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Miguel Bombarda

Havia uma carregada inquietação naquele 3 de outubro de 1910, período que precedeu a Proclamação da República em Portugal, os anos anteriores foram marcados pelos assassinatos do rei D. Carlos e de seu filho, o príncipe D. Luís Filipe de Bragança, no crescente movimento que desejava encerrar o capítulo monarquista da história portuguesa. A brutal expectativa era traduzida pela mudez abafada que aguardava, instante a instante, o ardoroso pronunciamento republicano.

O silêncio foi tragicamente rompido por quatro disparos que atingiram o médico alienista Miguel Bombarda, saídos do revólver de um tenente de infantaria monárquico, Aparício Rebelo dos Santos (Braga, 1878-1943) – seu ex-paciente (acometido por persecutoriedade e comportamentos violentos) e antigo aluno dos colégios da Companhia de Jesus -, dentro do gabinete onde trabalhava como diretor do hospital Rilhafoles, o primeiro psiquiátrico do país: “não o maltratem, que é um doente”, foi o seu pedido, enquanto queimava alguns papéis revolucionários sigilosos e seguia amparado para o Hospital São José a fim de se submeter à cirurgia, sem efeito, pois entrou em coma, falecendo seis horas depois.

“O Dr. Miguel Bombarda foi alvejado a tiros de revólver por um louco que hoje o procurou em Rilhafoles, tendo recolhido ao Hospital de S. José em estado grave. O povo de Lisboa está convencido de que o assassínio foi obra dos clericais”, ouviu-se na sucursal de O Século, no Rossio. Naquela mesma noite, o presidente brasileiro Hermes da Fonseca, oferecia um jantar ao rei D. Manuel, no Palácio de Belém, tendo que apressar o evento, pois já se sabia acerca da rebelião que rebentaria, na descrição de ‘Arquivo e Biblioteca da Fundação Mário Soares’. Nada mais seria como antes.

O professor (de Fisiologia e Histologia), político e médico Miguel Augusto Bombarda (1851-1910), nasceu no Rio de Janeiro, e presidiu a Academia Real das Ciências Médicas de Lisboa, foi membro da Comissão de Resistência da Maçonaria e um dos principais dirigentes da revolução republicana, além de ter ocupado outros cargos de destaque. Impulsionou o hospital com modernas construções e ações de saúde. Em 1894 criou o Museu de Arte de Doentes, um dos primeiros na Europa, com 3500 obras, desde 1902, destacando-se a Arte Bruta (fruto do sentir profundo, espontânea e desligada de tendências dominantes), com pinturas catalogadas internacionalmente.

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O hospital, para 300 pessoas, desativado em 2008 e encerrado no ano de 2011, recebeu o seu novo nome em 1911, uma homenagem ao mártir de espírito inovador e de convicções políticas, sucedendo a designação Rilhafoles, desde 1848 (ano em que o Marechal Duque de Saldanha transformou-o em hospital – dados do Património Cultural, DGPC), cujas instalações pertenceram à Congregação da Missão dos Padres de São Vicente de Paulo, construídas na primeira metade do século XVIII, na Quinta de Rilhafoles. O futuro já encontrava-se naquele presente, pois o Pavilhão de Segurança foi construído em formato circular com múltiplas celas e uma torre de controle ao meio, sem falar no Balneário D. Maria II (de 1854, em delicado estado de conservação), utilizado para os banhos terapêuticos, ao invés dos antigos e obscuros encarceramentos e castigos físicos tão peculiares a este cenário. Até Amália Rodrigues lá esteve, entretendo os pacientes, em 1969, tendo recebido um buquê de flores da plateia, tudo registrado por mais de 1500 fotos que registraram os variados eventos locais, as muitas celebrações do calendário.
Destaque-se devidamente o robusto acervo do museu: arquivo de centenas de livros manuscritos, o livro de registro de todos os doentes desde 1848 (nome, idade, diagnóstico, etc), material clínico e hospitalar, arquivo fotográfico com mais de 4500 fotos, sendo 1100 de doentes, usadas como elemento diagnóstico, além das imagens quotidianas hospitalares, conforme a Associação Portuguesa de Arte Outsider – arte crua.

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Não se trata, portanto, tão somente de mais uma antiga instituição de saúde, o Hospital Miguel Bombarda foi muito além, tornando-se um marco no tratamento de pacientes psiquiátricos, cuja modernidade das instalações assim o comprovam através dos prédios que lá ainda sobrevivem ao tempo (o registro de uma notável arquitetura), o vanguardista sistema de tratamento e (quase!) um panteão de notáveis profissionais cujo desafio foi confrontado pela ousadia de avançar e cuidar de uma população mormente esquecida dentro dos muros e portões que a cercam. Vale a pena perguntar: o que dirá o futuro se não houver a valorização imediata de rastros tão importantes?

Preocupação já existente através do ‘Movimento de Apoio ao Hospital Miguel Bombarda’, que discute e luta pela preservação, utilizando as redes sociais como sua fundamental voz, para não calar definitivamente os ecos históricos do passado.

Armando Correa de Siqueira Neto

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