PortugalTurismo

Visitar Portugal com um sorriso nos lábios

DR

Numa época marcada pelos momentos de descanso e reflexão sobre mais um ano transcorrido no calendário da saudade, as comunidades portugueses espalhadas pela mundo, anseiam pela chegada ao torrão natal de carro, comboio ou avião. Onze meses intensos de trabalho nos seus países de acolhimento, com o corpo lá e a alma cá. Nestes dias, os lugarejos, as aldeias, as praias e os areais enchem-se de animação, cores berrantes e no ar ouvem-se todo o género de poliglotas. A intensidade de viver o verão, cega os filhos da terra, mal reparam nas melhorias em cada recanto deste jardim à beira mar plantado.

Carlos Cruchinho

O sorriso dos anfitriões mantem-se como marca identitária deste povo hospitaleiro crónico.
Ao escrever estas linhas pretendo sugerir que nesses dias estivais, os emigrantes disfrutem do sol da praia, o sossego da montanha, saboreiem as iguarias da gastronomia e dos bons vinhos sem excessos, para uma estadia sem incidentes. Contudo deixo pistas para visitar Portugal com um sorriso nos lábios, um itinerário diferenciado à beira mar do Centro para Sul, com pequenas incursões pela literatura e cultura portuguesa.

Com vista privilegiada para a Ria de Aveiro, o Jardim de Oudinot, “Situado na “ponta norte” do Canal de Mira, numa relação privilegiada entre a terra e a Ria, o Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, é atualmente um dos melhores e mais aprazíveis espaços públicos da região, dotado de um vasto conjunto de valências desportivas e recreativas, espalhadas por onze hectares onde também é possível encontrar uma Praia Fluvial e um dos ex-libris do Município, o Navio Museu Santo André.
Fez parte da frota portuguesa do bacalhau e pretende ilustrar as artes do arrasto. Este arrastão lateral (ou “clássico”) nasceu em 1948, na Holanda, por encomenda da Empresa de Pesca de Aveiro.”

www.museumaritimo.cm-ilhavo.pt/pages/3

Antes de regressar a casa, aconselha-se um fim de tarde a saborear uma boa merenda num dos relvados do Jardim de Oudinot, com o pôr do sol como companhia. Outra sugestão seria jantar o fiel amigo no Festival do Bacalhau que decorrerá entre os dias 7 e 11 de agosto.
A cada regresso à sua terra, cada um relembra a decisão e as razões da partida. Como escreveu Ferreira Castro no seu livro Emigrantes, cada um revisitado no personagem Manuel da Bouça.

“Formara-se, rapidamente, em volta de Manuel da Bouça, um halo de respeito e curiosidade. Desde que decidira partir era outro homem para o lugarejo. Enxergavam-no com outros olhos e surpreendiam-lhe uma estatura diferente daquela que até ali lhe conheciam. E ele próprio adoptara uma máscara de orgulho: os lábios mais franzidos, o bigode mais retorcido e mais sóbrios os gestos.” (p. 31-32)

A outra face da emigração revela a dor da separação da família:

“- E o pai quando é que pensa partir? – perguntou Deolinda.
– Logo que estiverem prontos os papéis. Para o mês que vem … As duas mulheres começaram novamente a chorar.” (p. 29)

Rumo ao sul, os turistas percorrem as estradas mais pitorescas ladeando as salinas e a produção de salicórnia nos arredores de Aveiro, a cidade dos canais, a Veneza portuguesa. Ao percorrer a EN109 os campos verdejantes, as culturas rivalizam com as pateiras em plena Ria. O próximo destino do descanso merecido, Figueira da Foz, onde o Mondego entrega ao som duma serenata Coimbrã o seu último suspiro. Percorrer esta estância balnear com uma claridade ímpar, descansar o olhar na baía de Buarcos, outrora entre os sécs. XVI e XVII saqueada por piratas. Com um bom chapéu, garrafa de água reciclável, calçado confortável e uma máquina fotográfica recomenda-se um périplo por esta ilustre urbe.

Carlos Cruchinho

Quanto a visitas prioritárias aconselha-se uma visita espólio do Museu Municipal Santos Rocha, constituído por coleções de arqueologia, etnografia africana e oriental, numismática, pintura, escultura, cerâmica e mobiliário. Outros ex-libris imperdíveis o Palácio Sotto Mayor e o Forte de Santa Catarina. E ainda os múltiplos espaços verdes existentes convidam a agradáveis passeios a pé, de bicicleta ou de carro. Destacando-se a Serra da Boa Viagem e toda a sua riqueza arqueológica, o Parque das Abadias, a zona ribeirinha e as Lagoas do Bom Sucesso.
O surfista, viajante e escritor Gonçalo Cadilhe “É um homem de mar e de lugares com quatro estações. Já correu o mundo quase todo, mas regressa sempre à sua Figueira da Foz. Diz que é um local “mágico”, onde por vezes há a luz do Sul, noutras ocasiões o nevoeiro do Norte. Não é monótono, pelo contrário: Gonçalo Cadilhe já fez muitas viagens lá, entre Buarcos, o Cabo Mondego e a serra da Boa Viagem. “A Figueira é o meu sítio”. Esta viagem marcada pelo mar e pela faina piscatória, sem espanto aconselha-se o turista a degustar o peixe fresco e os mariscos às refeições.

www.guiadeturismo.pt/praia-da-vieira

Novamente ao volante e ainda mais a sul, a ausência do Pinhal de Leiria marca a jornada, o pinhal do rei consumido em outubro de 2017 (cerca de 80%) transformou a paisagem numa aridez confrangedora ao olhar. Paramos na Praia da Vieira para assistir à “Arte Xávega”, segundo o dicionário de língua Portuguesa Xávega provém da palavra Xakaba o que significa rede de arrasto para a pesca de peixe miúdo. A Arte Xávega que ao longo dos anos foi transmitida nas gerações dos pescadores, terá sido introduzida em Portugal por volta do ano 1850 com proveniência árabe. Os pescadores que durante os meses de junho, julho, agosto e setembro galgam as ondas para arrancar ao oceano os saborosos peixes, outrora as redes eram arrastadas com o auxilio de gado (vacas) atualmente as redes são arrastadas por tratores. O escritor Raúl Brandão no seu livro “Os Pescadores” escreveu uma frase célebre sobre esta arte, “Que estranho país é este onde os bois vão lavrar o próprio oceano?”. Após puxadas as redes pelos pescadores, os veraneantes acotovelam-se para comprar o peixe miúdo – “a vivinha da costa”. As varinas não tem mãos a medir para pesar e vender o pescado aos turistas ocasionais. A noite termina em convívio com uma boa sardinhada, salada de tomate com pimentos e um bom vinho tinto. Pela noite dentro as conversas seguem as mais diversas direções… pejadas de saudades.

 

Carlos Cruchinho

Fotografia:
1 – Créditos: Carlos Cruchinho
2 – Créditos: www.museumaritimo.cm-ilhavo.pt/pages/33
3 – Créditos: Carlos Cruchinho – Bibliografia: Castro, F. de (s. d.). Emigrantes. Lisboa: Guimarães
4 – Créditos: www.guiadeturismo.pt/praia-da-vieira
Fontes:
www.cm-figfoz.pt/index.php/visitar
www.cm-figfoz.pt/index.php/onde- ir/museu
www.publico.pt/2012/07/28/jornal/goncalo-cadilhe-e-a-figueira-da-foz-24935840
www.transportesentimental.blogs.sapo.pt/portugal-o-estranho-pais-onde-os-bois-212250

735 total views, 3 views today

Redes Sociais - Comentários

Tags

Ver também

Close
Back to top button
Close
Close