A Vida Emocional e a Medicina Chinesa: O equilíbrio perdido - Revista Amar
Saúde Alternativa

A Vida Emocional e a Medicina Chinesa: O equilíbrio perdido

Existe um tipo bastante comum de paciente nos consultórios de Acupunctura e Medicina Chinesa; são pessoas que não se sentem bem, apresentam queixas e sintomas físicos e emocionais que os levam a procurar tratamentos convencionais, sem que estes apresentem resultados satisfatórios. Não apresentam os sintomas necessários para serem diagnosticados de acordo com os manuais médicos nem obtêm alívio dos seus sintomas nos tratamentos prescritos. Não são pessoas que possuem uma doença específica, mas também não podem ser consideradas saudáveis. Estes indivíduos representam um grande desafio para os profissionais de saúde de medicina convencional, pois são pacientes que se encontram num estado de “sub-saúde”. O maior risco para este tipo de pacientes é que frequentemente encontram alívio temporário dos seus sintomas na utilização de medicação alopática paliativa (antidepressivos ou analgésicos), o que desenvolve a possibilidade de que venham a desenvolver futuramente, dependência física ou psicológica(s) destas substâncias.

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Saúde e Doença na Medicina Chinesa

Uma das principais obras de Medicina Chinesa, Huangdi Nedijing, apresenta, no seu inicio, a seguinte pergunta feita pelo Imperador Amarelo ao sábio Qibo, seu conselheiro: “Disseram-me que os antigos chegavam a viver mais de 100 anos e que os seus corpos pareciam não envelhecer. Hoje em dia, as pessoas mal passam dos 50 anos e tornam-se fracas e movimentam-se com dificuldade. Isto acontece porque o mundo mudou ou porque as pessoas não sabem mais conservar as suas vidas?”. A resposta do Qibo, seu conselheiro ainda é válida para os dias de hoje: “Os antigos praticavam o Dao, sabiam como se adaptar às leis do Yin e do Yang e seguiam os caminhos para nutrir as suas vidas. Eles comiam moderadamente, dormiam regularmente e evitavam o trabalho excessivo, assim como os excessos na vida sexual. Desta forma, os seus corpos e espíritos floresciam. Eles viviam os anos que lhes eram concedidos pelos céus, e morriam depois dos 100 anos de idade”.

Actualmente, podemos constatar que nós mudámos: os nossos hábitos e estilos de vida perderam o equilíbrio. Já não comemos nem fazemos exercício como os nossos antepassados, trabalhamos demais, andamos sempre apressados. As nossas roupas mudaram, assim como os nossos hábitos sexuais. Já não vivemos de acordo com a Natureza, com o Dao ou com as leis do Yin e do Yang. Afastamo-nos do que é natural.
O conceito de “livre fluxo” de Qi e demais substâncias vitais pelo corpo é o mais importante quando pensamos no estado de Saúde e Doença na Medicina Chinesa. O Homem deve obedecer às leis do Yin e do Yang (equilíbrio) e estar em consonância com a Natureza para que estas substâncias estejam em livre fluxo pelo corpo. Quando estas condições entram em desarmonia, surgem as doenças. O sistema de defesa (Wei Qi) do organismo fica debilitado, o corpo fica vulnerável e permite a entrada de agentes patogénicos; características hereditárias negativas podem manifestar-se ou, ainda, fatores emocionais tornarem-se preponderantes, rompendo o nosso equilíbrio. Desta forma, adoecemos. Assim, na Medicina Chinesa, qualquer desarmonia começa com a perda do livre fluxo. Perante esta perda de homeostase ocorre um bloqueio, que gera um excesso em determinada parte do corpo e deficiência noutra parte. Os tratamentos destinam-se a corrigir estes bloqueios, removendo estagnações, tonificando deficiências e dispersando excessos, de forma a encontrar o equilíbrio.

A Vida Emocional e a Medicina Chinesa

O aspeto emocional é uma das causas mais importantes de adoecimento na Medicina Chinesa. A teoria dos Cinco Elementos propõe uma consideração sobre a vida emocional de acordo com o modo como cada uma das emoções se relaciona com o órgão específico do corpo. A raiva relaciona-se com o Fígado, a Alegria com o Coração, a preocupação com o Baço, a Tristeza com o Pulmão e o Medo com o Rim.
Uma das mais importantes escolas de Medicina Chinesa da China, a escola de Shanghai, defende que o Fígado adquire um papel bastante importante pois acaba por ser o “órgão de choque” de todas as alterações emocionais, sendo responsável por manter o livre fluxo. Qualquer estagnação ou bloqueio no Fígado acaba por atingir os outros órgãos desequilibrando todo o sistema. Outro órgão bastante importante no que respeita à vida emocional é o Coração, o qual é responsável pelo bom funcionamento do Shen (mente).

Sobre as Emoções

As abordagens teóricas das emoções são muitas, indo desde a Cognitiva, que defende que as emoções dependem do conhecimento que temos acerca do estímulo que as desencadeia, até às Neurobiológicas, que associam as emoções a determinadas regiões do cérebro, em especial ao sistema límbico, estrutura cerebral exclusiva dos mamíferos.
Cruzando as Teorias psicológicas modernas e o entendimento milenar da Medicina Chinesa sobre as emoções, percebemos que estas possuem o carácter de movimento, sendo a estagnação em determinadas emoções a origem das patologias. Na verdade, o problema não são as emoções em si, mas a nossa postura perante elas.

Com o passar do tempo tornamo-nos inflexíveis em relação às nossas emoções, em vez de as vivenciarmos, estabelecemos uma ideia pessoal sobre as que são “bonitas” e nobres, e as que não nos permitimos admitir que são piores e que nos podem tornar seres humanos piores. Deste modo, sem nos apercebermos, tornamo-nos inflexíveis em relação aos nossos pensamentos; não são apenas as nossas articulações, tendões e ligamentos que se tornam ressequidos e pouco maleáveis, mas também a nossa vida emocional.

Sobre a Felicidade e o Contentamento

Assim e como em tudo na vida, a felicidade é relativa e depende de uma série de fatores – culturais, sociais, económicos e de sobrevivência. Na sociedade atual, caracterizada pelo capitalismo e pelo consumo, a felicidade parece estar associada a bens materiais – uma casa bonita, o computador mais moderno, a televisão de mais alta definição. Esta felicidade durará muito pouco, pois a tecnologia continuará a evoluir e haverá sempre casas melhores, computadores mais desenvolvidos e televisões maiores. O sonho humano de felicidade é irreal, pois é moldado por valores que estão em constante mutação de acordo com o desenvolvimento pessoal e com o amadurecimento psicológico de uma pessoa. Por mais que nos sintamos felizes diante de um objetivo conquistado, esta sensação não corresponde à magnitude e sentido profundo dos quais a ideia de felicidade é revestida. Passamos a vida em busca da felicidade, não entendendo no entanto que, essa busca é a nossa maior inimiga e que quanto mais buscamos a felicidade, mais nos afastamos dela.

A felicidade duradoura é uma meta impossível, pois tudo na vida é impermanente. Nenhuma emoção ou sentimento é duradouro, e com a felicidade não podia ser diferente.
Além disso, uma das leis do Yin e do Yang defende que tudo o que chega a um extremo se transforma no seu oposto. Assim, alcançar a felicidade genuína é começar a caminhar na direção da tristeza profunda.

O ideal de felicidade duradoura é exatamente isso: um ideal, que quando interiorizado, se torna exigente demais. Não precisamos da felicidade duradoura, não precisamos de nos sentir felizes a cada momento das nossas vidas: a vida não precisa de ser perfeita para ser boa e nós não precisamos de ser perfeitos para sermos bons. Precisamos de ser nós mesmos, sonharmos os nossos sonhos e caminharmos na direção dos sonhos que desejamos transformar em realidade, sempre conscientes de que a qualquer momento os sonhos podem mudar e novas direções se nos podem apresentar. Irão surgir pedras no caminho e, diante delas, temos sempre duas escolhas a fazer: desistir de caminhar ou retirar a pedra do caminho e seguir em frente, guardando-a no bolso para um dia mais tarde fazermos uma fogueira e nos aquecermos do frio.

A dor deve ser reconhecida: o sofrimento deve ser acolhido. A frustração serve como uma bússola no nosso constante desenvolvimento, orientando-nos no caminho correto a seguir e apontando as nossas fragilidades para que as possamos fortalecer e transformarmo-nos nas pessoas que realmente queremos ser. Quando aceitamos a vida como ela é, aceitamo-nos a nós próprios como somos: com as nossas qualidades e defeitos. Felicidade é o que é. Contentamento é estar contente, apesar do que nos faz tristes. A felicidade suprema não é o destino: é o caminho, é quem caminha – é o próprio ato de caminhar.

Assim, querido(a) leitor(a), aceite-se tal como é, e… Sorria com saúde!

Helena RodriguesHelenMed

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