme problema de enclausuramento mental de parte da Humanidade, motivado pela ganância desenfreada e o poder ilimitado. A génese da violência humana assentam nesses dois pilares, duas degenerações da espécie humana.

Carlos Cruchinho

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