Pião
CrónicasHistória

Pião

O brinquedo que gira desde 4 mil a.C.

Um jogo infantil, uma peça ligada a rituais de premonição e à leitura de presságios. O pião já cá anda há muito e, tudo indica, continuará a girar. Pelo menos, na nossa memória.

A alegria girava à porta de casa ou nas ruas. Girava nos pátios das escolas e nos largos das aldeias. Rodopiava onde quer que fosse que as crianças se encontrassem. A alegria que fazia soltar gargalhadas tinha o mesmo nome de hoje, pião.

Um objeto simples e barato que entretinha durante horas a fio. Isto se remontarmos à infância de várias gerações de portugueses que, sem esforço, se lembram bem de o segurar nas mãos ou de o guardar nos bolsos das calças ou calções. Mas, antes disso, há outras histórias para contar.

O pião não é só um dos mais velhos brinquedos tradicionais portugueses. É também um dos mais antigos da humanidade. A sua existência vai longa e até já esteve associado aos rituais de premonição ou à leitura de presságios.

Sabe-se que o pião existe desde o ano 4000 a.C.. Vestígios de um exemplar em argila foram descobertos na margem do rio Eufrates, que corre através da Síria e do Iraque para se unir ao Tigre, que desagua no golfo Pérsico.
O pião teve direito a representações nos vasos gregos e até consta em algumas passagens na Ilíada, de Homero, e na Eneida, de Virgílio. O comediante Aristófanes era totalmente fascinado pelo pião. Platão chegou a usá-lo como metáfora para o movimento. Girou e girou nas cabeças, nos poemas e na arte de gente que a História reconhece como sendo ilustre.

Por cá, surgiu humilde, de surdina, algures no tempo. Provavelmente já feito em madeira, com um famoso bico de metal. Teófilo Braga dedicou-lhe uma canção. E assim ficou como o verdadeiro e popular pião português. Leve e divertido.

Redondo na parte superior, adelgaçado na parte de baixo. Mais difícil de dominar do que aquilo que parece. Os mais audazes conseguiam pô-lo a rodopiar no chão, mas também na palma da mão. Enrolavam-lhe uma corda, um baraço, uma guita ou um cordão, do bico quase até ao pescoço, que é o bojo.

Para uns, bastava depois segurar o pião na mão e lançá-lo com força para o chão, para que rodopiasse o máximo de tempo possível. Para outros, os profissionais, a brincadeira durava enquanto o pião se mantivesse dentro do círculo que previamente tinha sido desenhado no solo.

Nesse patamar, a proeza contava com vários jogadores que disputavam a permanência do objeto dentro da circunferência. Hoje, apesar de mais esquecido, não deixa de estar em jogo. Quanto mais não seja, rodopia na nossa memória. E gira, gira, gira.

Do oriente com arte

O exemplar de pião mais antigo do Mundo encontrado até hoje data de 1250 a.C. e está em exposição no Museu Britânico, em Londres. Foi descoberto em Tebas, na Grécia, onde o objeto era muito apreciado. Convém frisar, no entanto, que muito embora os gregos e os romanos tivessem o pião como um brinquedo, as culturas orientais, nomeadamente a China e o Japão, foram responsáveis pela introdução no Ocidente. Foi nessas terras que as crianças e os adultos elevaram o potencial do pião, brincando com ele e convertendo-o numa verdadeira arte. A ponto de haver no Oriente diversos espetáculos dedicados ao jogo. Entre eles destacam-se números em que os praticantes, depois de lançar o pião, usam outros objetos para o fazer rodopiar na palma das mãos ou em tábuas duplas, passando-o de uma para a outra.

Filomena Abreu

NM

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