Entrevistas

À conversa com Sara Dias

Nasceu em Lisboa, no dia 7 de maio de 1976. Chegou a Toronto, com apenas 2 anos de idade com os pais, José e Manuela e o irmão com 6 anos, Pedro.

Descreve a sua personalidade como sendo meia vianense, por parte do pai e nabantina por parte da mãe.
Formada em Commerce na Rotman School of Managment e pós-graduação em Corporate Social Responsibility and Sustainability, Universidade de Toronto, cedo descobriu que não ambicionava fazer carreira no mundo financeiro.

De pequenina, Sara Dias aprendeu a dar valor às necessidades da vida por influência da mãe, tendo como moto de vida “o ser humano precisa ser visto, ouvido, amado, respeito e viver com dignidade”. Através do voluntariado descobriu a carreira profissional que queria seguir, a Filantropia.

Foi atrás do seu sonho, conciliar a paixão de ajudar o próximo com trabalho. Trabalhou durante 7 anos na Spina Bifida and Hydrocephalus Association e 14 anos no Community Living Mississauga.

Sara Dias é determinada e trabalhadora, compassiva, grata e amável. Gosta de ver o melhor nas pessoas e gostava de um dia deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou.

No papel de mãe, de Kristian (20) e Mateo (14), tem nos filhos a prioridade da sua vida.

Fique a conhecer Sara Dias, a Diretora-Executiva do Magellan Community Charities, uma organização que passou do papel para a realidade, dando agora os primeiros passos, mas prometendo revolucionar o apoio, cuidados e serviços prestados à comunidade lusocanadiana, nomeadamente, aos mais idosos e necessitados. Projeto que abraçou com alma e coração pela avó, pelo pai e por toda a comunidade portuguesa.

Carmo MOnteiro

 

Revista Amar: A Sara nasceu em Lisboa. Considera-se uma lisboeta de gema?
Sara Dias: Não. A minha personalidade tem influências de Viana por parte do meu pai e de Tomar por parte da minha mãe. Lisboa foi só o sítio onde nasci.

RA: Veio para o Canadá ainda pequena. Que memórias tem da chegada a este país que acolheu a família?
SD: Tenho. Em primeiro foi pela maneira como viemos… nós viemos porque o meu irmão tinha tido meningite e o médico disse que ele precisava de um clima frio. Sair de Portugal foi muito difícil para os meus pais, porque eles tinham negócios. Lembro-me que para a minha mãe foi um desgosto, mas por amor a um filho uma mãe e um pai fazem todo. Foi com esse amor e duas malas que chegaram a este país que não conheciam e nem a língua falavam.
Para mim todos os emigrantes que deixam tudo que conhecem para ir para o desconhecido têm que ter muita coragem e muita força dentro deles. Eu não sei se teria a mesma coragem que os meus pais e muitos outros tiveram. Hoje muitos emigrantes que chegam cá pela primeira vez, ficam durante uns meses e vão embora, só depois decidem se voltam para ficar. Os meus pais vieram sem saber nada de nada, não tinham nenhuma informação para além de que seria o país que lhes ia dar uma vida melhor. Em segundo lembro-me de termos chegado em novembro e quando a neve começou a cair eu abria a boca de língua de fora para tentar a apanhar (risos). A terceira memória que tenho é de nós vivermos na Queen St. e nós não tínhamos pão em casa e fui com o meu pai a uma loja, uma convinience store, e o meu pai virou-se para o senhor ao balcão, que era indiano, começou a fazer sinais gestuais de passar manteiga no pão (risos)… o senhor não entendeu nada, o meu pai não dizia uma palavra em inglês e eu comecei a andar à volta das parteleiras e encontrei o pão. E foi assim que vivemos até aprendermos inglês.

RA: Como correu a adaptação a um novo país – com uma língua diferente, com hábitos diferentes?
SD: Como era pequena, os hábitos não eram muitos. Com 2 anos os hábitos eram de mamã, papá, avó e avô. A minha adaptação foi normal, as crianças adaptam-se facilmente a tudo. Já para os meus pais foi mais díficil, mas o meu pai conseguiu logo arranjar trabalho na àrea dele, marcenaria e a minha mãe em menos de 2 anos abriu o salão de cabeleireiro dela na College e Augusta, na época o centro da comunidade portuguesa.

RA: Sei que a sua família se instalou na Augusta – ou seja, na zona da cidade de Toronto onde a comunidade portuguesa estava mais concentrada – esse facto facilitou a integração?
SD: Olhe, eu ser criada na Augusta foi como se diz em inglês “it takes a village to raise a child”. Como a minha mãe estava sempre a trabalhar eu conhecia toda gente… a Dona Arlete da peixaria, a Dona Julieta da padaria e todas as pessoas que tinham negócios. E todos olhavam pelos filhos uns dos outros, éramos uma família, verdadeiramente uma comunidade. As clientes da minha mãe também ajudaram a criar-me, porque se vissem que eu precisava de alguma coisa e a minha mãe estava ocupada com uma cliente, elas vinham ao meu auxílio. Eu fui criada pelos meus pais, mas também pela comunidade portuguesa. Toda gente me conhecia. Quando ia à Dona Arlete buscar o peixe ela dizia “ó Sarinha está aqui um pacote de sugos para ti, leva minha querida”. Como não tínhamos cá mais ninguém foram os meus pais, a Dona Arlete, a Dona Julieta, as clientes, a comunidade que moldaram a pessoa que sou hoje e são a razão pelo qual eu tenho orgulho de ser portuguesa.

RA: Entretanto casou, teve os seus dois filhos e acabou por se divorciar. Que idades tinham os rapazes quando isso aconteceu?
SD: O Kristian tinha 8 anos e o Mateo tinha 2 anos.

RA: A partir daí teve que enfrentar a vida, no dia-a-dia, sozinha. Foi difícil?
SD: Sim e não. Sim, porque foi difícil tomar a decisão quando realizei que não era feliz. Não, porque tive o apoio dos meus pais e sem eles eu não tinha conseguido ir trabalhar e dar-lhes a qualidade de vida que tiveram. Eu devo muito a eles.

RA: Infelizmente isto nem sempre acontece depois da separação ou divórcio entre casais, mas no seu caso o seu ex-marido transformou-se num amigo. Como se consegue? Qual é o segredo?
SD: O segredo de ter uma boa relação com o ex-marido é o amor que se tem pelos filhos acima de tudo. Quando os pais que estão separados ou divorciados falam mal um do outro à frente dos filhos, estão a magoá-los e acho que isso é terrível. Eles são metade da mãe e do pai e amam os pais. Eu quando tinha um problema ou queria chorar… fazia-lo sozinha, telefonava a uma amiga ou ia a um terapeuta, mas à frente dos meus filhos não! Hoje, quando olho para o meu ex-marido bem, os meus filhos estão felizes pelo pai e isso é que é importante. Os meus filhos adoram que conseguimos jantar todos juntos, inclusive com a nova esposa dele, que tem uma filha de 7 anos, na casa dos meus pais. Isto é que é amor pelos filhos, eles estão sempre em primeiro lugar. E agora tenho uma menina com 7 anos na minha vida, que adoro, que não me é nada mas é aos meus filhos, e que me pede para ir fazer manicure e eu levo-a, porque a mãe dela não gosta desta coisas. Quando abrimos os nossos corações tudo é possível.

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RA: Os seus filhos (já deviam ser, mas…) passaram a ser o centro da sua vida?
SD: Sim passaram… e ainda mais depois do meu mais velho ter sido diagnosticado com ADHD – Transtorno de Défice de Atenção e Hiperatividade – e com Dificuldade de Aprendizagem, que me obrigou a travar uma luta com a escola, dar muito apoio ao meu filho para ajudá-lo e tive que ser a voz dele na escola. Pouco tempo depois o meu mais novo também foi diagnosticado com ambas desordens. Eu tive que lhes dar todo o apoio possível para os equipar com as ferramentas próprias para que pudessem e possam ter sucesso na vida. Eu corri tudo, fiz tudo e não tenho qualquer dúvida que faço o melhor que posso por eles. Presentemente, o Kristian está no 3º ano de Direito Humano na especialidade nas Ciências Políticas e Filosofia, pois sonha vir a ser um advogado de Direitos Humano e o Mateo concluiu o liceu com distinção e um prémio em Artes.

RA: Quando era pequena tinha alguma ideia do que gostaria de ser (em termos profissionais) quando fosse adulta?
SD: Sabia que não queria ser cabeleireira (risos)… mas não sabia o que queria ser, porém por causa de algumas coisas que me marcaram e que fazem de mim quem eu sou… o meu destino foi marcado por três razões. Primeiro, saber que nasci com 25 semanas e que disseram à minha mãe para me levar para casa porque não podiam fazer nada por mim e que se eu sobrevivesse ia ficar com deficiência intelectual ou motora e que minha mãe com ajuda de uma enfermeira, que me colocou a sonda para me alimentar, aconchegaram-me com botijas de água quente e estou aqui! Isso quer dizer alguma coisa, não é? A segunda razão foram as gémeas Sandra e Paula que, são da minha idade, foram clientes da minha mãe e eu lembrou-me ajudar a mãe delas a tirá-las do carro e por-las na cadeira de rodas e depois dentro do salão eu ia buscar as minhas bonecas para as distrair para a minha mãe lhes poder cortar o cabelo e isto todos os meses… e marcou-me como é que aquela mãe criava aquelas duas meninas e eu pensava no futuro delas, mas elas estavam sempre a sorrir, felizes e nada as chateava. A terceira também foi quando eu era criança e no salão da minha mãe. Na Brunswick e College havia um área onde as pessoas se sentavam nos bancos e nessa época haviam muitos indígenas sem-abrigo, que iam ao salão da minha mãe para pedir comida porque tinham fome e a minha mãe dizia-me para tirar dinheiro da caixa e mandava-me ao Harvey´s e à padaria comprar-lhes comida e café. Eu trazia tudo e eles comiam dentro do salão, as clientes começavam a reclamar porque eles cheiravam muito mal, mas a minha mãe não os mandava embora e quando acabavam de comer, agradeciam e iam embora. E isto para dizer o quê? A minha mãe dizia “nunca se nega comida a quem tem fome” e que “o ser humano precisa ser visto, ouvido, amado, respeito e viver com dignidade”. Estas palavras da minha mãe ficaram bem vincadas em mim e que explicam o que faço profissionalmente.

RA: Olhando para o seu percurso profissional percebemos que a Sara sempre esteve ligada à área social. Sente-se bem a trabalhar por e para as pessoas?
SD: Eu acho que quando uma pessoa tem uma paixão e a pode conciliar com a carreira profisssional realiza um sonho. Saber que o meu trabalho vai ajudar outras pessoas deixa-me realizada.

RA: Como começou a trabalhar para a Community Living Mississauga?
SD: Tudo começou com a minha mãe a incentivar-me e ao meu irmão a fazer voluntariado. Nas férias de verão do tempo do liceu, fiz voluntariado na Scott Mission, que era uma casa de abrigo para jovens. Através de uma cliente da minha mãe, a sr.ª Jefferson, nas férias de verão do tempo da universidade, fiz voluntariado no hospital, onde a sra. Jefferson era presidente do mesmo. No hospital fui trabalhar para o escritório da sr.ª Jefferson e foi aí que comecei na angariação de fundos. Mais tarde, já estava formada em Commerce e depois de ter trabalhado num banco, decidi que não queria trabalhar nessa área e telefonei à sr.ª Jefferson e desabafei com ela. Ela conhecia alguém na Spina Bifida and Hydrocephalus Association e deram-me trabalho. Fui ocupar uma posição de diretora, graças à minha experiência com a sr.ª Jefferson. Esta organização é provincial e tem 12 escritórios no Ontário, e como fazia parte da gerência, tinha que passar por todos. Naquela época ainda não havia formação ou cursos de Filantropia e tudo o que sabia era baseado na experiência que fui adquirindo. Depois do diagnóstico dos meus filhos eu decidi que estava na hora de mudar e foi quando comecei no Community Living Mississauga, organização sem fins lucrativos que apoia a integração de pessoas com deficiência intelectual na comunidade através de programas e serviços, onde criei o departamento que liderei e onde trabalhei durante 14 anos. Foi muito gratificante poder conciliar a minha paixão de ajudar os outros com o meu trabalho.

Magellan Community Charities

RA: Sei que atualmente está ligada a um novo projeto. Está a ajudar a nascer o Magellan Community Charities. O que significa para si fazer parte desta instituição?
SD: Para mim, o Magellan Community Charities é muito especial, porque também tenho uma avó com 95 anos, que está num lar onde há alguns problemas de comunicação porque ninguém fala português e ninguém a percebe quando tem dores, não tem missa, não convive… dá-me dó vê-la ali. O meu pai foi diagnosticado há 2 anos com Alzheimer e demência e estou a perder o meu pai dia-a-dia, inclusive, há pouco tempo, nem do meu nome se lembrava. Com a Alzheimer o meu pai esqueceu o inglês e só fala português… onde vou pôr o meu pai? E o meu pai e a minha avó não são os únicos. Eles são um exemplo do que está a acontecer no seio da nossa comunidade. Estar com a Magellan é a minha nova paixão, ajudar não só o meu pai e a minha avó, mas todos… ajudar a nossa comunidade, porque se sou quem sou devo isso a ela, à comunidade portuguesa da Augusta. Este projeto é de todos nós. Pertence à comunidade em que acredito e que sabe o que isto vai representar. As famílias que construiram esta comunidade abriram as portas para a nossa geração e para que pudessemos ter as oportunidades que temos tido e agora nós temos a obrigação de retribuir com um centro onde possam ficar e viver com dignidade – jogar sueca uns com os outros, ir à missa, uma cozinha onde possam fazer a sua comida… sejam do norte, centro, sul de Portugal ou de Angola… conviverem na língua que todos entendem, que é a portuguesa! A alegria que vamos dar às pessoas que vão viver no centro é a motivação de todos os que estão envolvidos na realização deste projeto, mas a comunidade tem que se unir e ajudar a levantar as paredes.

RA: A comunidade italiana, chinesa, judaica, etc. têm centros para os seus. Era algo que fazia falta na nossa comunidade?
SD: Sem dúvida alguma.

RA: Na sua opinião pessoal, considerando os mais de 50 anos da chegada da 1ª vaga de emigração portuguesa ao Canadá, porque acha que demorou tanto tempo a chegarmos ao primeiro centro?
SD: As coisas acontecem no seu devido tempo. Talvez foi o destino que ditou o momento certo, e esse momento é agora.

RA: Que posição ocupa no Magellan Community Charities e quais são as suas funções?
SD: Sou diretora executiva e neste momento estou a organizar todos os detalhes para o arranque do projeto.

RA: Quando o projeto foi publicamente anunciado em 2018, algumas perguntas ficaram por responder, como por exemplo, onde o centro iria ser construído. Hoje, o centro já tem morada?
SD: Sim, vai ser na 640 Lansdowne Ave., Toronto, onde ainda se encontra a maior concentração de portugueses e o terreno foi disponibilizado pela Câmara de Toronto.

RA: E em que ponto se encontra o projeto?
SD: Já temos a planta do edifício e há muitos pontos definidos e outros que estão encaminhados, mas que serão revelados no momento certo, ou seja, quando tivermos resposta para todas as perguntas.

RA: Está prevista alguma conferência de imprensa para breve?
SD: Sim, será em setembro… não há pressa, porque quando o fizermos queremos responder com confiança a todas as perguntas com respostas concretas.

Carmo Monteiro

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