BORDALO II - Revista Amar
Entrevistas

BORDALO II

Para-choques de carros amolgados, triciclos, contentores de lixo partidos, brinquedos, plástico, plástico e mais plástico. Tudo amontoado no número 48 da Rua de Xabrégas, no Bairro lisboeta do Beato fora do circuito das galerias da capital. Este é o atelier de Artur Bordalo, de seu nome artístico Bordalo II uma homenagem ao seu avô, o pintor e artista plástico Real Bordalo.

Revista Amar: Bordalo II usa lixo que encontra nas ruas e com ele constrói esculturas que nos mostram que o lixo de uns é o tesouro de outros, neste caso é arte. O uso artístico do lixo é, também, uma espécie de crítica ao mundo em que vivemos; um mundo em que coisas que outrora valiosas e importantes, perdem rapidamente o valor ou a utilidade. Será lixo uma palavra forte?
Bordalo II: Não é forte, mas é muito abrangente não é? O quê é que é o lixo? O desperdício é capaz de ser a expressão mais adequada sendo que mesmo o desperdício pode também querer dizer muitas coisas. Uma coisa que pode não servir para uma pessoa pode servir para outra.

RA: Fazes coisas bonitas com o lixo?
Bordalo II: Faz parte do processo porque a parte porque a parte de transformar, de fazer coisas bonitas com o lixo é apenas uma parte do processo que talvez faça o espectador parar e interessar-se. Mas está longe de ser o conceito que realmente me interessa. Essa parte estética, se calhar, serve só para captar a atenção e aquilo que interessa depois é que o espectador, que as pessoas entendam todas as mensagens subliminares que estão por detrás das obras de arte, portanto a preocupação ambiental, o alerta em relação àquilo que nós estamos a fazer ao planeta, etc.

RA: E como é que surgiu esta matéria principal que tu usas nas tuas obras de arte na tua vida. Foi espontâneo? Foi esse mesmo alerta que tu querias dizer às pessoas?
Bordalo II: Inicialmente foi espontâneo. Comecei a utilizar coisas que tinha à mão mas, rapidamente entendi que estar a trabalhar com este tipo de material dava-me uma possibilidade de falar sobre coisas relevantes. Portanto eu comecei a utilizar o “lixo” porque estava à mão mas rapidamente entendi que, nós trabalhando com um material tão forte que tem um significado cada vez mais importante nos dias de hoje em relação àquilo que tem que ser feito e todos os cuidados que devem ser tomados que vi que dava para criar uma relação interessante.

RA: Isto é uma arte urbana. Como está a arte urbana em Portugal?
Bordalo II: Também pode ser arte rural (risos). Há montes de artistas a fazerem coisas interessantes. Eu não gosto de meter uma etiqueta a dizer que é street art ou arte urbana, acho que é arte contemporânea mas dentro duma corrente do grafitti, inicialmente, são coisas que acabam por estar ligeiramente ligadas porque partilham o mesmo espaço e porque as raízes vêm do mesmo sítio apesar de serem coisas completamente diferentes.

RA: Os trabalhos com recurso ao desperdício começaram como uma experiência, gostou do efeito criado pela junção de embalagens mas, mais do que isso, percebeu o potencial do lixo a nível estético tendo como base edifícios outrora decadentes, agora embelezados com arte.
Bordalo II: A mim o que me interessa é conseguir trabalhar em superfícies decadentes que eu acho que valorizam o meu próprio trabalho porque, todas essas estruturas dos sítios abandonados são interessantes e por outro lado também, às vezes, poder valorizar zonas que em vez de estar tudo apenas degradado possamos usar esse background para criar um espaço mais interessante mesmo para a própria população e fazê-la também pensar sobre a obra de arte.

RA: Quando nós estamos em Lisboa é fácil encontrar as tuas obras. A tua exposição, que tiveste aqui no teu próprio atelier, deu-te o boom que precisavas para expandir a tua arte e o teu conceito?
Bordalo II: Eu acho que todos os trabalhos que são feitos acabam sempre por abranger o público que reconhece o nosso trabalho. Quanto à exposição em Lisboa, foi quase que uma retrospetiva daquilo que eu tinha estado a fazer durante os anos anteriores mas muito mais pelo mundo fora e em murais. Consegui trazer isso para a minha cidade com um pouco, se calhar, de todas as ideias e as coisas que eu fui aprendendo pelo mundo fora em formatos mais pequenos para conseguir ter peças que possam ser visitadas num espaço fechado.

RA: Os animais são as tuas personagens principais.
Bordalo II: São sim, porque são a representação mais direta da natureza e a mais pura também.

RA: Uma das instalações mais recentes é o lince ibérico que tens ali no Parque das Nações. Conta-nos um pouco dessa história desse lince ibérico, um animal tão especial para nós.
Bordalo II: Sim, é um animal especial para nós e um exemplo daquilo que pode acontecer a muitas espécies se nós não tivermos cuidado com o que fazemos ao meio ambiente. O lince ibérico é uma espécie em vias de extinção, esteve em risco mesmo muito grave; está a recuperar, há imensos programas de reabilitação, está-se a fazer um bom trabalho nesse campo mas quer dizer, dá que pensar: porquê é que é preciso deixar as coisas chegarem a esse ponto para as pessoas abrirem os olhos e terem que se preocupar. Não é mais simples tomar precauções e não deixar que as coisas cheguem a um limite para depois tentar fazer alguma coisa em que se torna até mais difícil de tentar salvar uma espécie. Eu quando falo da natureza, acho que é importante relembrar que isto é a nossa casa e o que mata os animais mata-nos a nós também porque nós também somos bichos.

RA: Em quantos países é que tens exposto os teus trabalhos?
Bordalo II: Não sei, bastantes.

RA: Mas assim um dos mais marcantes. Talvez aquele que te deu mais desafio fazer.
Bordalo II: Não sei, acho que cada sítio é uma experiência interessante. Claro que há algumas que são mais interessantes. Um dos lugares onde provavelmente nós temos sempre uma experiência mais interessante porque temos sempre contacto com a população e vamos visitar toda a zona, é a Polinésia Francesa porque é um local lindíssimo, é um paraíso em que temos a oportunidade de trabalhar, fazer várias séries de trabalhos, de ir passear e acho que, todo aquele ambiente acaba por ser super inspirador também para um criativo não é.

RA: E a matéria prima lá?
Bordalo II: Infelizmente matéria prima há em todo o lado.

RA: E também adaptas os teus trabalhos à matéria prima que encontras nesses países?
Bordalo II: Eventualmente sim.

RA: Qual a matéria prima mais utilizada aqui no teu atelier?
Bordalo II: Plásticos de alta densidade (para-choques, caixotes do lixo partidos, eco pontos velhos, cadeiras de plástico) praticamente tudo em plástico, caixas de cerveja ou outro tipo de caixas de plástico fortes coloridas, todo esse tipo de material é material que é base.

RA: E hoje em dia é super fácil encontrar isso?
Bordalo II: É sim, infelizmente.

RA: Infelizmente temos o flagelo do plástico pelo mundo inteiro.
Bordalo II: Sim

RA: Teve no avô uma figura primordial para se transformar, também ele, num artista plástico. Real Bordalo pintou dezenas de óleos e aguarelas das paisagens urbanas de Lisboa. O nome que o neto escolheu para se identificar, Bordalo II, é uma homenagem às raízes plásticas familiares até porque ambos partilhavam o primeiro nome (Artur) e a arte no sangue.
Bordalo II: Toda a relação que tive com o meu avô desde que me lembro de existir, obviamente que me deu um contacto com a arte, sim.

Direitos Reservados

RA: Alguma vez vais fazer um trabalho baseado no teu avô? Em homenagem ao teu avô?
Bordalo II: Acho que sim. Acho que é uma coisa que está nos meus planos. Tenho que pensar para ser uma coisa que faça mesmo sentido para que não fique aquém, é uma grande responsabilidade.

RA: E quais são os teus planos agora para o futuro a nível de instalações?
Bordalo II: Temos muita coisa para fazer, nas próximas duas semanas ou na próxima semana ainda vou estar aqui no estúdio a fazer peças mais pequenas, peças de galeria para preparar para as exposições do próximo ano. É importante para mim também fazer peças mais pequenas para utilizar em áreas diferentes e fazer experiências, toda essa parte do processo é importante também. Não pode ser só fazer peças grandes e viajar.

RA: Bordalo espanta os olhares nacionais e internacionais com a sua arte feita de lixo, um lixo que a sociedade tende a ignorar. Usa o lixo como uma mensagem direta de que é preciso mudar o mundo, ajudar a natureza e os animais. Esta é uma arte difícil de explicar, mas incrível de ver.
Bordalo II: Acho que para fechar aqui a temática, quero dar mais ênfase ao facto que para além da parte da componente artística, aquilo que me interessa mesmo dizer é que nós temos de ter atenção e temos que preservar o planeta que temos. É o único sítio que temos para viver portanto, tudo o que tenha a ver com a natureza, a ecologia, os animais, porque nós também somos animais, tem de ser preservado e temos de ter atenção às nossas atitudes.

Paulo Perdiz

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