Entrevistas

Francisco Grelo: Puro-sangue lusitano

Nascido em Moimenta da Beira, Viseu, em 1942, cedo se mudou para a zona das Caldas da Rainha com a sua família.
Imigrou para o Canadá, nos anos 70, depois do serviço militar na Guiné e de ter viajado pela Europa.

Em Toronto, quis o destino que Francisco conhecesse Clarita, num baile na zona mais portuguesa desta cidade – na Augusta Ave. -, a sua esposa e mãe das duas filhas, Melissa e Rosanna.

A sua paixão pelos cavalos nasceu quando ainda era uma criança. As influências foram muitas, começando pelo seu pai que foi veterinário, ferrado r e militar da Cavalaria; Faustino da Gama; o Mestre Zé Tanganho e Vitorino Frois. O amor pela arte de equitação teve a inpiração maior do lendário Mestre de equitação Nuno Oliveira, com quem teve o prazer de privar e aprender muitas das técnicas que ainda hoje usa na sua quinta.

Em 1978 inaugura a Grelo Farms realizando um sonho – uma escola de formação da arte de equitação.

Poucos anos mais tarde, realiza mais um sonho, importar aquele que considera o cavalo mais completo, o cavalo lusitano. Foram 10. Hoje a Grelo Farms conta com cerca de 30 cavalos e 20 são puro-sangue lusitano.

Rapidamente reconheceu que o Canadá era um país de oportunidades. Homem de convicções firmes e sem arrependimentos, aos 77 anos continua a viver o sonho de sua vida.

Em outubro estivemos à conversa com Francisco Grelo.

Revista Amar: Quem é o Francisco Grelo?
FG: Quem é o Francisco… O Francisco é mais um português que emigrou de Portugal e que veio para esta terra há 40 e tantos anos e que por aqui ficou. É mais uma história de um português… que não sei se ficará gravada ou não, mas pelo menos uma passagem foi. (…) A história da cavalaria começou não de repente, mas 7 anos depois deu ter chegado ao Canadá.

RA: É das Caldas da Rainha?
FG: Não nasci nas Caldas da Rainha, mas fui criado Caldas da Rainha. A minha terra natal é Moimenta da Beira, que pertence ao distrito de Viseu. (…) Pouco me resta de lá, que conheça porque desde de míudo, dos 6 ou 7 anos, a minha gente… os meus pais viveram nas Caldas da Rainha e é essa que considero mais a minha terra, não desprezando a Moimenta, claro.

RA: Depois do serviço militar, andou pela Europa. Para a época foi uma grande aventura, não acha?
FG: Foi, mesmo no serviço militar estive na guerra do ultramar, estive na Guiné durante 2 anos. Depois estive em Portugal cerca de 1 ano, entretanto como todos os outros que “voaram”, estive na França 4 anos, na Alsácia que fica na fronteira com a Alemanha e Suiça, e corri um pouco aquele canto da Europa.

RA: O que é que procurava nessa viagem?
FG: Nessa altura era “young and restlessness” e procurava viver… ver o que se “passava na casa dos outros” (riso).

RA: Depois viajou para aqui. Qual foi o intuito de começar uma vida nova nesta terra?
FG: A idade vai chegando, não é… e cheguei aqui com cerca de 30 anos, já tinha um pouco de calo na vida. Entre os 20 e os 30 com 4 anos de serviço militar… quando vai para o serviço militar ainda é menino, já pensa que é homenzinho, mas ainda é menino. Esses 4 anos amadureceram-me bastante… muitos depois do serviço militar casaram-se e ficaram, outros como eu pensaram que havia muito tempo para formar família e que quiseram ver o que havia para lá das fronteiras de Portugal. Pronto, fui para a França depois de 4 anos regressei a Portugal e fiquei cerca de 1 ano e depois vim para aqui. Vim como turista… vi e pensei “aqui há muito chão para batatas, isto é uma grande terra”. Entretanto, conheci um rapaz que era da zona das Caldas, o Firmino que tinha na altura uma das primeiras agências de viagens e eu perguntei-lhe “ó Firmino, se eu quiser ficar aqui, como é que isto se passa?”, ao qual respondeu “tu tens boas possibilidades, faz uma aplicação à imigração e depois vês o que se passa”… não sabia falar inglês, mas sabia francês. Fui à imigração, fizeram-me uma entrevista e passados 7 meses tinha a papeladinha toda como imigrante, sem ter problemas e aí começou a minha história no Canadá.

RA: Sei que, um dia vai a um baile e conhece a sua esposa, a Clarita.
FG: Eu vivia numa zona bem portuguesa, na Augusta Ave. e College St., e à noite ia-se por vezes a um restaurante, o famoso Dom Quixote, que tinha flamengo e outras danças, e a rapariga apareceu lá com 2 amigas, mas até fiquei a pensar que ela era chinesa (risos)… olhe, um bailarico, uma bebida, etc. e assim começou a nossa história. Foi engraçado, na noite em que a conheci perguntei-lhe de onde ela era, porque pensei que ela fosse chinesa, mas não… por meias palavras ela disse-me que era filipina.

RA: A sua esposa, sendo filipina, isso trouxe alguma barreira a nível de comunicação ou cultural, ou no amor não há barreiras?
FG: Não, o amor não tem barreiras. A barreira cultural para mim não existiu, mas eu conhecia, e conheço, pessoas da comunidade portuguesa que me perguntaram “vais casar com a chinesa?”… E eu respondia com uns “joguetes” à portuguesa “sabes que as chinesas têm os olhos rasgados, mas outras coisas também” (risos)… não casei com a chinesa, mas com a filipina.

RA: Casados há 46 anos, qual é o segredo de um casamento duradouro?
FG: Aqui não há segredos… toda a gente tem altos e baixos, mas de qualquer forma quando queremos ter uma vida a dois duradoura tem que haver cedências dos dois lados, e quando às vezes as coisas não estão bem é porque falámos demais e dizemos coisas que não queríamos. É duradouro quando as pessoas se compreendem, há sempre altos e baixos porque não há formulas perfeitas… mas a verdade é que se passaram este anos todos, tivemos 2 filhas que também estão bem na vida graças ao apoio dos pais.

RA: Falando em filhas, a Melissa e a Rosanna, que são muito talentosas e que apesar de terem crescido aqui e de terem ajudado nas tarefas da quinta, optaram por seguir carreiras muito diferentes. Foi-se preparando ao longo dos anos para esta possibilidades?
FG: Fui, porque ao fim das contas cada um tem as suas ideias. Eu quando vivia em Portugal com a minha família também sempre tive as minhas ideias. O meu pai era ferrador e veterinário e ensinou-me as profissões dele, mas depois fui para a escola e aprendi outras coisas também. Contudo eu sempre tive as minha ideias, uma delas era de migrar… e a dos cavalos, esta tinha que ser!

RA: O seu pai também foi oficial da Cavalaria.
FG: Não foi oficial, mas sim militar da Cavalaria.

RA: Foi dele que herdou esta paixão pelos cavalos e pela equitação?
FG: De certo modo, sim…e também dos nossos clientes, que eram dos arredores das Caldas da Rainha, como Faustino da Gama, o Mestre Zé Tanganho e Vitorino Frois que foi uma pessoa de relevo nos arredores das Caldas, que foi toureiro nacional, etc.

RA: Que influência teve o Nuno Oliveira, mestre da equitação, na sua vida?
FG: Teve uma influência bastante grande, era o meu ídolo sem dúvida nenhuma. Eu sou conheci o Nuno Oliveira depois de ter imigrado para a França, onde trabalhei com cavalos e lá perguntaram-me se tinha sido aluno do Nuno Oliveira por ter muito jeito, e eu nem sabia quem ele era! (risos) Eu expliquei que o que sabia tinha aprendido com o meu pai e a ver os outros a lidar com os cavalos e o Capitão do Exército Suiço disse-me que eu tinha que o conhecer e deu-me a morada dele em Portugal, que era na Póvoa de Stº Adrião, à saída de Lisboa. Eu fui lá, apresentei-me e durante 3 anos sempre que podia ía lá visitá-lo. Aprendi muito, principalmente na filosofia do homem como montar… ele foi uma grande inspiração.

RA: Quando fundou, em 1978, a Grelo Farms, qual era o sonho?
FG: O sonho era fazer algo aqui, que nem em Portugal ainda existia. Em Portugal existe a Escola Portuguesa de Arte Equestre, mas que só começou 1 ano depois de mim. Eu conhecia a história da cavalaria e dos cavalos, oriundos da península ibérica, de Viena de Áustria. Era um sonho alto fazer algo como eles tínham, mas tinha chegado a altura de começar a fazer qualquer coisa à semelhança, nunca como eles porque eles tinham o apoio do governo.. e fiz o que pode, devagar, devagarinho mas sempre a andar.

RA: Assim que teve oportunidade “importou” 10 cavalos lusitanos, com certeza uma decisão de custo elevado. Na época, não achou que seria um risco muito elevado?
FG: Sim, mas riscos há sempre.. porém houve pessoas interessadas que acreditaram e que tiveram a sua cota.

RA: O puro-sangue lusitano dá um certo prestígio à Grelo Farms, certo?
FG: Dá prestígio não só à quinta. Até eu os trazer para aqui, não havia lusitanos no Canadá. Este país tem muitos cavalos e a raça mais conhecida é o quarter horse também conhecido pelo cavalo dos cowboys, mas o nosso cavalo é que é talhado para a equitação, que foi cavalo de guerra na Europa e que se encontrava nos estábulos Reais… demorou muito tempo a ser conhecido por aqui, e só não há maior divulgação porque há poucas pessoas que se envolvem.

RA: Há muita procura do cavalo lusitano?
FG: A procura tem que ser exposta. Fui a muitas esposições de cavalos tanto aqui como nos Estados Unidos. As pessoas conforme iam conhecendo foram comprando e os cavalos de criação que tinha aqui, acabei por os vender todos a clientes que vinham aqui ou dos Estados Unidos onde eu dava aulas de equitação. Um cavalo é um cavalo, mas cada raça tem uma particularidade e para os propósitos da arte equestre e certos desportos o cavalo lusitano prima sem dúvida nenhuma, sobre todos os outros.

RA: Com os seus cavalos dançantes já participou em filmes, comercias televisivos e publicidades impressas. Como surgiram estas oportunidades? Foram boas experiências?
FG: As oportunidades surgiram aos poucos, através dos conhecimentos que fui fazendo, aqui e ali e através dos meus clientes. As experiências foram sempre boas, principalmente porque houve ocasiões que ganhava mais num dia do que num mês (risos), o que ajudava de certo modo a pagar as contas.

RA: Mas os cavalos são animais muitos sensíveis. Eles não ficam muito agitados quando rodeados de muito barrulho?
FG: De certo modo ficam, mas claro que um cavalo treinado confia em nós e nós nele… é uma química que se cria entre os dois. O cavalo não é uma máquina que se possa programar. Treina-se com tempo, paciência e dignidade pelo animal e só assim os levavamos praticamente até onde queremos, mas a última “palavra” é sempre do cavalo… num momento crítico o cavalo pára ou dispara (risos).

RA: Chegou a participar na Parada do Dia de Portugal.
FG: Durante muitos anos consecutivos… e os primeiros a desfilar na parada foram daqui e chegámos a levar 15 cavalos, mas dava muito trabalho e, como tudo na vida, aos poucos deixei de ir.

RA: Não gostava de voltar só mais uma vez?
FG: Já voltei uma ou duas vezes, mas esporadicamente… a última vez foi talvez há uns 3 anos, mas com menos cavalos e não é uma questão de não gostar de participar… é a logistica, falta de tempo disponível e falta de pessoas para me ajudar.

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RA: Sei que a Grelo Farms tem uma Gala anual. Como surgiu a ideia e em que consiste?
FG: A ideia da gala é mostrar a forma como se monta em Portugal como na Feira de Golegã e é uma festa para socializar com clientes e amigos.

RA: Hoje, que serviços tem ao dispor aos apaixonados por cavalos?
FG: Dou instrução de equitação, treino cavalos de clientes, também vou aos Estados Unidos e ao México dar instrução de equitação.

RA: Quantos cavalos tem neste momento?
FG: Tenho 30 e a maioria são lusitanos e que já são da 4ª geração.

RA: O Canadá é um país de oportunidades, se tivesse que voltar no tempo, mudaria de profissão?
FG: Sem dúvida que é… mas, não! Nunca!

RA: E o amor pela Arte Equestre, mantem-se?
FG: Com certeza… este amor já vem do berço.

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