Nellie Pedro - Revista Amar
EntrevistasToronto

Nellie Pedro

Não há outro programa televisivo português que faça 33 anos sem nunca ter repetido um episódio. É um orgulho manter este programa durante estes anos todos. Nellie Pedro

Nélia de Fátima de Melo Leal São Pedro, conhecida pela comunidade portuguesa por Nellie Pedro nasceu na Angra do Heroísmo, Ilha Terceira – Açores, a 20 de setembro de 1960.
Em 1970, acompanhada pelos irmãos e avós, chega a Toronto para reunir com seus pais.

Não tem muitos hobbys, mas gosta de cozinhar e viajar… para lugares quentes! Para relaxar, gosta de costurar.
Desde muito nova mostrou ser uma guerreira e lutadora e com apenas 14 anos tem a primeira experiência profissional e simultaneamente encontra o caminho ao trabalho voluntário na comunidade portuguesa. Chegou, mais tarde, a ter cargos de destaque, como por exemplo membro da United Way Board of Trustees, Chair da Portuguese-Canadian Coalition for Better Education, membro fundador do Canada-Portugal Chamber of Commerce and Industry e Public School Trustee. Foi a primeira mulher a ser eleita a presidente da Federação Luso-Canadiana de Empresários e Profissionais.

Em 1993 o seu serviço prestado à comunidade portuguesa foi reconhecido recebendo a Canada 125th Anniversary Commemorative Medal. O envolvimento de Nellie Pedro na comunidade levou-a inclusive a ser candidata pelo partido Liberal às eleições provinciais de 2003.

Nellie Pedro tirou o curso de Radio and Television Arts na Ryerson Polytechnic University e é a “cara” do programa Gente da Nossa TV que vai para o Ar todas as semanas nos últimos 32 anos. Muitas foram as personalidades que passaram pelo estúdio, mas aspira um dia poder entrevistar António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa, Michelle Obama, Oprah Winfrey e Hillary Clinton.

A lutar contra um Cancro da Mama Metastático, Nellie Pedro não desiste e exige levar uma vida normal e repleta enquanto faz os tratamentos, contudo dentro da sua agenda profissional.

No mês de janeiro estivemos à conversa com Nellie Pedro, uma mulher de fortes convicções, fiel a si própria e aos seus ideias.

RA: Olhando para trás, foi fácil ou encontrou muitos obstáculos?
NP: No princípio era apenas um trabalho voluntário e não tivemos obstáculos e tínhamos muitas pessoas a querer participar no programa. Nós fomos os primeiros a fazer um programa ao vivo, meia hora todas as semanas, que foi também uma experiência muito interessante… não se tem margem para fazer erros, pois se os fizeres vai tudo para o Ar. Os obstáculos só começaram a aparecer depois que passámos para a CityTV e fazer parte da CHIN, porque passou a ser um programa pago onde é preciso ter publicidade para pagar o Air Time… e claro, também começou a competição.

RA: Mas a Nellie não se dedicava exclusivamente à televisão…
NP: Não… tirei a minha licença de agente imobiliária em 1985 e desde então até 1994 eu dediquei-me a tempo inteiro a esse ramo. E eu gostava muito e ainda gostava de voltar a esse mercado (risos).

RA: Já agora, como estava a saúde do mercado imobiliário naquela época?
NP: Olhe, também tivemos épocas muito altas como é agora… também houve tempos menos bons, onde o juro estava muito alto, mas eu tive sempre muito sucesso como agente imobiliária. Vendi muitas casas… e o que era considerado muitas casas naquela altura? Em 1988 eu vendi perto de 30 casas e recebi uma placa que tem o número exato gravado. Hoje em dia esse número, em comparação, teria que ser superior, contudo ninguém consegue vender 20 casas no ano, nem durante um ano uma por mês… mas naquela altura eu conseguia isso. Agora é diferente por causa dos preços das casas. Mas os altos e baixos é algo que se repete de 6 em 6 anos ou de 8 em 8 anos… mas repete-se constantemente.

RA: Sete anos depois de manter duas profissões extremamente exigentes, nasce Tomé. Foi uma reviravolta na sua vida…
NP: Sim e não… Eu parei de trabalhar como agente imobiliária porque me queria dedicar ao Tomé e era mais fácil continuar com o programa. Acabei por deixar a minha licença numa agência imobiliária, confiante que me a mantinham ativa e acabei por descobrir que isso não aconteceu, mas eu posso tirar a licença outra vez.

RA: Nessa altura a Nellie já tinha uma vida social muito preenchida. O Tomé acompanhava a mãe?
NP: Sim, sempre. Comecei a estar a envolvida na comunidade partir de 1985, nomeadamente fui a primeira mulher nomeada a presidente da FPCBP e o Tomé nasceu aquando acabei o meu mandato. E como também estava envolvida em vários clubes da comunidade fosse a gravar, apresentar ou fazer parte de juri de concursos como das Misses, das Mini-Misses ou outros concursos, o menino ia comigo.

RA: Mas, chegou o dia em que teve de fazer uma escolha a nível profissional… a escolha foi fácil?
NP: Eu não escolhi… só decidi. Foi uma decisão que fez parte de um processo natural para mim.

RA: Este ano a Gente da Nossa celebra o 33º aniversário, são 33 anos de transmissões semanais, a divulgar um pouco de tudo que se passa na nossa comunidade… é um feito que a deve encher de orgulho…
NP: Sim, porque não há outro programa televisivo português que faça 33 anos sem nunca ter repetido um episódio.

É um orgulho manter este programa durante estes anos todos.
RA: Acha que os sacrifícios que foi fazendo ao longo destes anos valeram a pena?
NP: Sabe quando se trabalha por conta própria, nunca se acorda a pensar que se está ou se vai fazer sacrifícios… pelo contrario, eu levanto-me para fazer o que gosto… nunca considerei que fiz sacrifícios, tudo que fiz fez parte do projeto que tinha e tenho.

RA: Ao longo destas três décadas, muitas celebridades passaram pelo seu estúdio. Diga-nos algumas…
NP: Jack Sebastião, Mário Soares, Roberto Leal, Jorge Sampaio, José Cid… foram muitos.

RA: Dos que nomeio, qual se destacou pela simpatia?
NP: Jack Sebastião, que faleceu com 42, era escritor e compositor… na maioria para Jorge Ferreira.

RA: Qual deles foi o mais difícil?
NP: Marco Paulo… não tenho paciência para “princesas.”

RA: Quem é que ainda falta ou gostaria de entrevistar? E porquê?
NP: Boa pergunta… olhe, ao nível de portugueses gostaria de entrevistar o secretário geral das Nações Unidas António Guterres e o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, porque acho que íamos ter uma boa conversa. A nível mundial gostava de entrevistar a Michelle Obama, a Oprah Winfrey e a Hillary Clinton (risos)… gostava de ter uma conversa com as três.

RA: Hoje a Gente da Nossa é uma marca na comunidade… afinal ainda temos a Tours. Há quantos anos começou com a agência de viagens?
NP: A primeira excursão foi em 1994, mas ainda não tínhamos a licença. Só a partir de 2005 é que me comecei a dedicar mais seriemente, com várias excursões por ano para diferentes destinos, mas são mais as que levou aos Açores e ao continente.

RA: Como tem sido essa experiência?
NP: Fantástica, é uma das coisas que eu adoro fazer… tanto adoro viajar como de organizar. Adoro andar com as pessoas e mostrar-lhes os pontos turísticos.

RA: Se pudesse escolher um destino para revisitar, qual seria?
NP: Gosto muito de Cabo Verde… também gostei muito de Marrocos, da Grécia… eu gosto de tudo que seja tropical ou paises quentes. Adoro Portugal! Em breve vamos a Dubai, penso que vai ser diferente.

RA: Daqui a uns dias a Gente da Nossa Tours parte para mais um Festival de Inverno, este ano para Rivieira Maya, no México, que esgotou. Assim vale a pena trabalhar…
NP: Sem dúvida… e esgotou porque eu não quis vender mais. Hoje já ninguém leva grupos muito grandes como era há uns anos atrás. Nós temos 167 pessoas e eu só queria 150, que é o máximo que nós queremos sempre. Há pessoas a telefonar que querem ir, mas nós não queremos, porque depois é um grupo muito grande e nós gostamos de conhecer melhor as pessoas que vão connosco e aliás a maior que vai já são clientes habituais. O nosso programa também é muito bom, mas também gostamos que quem vai connosco aproveite a animação do resort. Nós não fazemos espetáculos de palco todas as noites… nós fazemos noites e bailes sociais. As pessoas que vão comigo não querem estar sentadas a bater palmas, querem estar de pé a bater o pé (risos).

RA: Foi pioneira na TV… e foi a primeira mulher presidente da Federação Luso Canadiana de Empresários e Profissionais. Com certeza dois dos muitos factos e momentos importantes da sua vida profissional. Mas 1993, a distinção do Canada 125th Anniversary Commemorative Medal pelo seu serviço comunitário prestado, jamais será esquecido?
NP: Não esqueço. A medalha foi resultado do meu trabalho comunitário. Estive três anos na United Way, onde passei pelo conselho diretivo e a direção de angariação de fundos para a comunidade portuguesa, ajudei algumas instituições a tornarem-se uma realidade como a Abrigo, e também quando estive na direção escolar, como School Trustee, dei o Brock Stadium à ACAPO.

RA: Agora um assunto mais sério… a Nellie foi diagnosticada em 2018 com cancro da mama. Como se apercebeu que algo não estava bem consigo?
NP: Eu encontrei um caroço, do tamanho de uma ervilha, a cima do peito e no princípio ainda pensei que tivesse sido uma picada de inseto, mas com o tempo o caroço não desapareceu e parecia até que estava a aumentar… comecei por achar que não era normal e fui à minha médica, isto em fevereiro. Ela primeiro desvalorizou, porque eu tinha feito uma mamografia em setembro de 2017 e que não tinha acusado nada, mas depois considerou e mandou-me fazer outro que mais uma vez não acusou nada. O meu cancro não foi detetado na mamografia, porque o caroço estava muito a cima de onde a máquina aperta. Como o caroço não desaparecia, comecei por fazer outros testes e fui ao Breast Imaging onde paguei para fazer um 3D Imaging do peito. Levei os resultados à minha médica, que depois me mandou fazer uma operação e a biopsia… nesse dia, sem eles me dizerem nada eu já sabia qual ia ser o resultado. Isto tudo aconteceu entre fevereiro e fins de abril.

RA: Como recebeu a notícia?
NP: Quando ouvi o resultado pela médica… foi um choque… mas não me fui abaixo, tanto que não disse nada a ninguém durante alguns dias, nem ao meu marido. Mas, eu disse à médica que não tinha tempo para ter cancro e para me arranjar outra doença, porque não era esta que eu queria (risos) e nem era conviniente (risos)… ela olhou para mim com uma cara (risos). É que eu ia viajar, com um grupo para Fátima, no dia 8 de maio e eu disse-lhe “eu vou estar fora por duas semanas, prepare tudo para que no meu regresso possamos começar o que preparou.” Como disse, foi um choque, mas tenho lidado bem com a situação, porque estou com profissionais que sabem o que estão a fazer para me curarem… eles é que se queixam de mim, dizem que sou uma paciente difícil.

RA: A Nellie optou por não seguir o primeiro protocolo médico, que incluia quimio e radioterapia. Porquê?
NP: Eu só fiz a radioterapia, mas muito mais forte do que é normal. Para mim, a quimio não é para todos os casos. A quimio serve para matar uma ou mais células cancerígenas que se podem encontrar em qualquer parte do corpo, mas que não se sabe a localização certa, o problema é que a quimio não mata só essas células, mata todas… más e boas! Então para começar, se não sabe se houve ou não células más que se espalharam, para quê mesmo assim fazer quimio que mata tudo que encontra pela frente? Depois, é muito mais difícil o corpo recuperar e combater o cancro porque o sistema imunitário está fraco. Eu decidi não fazer porque há pessoas, particularmente mulheres, que morrem por causa dos feitos da quimio porque o sistema imunitário não foi capaz de combater o cancro que tiveram e que se espalhou. O meu cancro é do que se espalha, Cancro da Mama Metastático. Contudo não há garantias para onde e quando é que a célula se vai espalhar, e caso se espalhe, vamos combatê-lo como fiz com este. Agora matar tudo para ver se não aparece noutro ponto do meu corpo, isso não!!! Eu conheci mulheres que não precisavam de quimio, mas que fizeram a conselho do médio e porquê? Porque a quimioterapia é um negócio e os médicos ganham uma comissão de cada vez que a sua recomendação é bem sucedida.

RA: Em que consistiu o seu tratamento?
NP: Eu fiz radioterapia muito forte, porque eu não quis levar a quimio, num curto espaço de tempo… e porquê? Eu tinha que fazer um número certo de sessões seguidas de radio e se começasse não podia parar, mas eu já tinha mais uma excursão marcada e nem queria deixar de fazer a minha vida e nem queria interromper os tratamentos. Então dentro das datas, fiz cinco semanas seguidas de radio, de segunda à sexta-feira, mas escolhi as sextas-feiras para fazer duas sessões, uma de manhã e outra à tarde, porque assim tinha o fim de semana para recuperar… a radioterapia cansa muito.

RA: E os resultados foram positivos?
NP: Não há nada de positivo quando se tem cancro da mama, porque ninguém te diz ou garante que os tratamentos funcionaram a 100%. Há sempre a possibilidade de voltar noutra parte do corpo… só depois de cinco anos de remissão é que uma pessoa se pode considerar curada.

RA: Atualmente, qual é o ponto da situação?
NP: Não ando muito bem de um joelho por causa de um comprimido, de quimio, que tomo por dia e também ando a fazer exames aos pulmões e ao estômago… assim que sinto uma dor diferente, vou imediatamente ao médico. Somos nós que, em primeiro lugar, temos que analisar o nosso corpo, porque não há ninguém que o conheça melhor. Nós temos que ser o nosso médico para depois irmos aos profissionais. E quem tem cancro não deve ficar à frente do médico à espera que ele faça exames… nós é que lhes temos que dizer o que sentimos de diferente para que se possam fazer os exames certos e desta forma tomamos as rédeas da nossa saúde e do nosso destino.

RA: Gostaria de convidá-la a deixar uma mensagem à nossa comunidade.
NP: Desejo que 2020 seja um ano de união!

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