À conversa com TIM
Entrevistas

À conversa com TIM

TIM, é o nome artístico de António Manuel Lopes dos Santos e nasceu em Ferreira do Alentejo, a 14 de abril de 1960. É casado e pai de 2 filhos, Vicente e Sebastião. Com apenas 5 anos, muda-se com os pais para Almada, contudo o amor pelo Alentejo acompanha-o até hoje e admite que o Cante Alentejano foi importante na sua formação musical.

O músico português é cantor, compositor, baixista, guitarrista, vocalista e um dos fundadores da emblemática banda de rock português – Xutos & Pontapés.
Numa altura um pouco atribulada de algumas bandas portuguesas, Tim juntou-se a outros músico e formaram os Resistência, o Rio Grande e o Cabeças no Ar. Mais recentemente, as colaborações com outros músicos trouxeram até ao público os Tais Quais e À Sombra do Cristo Rei, e pelo meio foi gravando discos a solo.

Tim começou a sua vida artística aos 15 anos como baixista, em formações de jovens e grupos de baile. Aos 18 anos trabalha pela primeira vez com originais no Grupo 2, um trio almadense de música instrumental de improvisação. Aos 19 inicia o estudo do contrabaixo no Conservatório de Lisboa, e simultaneamente começa a sua atividade como baixista nos Xutos & Pontapés.

Para Tim o ano de 1979 ficou marcado, porque: “entrei para o Conservatório para o Curso de Contrabaixo que era um sonho que eu tinha em concretizar (…), entrei na Faculdade de Agronomia de Lisboa e conheci a minha mulher e (…) fizemos os Xutos e Pontapés.”

É licenciado em Engenharia Agronóma, na especialidade de Melhoramentos Rurais, pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa.

Com 22 anos, em 1982, grava o primeiro trabalho com o grupo. Seguem-se uma série deles, todos galardoados com disco de ouro, até 1990, altura em que o grupo faz uma pausa. Aí, Tim é convidado para integrar outro coletivo: os Resistência. Com Pedro Ayres Magalhães, Fernando Cunha, Miguel Ângelo, Olavo Bilac, Fernando Júdice, Fred Mergner, Rui Luís Pereira “Dudas”, José Salgueiro e Alexandre Frazão, com o qual grava Palavras ao Vento e Mano a Mano.

No retomar da carreira dos Xutos & Pontapés, prosseguem os registos com o grupo.

Em 1995, outro projeto de referência tomava forma: a partir de uma história de João Monge musicado por João Gil, produzido por João Gil, Rui Veloso e Tim, contando ainda com as participações de Jorge Palma e Vitorino, nasce o Rio Grande, cujo nome é da autoria de Tim, e que atinge outra vez a grandeza no panorama português. Ainda nesse ano Tim é convidado por Manuel Faria a participar na compilação de Natal – Espanta Espíritos com o tema Uma Rocha Negra em dueto com Andreia.

Segue-se o primeiro disco a solo Olhos Meus em 1999, que contou com a participação de Samuel Palitos, Frederico Valsassina, João Cardoso e Gui.

Entretanto os Xutos & Pontapés continuavam a absorver a maior parte do trabalho de Tim, com outros álbuns de originais e com tournées e concertos de grandes dimensões, que culminaram com a comemoração dos 25 anos de carreira no Pavilhão Atlântico. Surge ainda outro projeto de reunião, Cabeças no Ar, com letras de Carlos Tê e música de João Gil e Rui Veloso, produção de João Gil, Rui Veloso e Tim.

A 9 de junho de 2004, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito.

Em 2006 surge Um e o Outro, o seu segundo disco a solo, em que conta com a participação de João Cardoso, Pedro V. Gonçalves e Samuel Palitos, e ainda com Mariza e Mário Laginha como convidados. Surgem duas versões: Estrela do Mar de Jorge Palma e Epitáfio dos brasileiros Titãs.

Em 2008, Tim lança o seu terceiro álbum a solo Braço de Prata, com originais e também adaptações dos Sétima Legião, dos Rio Grande, de Adriano Correia de Oliveira, de Bernardo Santareno, de João Gil e dos próprios Xutos & Pontapés. Para este disco, Tim contou com João Cardoso (Humanos) no piano e teclado, de José Moz Carrapa (Ala dos Namorados) nas guitarras, de Fernando Júdice (ex-Madredeus) no baixo, de Fred (Buraka Som Sistema, Oioai e Yellow W Van) na bateria e de Gabriel Gomes dos Sétima Legião no acordeão.

O disco Companheiros de Aventura é editado em março de 2010 e em 2012 é lançado Companheiros de Aventura Ao Vivo em que surgem convidados como Celeste Rodrigues, Teresa Salgueiro, Rui Veloso, Mário Laginha e Vitorino. No mesmo ano sai o disco “O Cerco Continua” com músicas do disco Cerco mas noutra versão.
Em 2014 com os Xutos e Pontapés lança o disco Puro, que comemora os 35 anos da banda.

Em 2019 nasce o projeto Almada – À Sombra do Cristo Rei, banda formada por Tim e os seus filhos, Vicente no teclado e Sebastião na bateria, e Nuno Espírito Santo no baixo. Com os Xutos e Pontapés, lança o disco Duro, que comemora os 40 anos da banda.

2020 marca o lançamento de mais um disco a solo 20-20-20 (três vintes), gravado entre Portugal e Canadá, do qual será lançado, no dia 10 de junho, o single Canadá – tema completamente “criado” no estúdio de Toronto.

Revista Amar - Tim
Tim em concerto intimo no Sony Sound Stage Créditos © Carmo Monteiro

Revista Amar: Gostaria de começar pelo ínicio… e o íncio foi em Ferreira do Alentejo.
Tim: (risos)… sim, nasci no Alentejo e toda a minha família é alentejana.

RA: Mas depois mudaram-se para Almada…
Tim: Sim, como a maior parte dos alentejanos, os meus pais também tiveram que deixar a terra natal, digamos assim, por volta dos anos 60, à procura de uma vida melhor.

RA: Que idade é que tinha quando se mudaram?
Tim: Tinha 5 anos.

RA: E o que é que ficou ou existe de “marca alentejana” na sua personalidade?
Tim: Muitas coisas. Possivelmente por gostar muito de azeitonas, pão… (risos) essas coisas mais básicas e se calhar a vontade e disponibilidade para cantar.

RA: Mas o Cante Alentejano é um género mais dolente comparado ao que o Tim está habituado.
Tim: (risos) sim, mas é aquela coisa de se ter vontade de cantar sem vergonha.

RA: Não só… Também é o maior letrista dos Xutos e Pontapés, para além das canções dos seus discos a solo. Essa vertende e facilidade de escrever também tem muito a ver com o facto de ser alentejano?
Tim: Tem e é uma forma de expressão, que acho que deriva também dessa vontade de cantar. Portanto, se abro a voz, quero cantar e para cantar tenho que ter música e letras para dizer. No caso dos Xutos e Pontapés, onde fiz o meu maior trabalho as músicas são de todos. Muitas vezes aparecem temas onde ainda se tem que fazer a letra. Os temas não são só meus… aparecem do João Cabeleira, do Calú e de outros, mas a facilidade vem de não ter medo e ter uma certa vontade de abrir a voz e cantar e escrever qualquer coisa. Eu sou um letrista, porque consigo fazer as letras para as canções, digamos assim.

RA: O que se nota nas suas letras é que há uma ligação muito próxima, ou seja, passar para o papel situações próximas da realidade… muito vividas.
Tim: Também, às vezes sim e outras parece que nem têm sentido… isto das canções é uma coisa que realmente nem sei explicar. Quando se presta muita atenção, é como quando se rega as plantas demais… murcha (risos)… não funciona bem. Quando não se liga nenhuma, às vezes sai bem. Portanto, há aqui muitas coisas que se podem fazer em termos de letra. Eu servi-me muitas vezes de imagens da minha vida, de coisas que me lembro… memórias. Às vezes não temos a sequência completa de acontecimentos de uma memória, mas temos as imagens fixas. Há canções que resultam por exemplo por causa de um sinal vermelho numa certa situação, que pode significar um sinal vermelho que estava a viver na minha vida e por aí fora… Nestes últimos 5 a 6 anos também tenho estado a trabalhar, como por exemplo com os Tais Quais onde tenho cruzado letras num trabalho conjunto com o Vitorino, a Celina da Piedade, o Vicente Palma, o João Gil etc… é uma troca de sabedoria e experiência.

RA: Contudo essa proximidade à realidade é fundamental para agarrar o público… as pessoas sentem-se, de uma certa maneira ou por algum motivo, identificadas com a letra. Apesar que há quem diga que o Rock passa outro tipo de mensagem.
Tim: Eu acho que não. Voltando ao mesmo, eu penso que se as pessoas gostam, agradecem e, gostam quando se sentem tocadas também na sua realidade e na sua memória, ou seja, quando de alguma maneira qualquer coisa que uma canção diga, minha ou de outra pessoa, lhes toca lá num certo sítio e desperta um determinado sentimento. Eu também não sei dizer como é que consigo chegar às pessoas ou dizer como vou fazer as coisas e se são bem feitas ou não.

RA: Pois, não deve estar a pensar nisso quando está a escrever.
Tim: Não mesmo, as coisas têm que sair de forma muito natural, muito ao decorrer da pena na maneira que se está a escrever. Lá está outra vez, quando penso muitas vezes num tema, muitas vezes tenho que o abandonar porque senão fica maçador, até para mim deixa de ter brilho e começa a ser um trabalho quase como uma redação.

RA: Tem que ser espontâneo?
Tim: Sem dúvida. Uma palavra tem que puxar por outra, um som tem que puxar por outro e assim sucessivamente. E tem que ser assim. Por exemplo, há letras extremamente simples que são aquilo e as pessoas gostam delas por isso mesmo, há letras quase sem sentido, como disse, mas que têm uma sucessão de palavras que desperta nas pessoas um sentimento. Às vezes o que escrevo pode nem ter uma explicação e a interpretação pode ser variada… e é o que as pessoas quiserem.

RA: Temos estado a falar das letras, mas tudo começou pela música.
Tim: Eu sou um músico.

RA: É músico e toca guitarra desde dos 15 anos. Mas como é que essa se ligação à música se fez?
Tim: Fez-se um bocado por teimosia, pois nem tinha nenhum descendente familiar ligado à música. Mas a história é um bocado comum a todos os artistas e músicos, digamos assim. A partir dos 6-7 anos, no colégio em Almada, fui escolhido para o coro e, no coro, descobri a minha alegria em cantar e a cantar com os outros… cantávamos coisas da missa, mas pronto. Por volta dos 13 anos consegui convencer os meus pais, que iam a Espanha naquela altura, a trazerem-me uma guitarrinha e trouxeram. E a partir daí com o pessoal com quem eu andava nos escuteiros, aprendi muito a tocar guitarra e, viola com o Cante Livre, com as canções da altura, do pós 25 de Abril. Os mais velhos que sabiam mais do que eu, ensinaram-me a tocar. Depois fui tocando aqui e ali, os grupos eram esporádicos, porque na altura não havia muita gente que tocasse e a música era uma coisa meia abandonada e havia até um certo estigma, uma pessoa ser músico era enveredar para uma carreira noturna, não muito aconselhável. Aos 19 anos já me tinha dedicado ao baixo e convidaram-me para fazer uma audição para um grupo que se estava a formar, que eram os Xutos e Pontapés, e acabei por entrar no primeiro ensaio. A partir daí comecei no trabalho de músico a sério. Nesse ano, 1979, quando fiz 19 anos, aconteceram-me três coisas muito importantes… primeiro lugar, entrei para o Conservatório para o Curso de Contrabaixo que era um sonho que eu tinha em concretizar, em segundo lugar, entrar na Faculdade de Agronomia de Lisboa e conheci a minha mulher e em terceiro lugar, fizemos os Xutos e Pontapés.

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Concerto dos Xutos & Pontapés – PCWOF2019 Créditos © Carmo Monteiro
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Concerto dos Xutos & Pontapés – PCWOF2019 Créditos © Carlos Monteiro

RA: Digamos que foram coisas muito bem-sucedidas…
Tim: Não, o contrabaixo abandonei ao fim de 6 meses. O Curso de Agronomia demorou algum tempo, mas acabei-o… contudo não lhe consegui dar o uso devido.

RA: Mas o que o levou a escolher esse curso? Foi a “costela alentejana?
Tim: Foi a “costela alentejana” e foi o facto de desde muito novo acompanhar os meus tios… um tio meu era capataz e tomava conta de propriedades e lembro-me perfeitamente de ir assistir à apanha da azeitona e de sempre que podia metia-me no Volkswagen com ele para ir para o campo, dos meus 3,4, 5 anos. Eu adorava ir para o campo. Depois, também tive outros trabalhos, enquanto adolescente de escritório e abominei estar fechado num sítio sem luz à espera para sair às 6 da tarde, fez-me confusão só de pensar que estava a gastar a minha vida ali, preso. Quando acabei o liceu e tinha notas para ir para qualquer lado, porque fui bom aluno no liceu, eu e um colega, depois de andarmos às voltas, achámos que a Faculdade de Agronomia além de ser um curso que se revelou ser muito abrangente, era muito livre e a escola era lindíssima e tínhamos aulas no campo. Não foi fácil acabar, porque, entretanto, a música meteu-se no caminho, mas acabei e gostei. Exerci por 6 meses para fazer o estágio e depois, as coisas na altura não eram muito fáceis e a saída profissional não era muito vantajosa. Quando acabei o curso estavam os Xutos e Pontapés a fazer os “Contentores” e como se sabe, depois disso a coisa virou (risos).

RA: A sua vida ligada aos Xutos e Pontapés é mais do que conhecida. Porém vale a pena ressalvar a importância que deram à Língua Portuguesa numa altura em que se associava cantar em português a algo “piroso” ou muito pouco moderno… e vocês deram um “pontapé” nisso!
Tim: Demos, porque tínhamos que dar. Aquilo que disse de ter aprendido com o Cante Livre ensinou-me e a nós a conseguirmo-nos exprimir melhor e a passar as nossas ideias de forma muito mais audível e até credível se disséssemos em português, porque estava no sangue. Os Xutos e Pontapés quando começaram foi tudo muito rápido e efervescente. Nós tínhamos um vocalista na altura, que era o Zé Leonel, que também escrevia bastante bem e que era uma pessoa muito repentista e eu também aprendi muito com ele e dei, mais ou menos, continuidade ao que ele fazia e eu sentia-me muito mais à vontade e em especial honesto em cantar em português, portanto, não estava a fingir que era o John Lennon, nem este ou outro… eu era eu, os Xutos eram os Xutos e estávamos a fazer aquelas coisas que não se pareciam com outras que havia em inglês. Depois, também me parece que as pessoas abriram um bocado os ouvidos para a Língua Portuguesa através desse movimento. Mas também podemos falar dos UHF, dos GNR e em toda essa gente.

RA: Claro que sim… mas digamos que os Xutos e Pontapés, aliás até pela durabilidade do grupo se vê, conseguiram esse fenómeno de atingir de uma forma absolutamente transversal a sociedade portuguesa, talvez não de imediato, mas hoje quando se olha para a carreira dos Xutos, vocês apanham dos mais novos aos mais velhos de uma forma transversal…
Tim: Às vezes eu até fico bastante espantado com isso… fundamentalmente, nós fazemos as coisas porque gostamos de as fazer, fazemos da maneira que nós pensamos que mais nos agrada, mas no fundo temos sempre uma resposta do público que nos admite e permite estar a tocar. E como estava a dizer, às vezes ainda me sinto um bocado atrapalhado e vou dar uns exemplos… às vezes vêm jovens de 20 anos pedir-me um autografo para o pai ou para a mãe e há pessoas com 30 ou 40 anos a pedir autógrafos para a filha e nos concertos temos os filhos, os pais e às vezes com os avós… a família inteira! E uns gostamos mais disto e outro daquilo, mas o mais interessante é que estão em comunidade.

RA: Mas houve um momento da sua carreira com os Xutos em que houve uma certa “tensão” quando decidiu dar um salto e fazer outras coisas, na altura que foi para os Resistência.
Tim: Houve sim, quando fui para os Resistência. Os Resistência aparecem numa altura em que vários grupos estavam num impasse, digamos assim… os Xutos e Pontapés tinham vindo dos problemas que tinham tido com o agente e estávamos sem manager e tivemos que interromper a tournée e, por isso fiquei ali talvez com 2 ou 3 meses em que só tinha que resolver problemas e nós não estávamos propriamente a tocar, estávamos a tentar resolver os sarilhos para depois recomeçarmos, se conseguíssemos claro, no ano a seguir. Ao mesmo tempo os Delfins também estavam mais ou menos parados, depois de terem feito um disco gravado ao vivo, mas que ainda iam misturar no estúdio, mas quando o foram ouvir estava com problemas e não iam conseguir fazer nada, contudo o estúdio já estava marcado, e os Madredeus estavam numa situação, digamos entre discos. E o que aconteceu é que eu, o Cunha, o Miguel Ângelo e o Pedro Ayres Magalhães, juntámo-nos para fazer uma aparição num espetáculo, se não me engano, na Central Sindical numa manifestação e tocámos um tema de cada um e aquilo correu, como se costuma dizer, muito escorreito entre nós, correu bastante bem e foi fácil. A partir daí, eles convidaram-me para continuar com o trabalho e os Xutos que estavam numa situação, como eu disse, um bocado problemática e dura, eu acho que ficaram com aquela sensação de perda e talvez um bocado magoados, não sei… porque os Resistência tiveram um sucesso fantástico. Se os Xutos estavam a tocar para 3 mil pessoas, os Resistência também tocavam para 3, 4 ou 5 mil. Não é que os Resistência fossem melhor que os Xutos, só que realmente o país na altura estava a viver uma situação em que o público mais jovem estava a crescer e tínhamos, ao contrário de hoje, uma juventude pujante… isto há 20 ou 25 anos! Talvez por isso eles não se sentiram muito bem e ainda hoje quando se fala dos Resistência aparecem algumas pessoas a dizer que não se deve falar muito disso, porque as pessoas podem não gostar. Mas entretanto, nestes anos que têm passado e agora tenho tocado com os Resistência e viemos até aqui, a Toronto em 2017, um dia tocaram os Resistência e no outro os Xutos, temos trabalhado bastante bem em conjunto e eu acho que da minha parte e da parte do Xutos se ganhou bastante, quer em abertura de conceitos, de cabeça e na maneira como se fazem as coisas.

RA: Que às vezes, também há essa necessidade disso, não é?
Tim: Claro.

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Concerto dos Resistência – Portugal Week 2017 Créditos © Carmo Monteiro
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Concerto dos Resistência – Portugal Week 2017 Créditos © Carmo Monteiro
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Concerto dos Resistência – Portugal Week 2017 Créditos © Carmo Monteiro

RA: Mesmo quando enveredou pelos discos a solo, sempre com o trabalho dos Xutos por de trás também… quando fez isso, também não foi um pouquinho a necessidade de “deixa-me cá ver se também sou capaz de fazer coisas diferentes”?
Tim: Nem é “se sou capaz”… é sentir-se vontade e prazer em fazer uma coisa um bocadinho diferente, ou seja, às vezes quando fazemos uma coisa diferente e depois quando voltamos a fazer o nosso trabalho regular damos outro valor porque conhecemos o outro lado da moeda e sabemos aquilo que nós podemos não gostar… imagine que estamos a fazer trabalhos dos Xutos e às tantas é sempre as mesmas coisas, as mesmas pessoas, sempre as mesmas piadas, sempre as mesmas conversas e ficamos um bocado cansados disso… e como isto não é como um casamento (risos) digamos assim, se uma pessoa for tocar com outros músicos, conhecer outros músicos e fazer outro tipo de música pode realmente abrir horizontes e depois quando volta, traz novas ideias e o trabalho flui muito melhor. E depois, essa ideia também foi seguida pelos outros, pelo Calú e o Zé Pedro que também fizeram os seus trabalhos e pelo Gui que anda agora a tocar com os Dead Combo. É bom para um músico ou em qualquer profissão, mas sendo músico faz muita falta haver comunicação com outros músicos, porque senão ficamos fechados no nosso pequeno universo a olhar para o nosso umbigo com medo de toda a gente.

RA: O que não lhe falta, é uma rede de músicos bastante diferentes com quem tem trabalhado… desde Rui Veloso, Vitorino – uma marca completamente diferente!
Tim: Ah! (risos) Isso tem sido… Jorge Palma, João Gil… sei lá… Manuel Paulo dos Ala dos Namorados… ui! Tem sido um prazer conhecê-los a todos.

RA: E é enriquecedor, não é?
Tim: Sim, é… em termos de conhecimentos, amizade e desfrutar da profissão que tenho.

RA: Estamos em Toronto e próximos de um estúdio onde está a ser preparado um novo trabalho do Tim em nome próprio. Pode-nos contar alguma coisa sobre isso ou levantar um pouquinho o véu?
Tim: Estamos sim e posso contar tudo o que quiser (risos)… o que acontece é que o meu último disco a solo de originais já tem algum tempo e entretanto as coisas foram andando e no ano passado, mais ou menos por esta altura, tive um convite da Culturgest para fazer lá uma apresentação, que eles queriam que fosse uma espécie de “os melhores momentos”, era um Best of, digamos. Eu para esse concerto já estava a trabalhar com o Moz, mas não estava a trabalhar com o Nuno Espírito Santo, contudo estávamos no projeto de Almada, À Sombra do Cristo Rei com os meus dois filhos, o Vicente que toca teclas e o Sebastião que toca bateria e o Nuno no baixo. Então pensei que podia juntar as duas coisas, o Moz na guitarra, o Sebastião na bateria, o Vicente nos teclados e o Nuno no baixo e fizemos esse concerto. Sentimo-nos muito bem a fazer o espetáculo e pensei que tinha uma banda eficiente com quem eu gostava de estar, com valor e independentemente disso, estava com os meus filhos. Então comecei a engendrar um plano para continuar a usufruir deste prazer, porque assim é que é engraçado.

RA: E agora vai passar então, digamos, essa experiência para algo que vai ficar para prosperidade, é isso? Para que não fique apenas na memória das pessoas.
Tim: Sim… e o que é que eu fiz? Arranjei um conceito simples e lembrei-me de um maço de tabaco que havia antes em Portugal que era uma coisa barata que se chamava 20-20-20 (três vintes). E porque se chamava assim? Porque eram 20 cigarros, 20 gramas, 20 centavos (risos)… e pensei “está tudo dito!”. E arranjei maneira de arranjar umas ideias simples, uns arranjos simples e tentar fazer uma música direta com as pessoas que tenho ao pé de mim, de maneira a aproveitar o empurro que elas tenham para dar para fazer algo diferente. Já havia uns temas e numa primeira fase, que não foi assim há muito tempo, levei-os para a minha casa onde tenho um estúdio pequeno no meio do campo e fizemos uma pequena parcela do trabalho, 4 temas. Depois como tínhamos temas diferentes, pensei que podia ir para outro ambiente para os temas mais acústicos, uns 2 ou 3, e fomos para a praia da Azambujeira fazer esses temas na altura do Carnaval. No meio disto tudo andava à procura de um estúdio fora de Portugal para usufruir desta companhia diferente, para não ser aquela coisa que quando saio do estúdio “vou para casa e depois amanhã telefono-te e tal” e a gente vai-se desligando… eu queria que fosse assim, uma coisa mais nuclear, unidos e a partilhar este momento e a ideia que apareceu, no meio disto tudo, foi procurar em Toronto… também procurei Moscovo (risos), mas achei que tinha que ser em Toronto.

RA: Essa história de tocar com os filhos… os seus filhos foram para a música, por sua vontade ou não era isso que queria que acontecesse, como é que foi?
Tim: Eu sou um bocado e tenho sido um bocado exigente, mas não nos termos musicais… eu e a mãe sempre pedimos que fizessem o seu percurso académico e o Sebastião, o mais velho, frequentou a Faculdade de Ciências e tirou o curso em Engenharia Biométrica, embora não tenha feito o Mestrado, mas fez as cadeiras e o Vicente está na Faculdade de Belas Artes a tirar o curso de Pintura… no meio disto tudo metemo-los na Conservatória de Santarém, quando ainda eram pequenitos, foram estudando, depois chatearam-se com aquilo e depois voltaram… um para a bateria e outro para os teclados e quando dei por mim, sei lá… há uns 6 anos ou uma coisa assim, começaram a tocar regularmente. Eles acabaram por ter uma vida semelhante à minha, mas só queria que eles fizessem o esforço de ir ao piano, mesmo que não gostassem e o mesmo para as aulas, porque acho que frequentar o ensino superior faz desenvolver o nosso cérebro, o nosso pensamento e até ficamos menos brutos (risos).

RA: E não é só isso… num Mundo onde as coisas estão cada vez mais ao dispor de toda a gente, se não houver bases de sustentação, é só mais um, não é? Não há uma forma das pessoas se distinguirem…
Tim: E não sabem o que escolher… eu considero isso. Não é o haver muito produto à disposição ou muitas coisas que é nefasto, o que pode ser nefasto é as pessoas fazerem as escolhas erradas, fazer as escolhas que não são as melhores para a vida delas por desconhecimento, por preguiça, por falta de saber, por não ler um jornal como deve de ser, por não abrir ou saber interpretar um livro. E nisso eu tive sorte, de eles serem interessados e de serem pessoas que se preocuparam em se cultivar.

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Concerto dos Xutos & Pontapés – Portugal Week 2017 Créditos © Carmo Monteiro

RA: Sorte ou será que o ambiente familiar leva a que eles cresçam de uma certa maneira?
Tim: Também pode ser, mas a vida é cheia de voltas e por muito que um pai queira um filho faz sempre a sua vida…

RA: A falar nisso, em relação aos seus pais, fez o que o que eles queriam?
Tim: Fiz… fiz até um certo ponto.

RA: E eles ficaram contentes de ter o filho como vocalista do Xutos e Pontapés?
Tim: Claro que ficaram e têm um orgulho imenso e uma grande alegria nisso e gostam muito das coisas que eu faço… mas ainda hoje a minha mãe tem medo de eu não ter trabalho (risos). Houve uma fase mais complicadinha, quando eu acabei o curso e já tínhamos os “Contentores” e fui falar com o meu pai e disse “olhe pai, isto vai ser assim… eu gosto de fazer música e é isto que eu faço e também tenho o curso, mas é assim… eu vou fazer um concerto dos Xutos e Pontapés e ganho o dobro do que se tivesse noutro trabalho” e ele disse que “só tenho medo é que depois vais para a má vida e que te percas”.

RA: E a “má vida” aconteceu de facto? Os Xutos e Pontapés passaram por aquele ambiente próprio da juventude?
Tim: Toda a gente é nova na vida (risos).

RA: Os concertos Rock são sempre associados a coisas muito pesadas…
Tim: Depende. É como tudo… há o bom e há o mau e o que mais há é mediano. Não é assim nada do outro mundo! Um grupo como os Xustos, como uma carreira longa, tem tido problemas desses e enfrentamos muitos problemas desses. Mas foram coisas que foram acontecendo, nunca foi aquela ideia de que “somos famosos e vamos arrebentar com tudo em 3 meses”, isso nunca aconteceu! Tivemos e ainda temos os nossos tempos bons, as nossas diversões… mas como temos muitos concertos e muitas coisas para fazer, essa parte mais louca e mais dura acabou por não ter mais espaço… e isso pode-se também a agradecer à família e aos filhos porque dão um outro rumo e estabilidade no dia a dia. Depois, a uma certa altura apareceu o cansaço, uma pessoa deixou de ter 30 anos e a coisa começou a ir para outro lado (risos)… mas, não me arrependo de nada desses tempos loucos, quando nós só queríamos acabar o concerto para depois ir para a discoteca.

RA: No percurso dos Xutos também teve coisas menos boas, como há uns anos quando estavam no aeroporto de partida para Toronto e…
Tim: É verdade… o falecimento da Marta no aeroporto, a nossa agente… e acabámos por cancelar a viagem. É curioso, na altura ia trazer o meu filho Vicente, que era pequeno e como não viemos fiquei com pouco de pena de não ter mostrado, pelo menos ao Vicente, o Toronto que eu conhecia, porque sempre achei que a vida aqui era diferente, dentro das suas responsabilidades tinham um grau de liberdade interessante, com uma diversidade engraçada e uma mistura de culturas boas na cidade… a cidade, para mim, tem um lado muito positivo… mais um motivo para teremos vindo agora até aqui.

Entrevista conduzida por Madalena Balça

Transcrição Carmo Monteiro

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Tim em entrevista à Camões TV e Revista Amar Créditos © Camões TV
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Tim em entrevista à Camões TV Créditos © Camões TV
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Tim em entrevista à Camões TV e Revista Amar Créditos © Camões TV
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Tim e amigos em estúdio nas instalações da MDC Media Group Créditos © Carmo Monteiro
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Tim e amigos em concerto intimo no Sony Sound Stage Créditos © Carlos Monteiro

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